Foto da revista Visão. Do alto de Olinda: Recife lá na linha do horizonte (1)

“Toda cidade é uma lenda,/ lendas de ferro e cristal”. Assim canta Zé Ramalho, em Cidades e Lendas, de 1996. Há cidades antigas; há cidades modernas; há cidades mundialmente conhecidas por isso ou por aquilo…; há cidades apenas cidades. O mais importante é serem bem acolhidos seus habitantes e visitantes, seja em Paris, “a Cidade Luz”; Roma, “a Cidade Eterna; Rio de Janeiro, “a Cidade Maravilhosa”; ou Olinda, bonita e famosa.

Olinda, que fora tombada pela UNESCO como “cidade patrimônio natural e cultural da humanidade”, a antiga capital de Pernambuco, com 484 anos de fundação. “Além de abrigar o maior acervo arquitetônico e urbanístico das primeiras décadas do período colonial no Brasil e de desfrutar de privilegiada posição geográfica, enfrenta hoje [1983] as mazelas que afligem os médios e grandes centros urbanos brasileiros, agravadas no caso por peculiaridades locais negativas” (1).

Em meados dos anos 80, essa cidade tinha 300 mil moradores. Mas, apesar de linda, também cheia de problemas sérios. Um deles vem do mar. Ou seja, o mar que acaba com ruas e casas. Outro, é a concentração populacional (10 mil hab/km2). Assim como a falta de adequada infraestrutura urbana, o turismo predatório e a escassez de recursos financeiros municipais. E, até mesmo as enchentes periódicas do rio Beberibe. Essa constatação é daquela década.

Se tudo isso não bastasse, no auge da temporada turística, a cidade recebe, 500 mil visitantes – quase dois turistas para um morador. E, parte desse número não está preocupada na resolução de problemas ou em preservar “relíquias espalhadas pelos 10,4 km2 da área tombada”, cuja decisão foi acertada, incontestável, como se verifica hoje, quase 4 décadas depois.

Desde 1930 que o sítio histórico de Olinda, fundada pelos portugueses, já vinha sendo preservado, a partir do tombamento de seus principais monumentos. Porém, a decisão anunciada pela UNESCO em 82, foi apenas para oficializar as ações nesse sentido. Em 1980, o Congresso Nacional Brasileiro, já havia dado 1º passo no reconhecimento desse lugar como patrimônio da humanidade.

“Aliás, a responsabilidade de conservar as relíquias que encantaram o dirigente da UNESCO Amadou Matar M’Bou é, hoje, de toda a comunidade brasileira e até de todos os povos do mundo. E somente na medida em que essa responsabilidade for assumida por todos – Governo e oposição, autoridades e cidadãos comuns, olindenses e visitantes – é que o título de “patrimônio natural e cultural da humanidade” poderá ser encarado tão-somente com orgulho, superadas as mazelas que resultam em dor de cabeça para o povo de Olinda” (1).

Quais foram os dotes da cidade utilizados para o processo de elevação almejada desde a década de 70, quando foi apresentado o primeiro projeto à Câmara Federal, “dando à cidade condição de monumento nacional E assim, a ideia foi crescendo crescendo até chegar à UNESCO. Tornando-se, portanto, realidade? São muitos. Vejamos a seguir, alguns deles.

“Mas o mérito maior é mesmo da velha cidade, que combina um valioso legado histórico e extraordinária beleza natural” (1). Por exemplo: 1. “O traçado urbanístico, denotando notável transposição cultural de Portugal dos tempos coloniais; 2. Os monumentos isolados de excepcional valor histórico da arquitetura renascentista italiana no Brasil; 3. O conjunto do casario, valorizado até por seu ecletismo, ao possibilitar uma leitura de 484 anos de modos e estilos de vida; 4. A extraordinária paisagem natural (conjugada ao mar, vegetação e topografia de grande beleza tropical; 5. A vida local e a comunidade, onde se manifesta cultura de fisionomia peculiar, baseada numa história rica e cheia de feitos” (1).

Apesar do grande incêndio causado pelos invasores holandeses em 1631, em Olinda, lá ainda estão valiosos monumentos históricos e arquitetônicos, como: a Igreja da Graça, contígua ao Seminário Jesuíta, construído entre 1584 e 1592, com traçado italiano, um dos mais importantes do Brasil, o Mosteiro e a Igreja de São Bento, cuja versão atual data de 1761, mas já existia desde 1599. Foi lá que funcionou o 1º curso jurídico do Brasil, o Convento de São Francisco, também incendiado pelos holandeses em 1631 e reconstruído na 2ª metade do século XVII, a Igreja do Carmo, iniciada em 1588 e concluída no século XVIII, a antiga Cadeia Eclesiástica, hoje Museu de Arte Contemporânea, a Igreja da Misericórdia, do século XVI, o antigo convento de Santa Teresa (1686?), onde funciona um colégio religioso desde 1863, o antigo Palácio dos Bispos, onde funciona o Museu de Arte Sacra , entre outros.

Em dezembro de 2018, faltou muito pouco para eu conhecer a vista panorâmica, os casarões – inclusive o sobrado histórico onde mora o cantor e compositor Alceu Valença -, as ladeiras, as pessoas e cultura de Olinda, a convite de Winnie Barros que estudava em Recife. Mas, a vista fora adiada. Por falar em Alceu, ele adotou morar em Olinda, há muitos anos, como a sua segunda terra natal e, por onde costuma caminhar com frequência, naquelas ruas históricas, principalmente. Fascinado pela efervescência cultural local e regional, “Alceu ajudou, a dar visibilidade mundial ao carnaval de Olinda, Sua obra não desprezou os maracatus e os frevos. E o sucesso nos conduziu para os casarões e ladeiras da cidade patrimônio histórico da humanidade” (2).

Foto de Júlio Jacobina/ABI. Encarte (2)

“O artista transformou Olinda em refúgio e também em centro de seu furação. Ali podemos encontrar todos os elementos que ele nos canta. Nas velhas ruas estão os passistas, as sombrinhas do frevo, os blocos, os bonecos gigantes do Carnaval” (2), inclusive o bloco Urso Maluco Beleza, fundado por ele. Ali, ainda, está a sensualidade da gente morena, “que aparece estampada nos versos e na melodia de Tropicana e explicitada em Como Dois Animais. Ou ainda, nos ritmos do disco Maracatus, Batuques e Ladeiras. Em Olinda estão as personas de Alceu, que enganam a imprensa e os amigos fantasiando-se de Rod Stewart e aparecendo na janela de sua casa. Está o artista que se veste de índio e causa confusão na Câmara dos Vereadores durante a cerimônia em que ele recebia o título de cidadão de Olinda” (2).

Em 82, quando lançou o LP “Cavalo de Pau“, em poucas semanas Tropicana era sucesso nacional. A música era executada nas rádios, programas de televisão; nas ruas, nos bares, enfim, em todo Brasil. A vendagem de cópias passou de 1 milhão. Num segundo momento, do mesmo disco, outro sucesso: Como Dois Animais, quando todos cantarolavam estes versos: “Uma moça bonita/de olhar agateado/deixou em pedaços meu coração”. Passados alguns meses do lançamento, outro sucesso de “Cavalo de Pau”, Pelas Ruas que Andei. Sem exagero: até hoje, 38 anos depois, a gente ainda ouve tocar esses clássicos nacionais.

Os mais jovens quando ouvem Como Dois Animais, pensam o quê? Pensam em um casal de namorados “se amando na praça“? Ela, “no cio”? Ele, “um cão vagabundo”? Assim, como pensava a minha geração. Ledo engano. Não é nada disso. É sim o respeito e a admiração do artista, do compositor, ao morador, ao cidadão, Alceu por Olinda. É seu “eu lírico” declamado em poesia, ou seja, paixão poética e musicada. Vamos à letra original, do disco:

COMO DOIS AMINAIS

Uma moça bonita/ de olhar agateado/ deixou em pedaços meu coração/ uma onça pintada/ e seu tiro certeiro/ deixou os meus nervos/ de aço no chão.

Foi mistério e segredo/e muito mais/ foi divino o brinquedo/ e muito mais/ se amar como dois animais.

Meu olhar vagabundo/ de cachorro vadio/ olhava a pintada/ e ela estava no cio/ era um cão vagabundo/ e uma onça pintada/ se amando na praça como dois animais.

“Toda cidade é uma lenda”. Cada um de nós, onde mora, é óbvio, faz parte da sua cidade. Portanto, cuide bem dela, para que todos possam cuidar bem de você, do seu legado histórico e cultural.

Notinha histórica – Amanhã, 15 de novembro, 131 anos da República Brasileira: o que mudou efetivamente na política partidária? Amanhã, ainda, Eleições Municipais: o que mudará, se o eleitorado não acertar as suas escolhas?

Pesquisa, texto e fotos por: Francisco Gomes e Angeline Gomes

Fontes: 1. Documento: “Olinda, bonita e famosa“, revista Visão, 18.02.83, pp.64/67; 2. Alceu Valença. col. MPB Compositores, vol.33, ed. Globo, 1997; 3. LP “Cavalo de Pau“, gravadora Ariola, 1982.