Consta na rica biografia do cantor e compositor Antônio Carlos Gomes Belchior Fontinelle Fernandes (1946-2017), artisticamente conhecido por Belchior, que o mesmo foi um profissional muito talentoso: lia muito, pesquisa tudo o que era do seu interesse, dentro ou fora da música.

Ao longo da carreira “destaca-se por composições que falam de amor e paz e ao mesmo tempo incitavam às lutas sociais. As letras de suas canções revelam sólida formação intelectual e muitas vezes trazem fragmentos de poetas e romancistas brasileiros e estrangeiros” (1)

Essa solidez, esse aprendizado nos remete à sua infância quando o menino morava e estudava em Sobral (CE), onde foi “cantador de feira, poeta repentista e estudante de piano. No Colégio Sobralense, aprende música, línguas, filosofia e canto gregoriano” (1). Ainda adolescente muda-se para Fortaleza, onde, em 1968, ingressa no curso de Medicina na Faculdade Federal do Ceará, mas no quarto ano abandona os estudos para dedicar-se à música.

Foi a partir da década de 70 que emplacou vários sucessos de sua autoria e de parceria na própria voz e na interpretação de cantores como Fagner, Elis Regina, Vanuza, Simone, entre outros. Seus discos, tecnicamente sofisticados, ao serem lançados, sempre trazem canções que marcaram época. Ao longo de alguns anos o Facetas, reuniu alguns dos principais LPs de Belchior, tais como: Alucinação (76), no qual estão Apenas um Rapaz Latino Americano, Como Nossos Pais e A Palo Seco; Coração Selvagem (77), onde podem ser ouvidas: Paralelas, Todo Sujo de Baton e Caso Comum de Trânsito; Belchior (79), traz: Medo de Avião (I e II), Voz da América e Meu Cordial Brasileiro.

Na década de 80 vieram outros lançamentos, entre eles, em 1988, o disco Elogio da Loucura, composto de 10 músicas. Duas delas, além do título e da contracapa, chamaram a minha atenção quando adquiri o LP em 1990: Amor de Perdição e Lira dos Vinte Anos, ambas de Belchior e Francisco Casaverde. Não há, portanto, no disco, na capa nem na contracapa, qualquer observação, referência ou justificativa por parte do produtor, do cantor, do coautor ou da gravadora a respeito da autenticidade do título do disco e das duas composições em questão e sobre a foto da pintura da contracapa, sem registro de autoria, se seus criadores, originalmente falando, não fossem identificados. A saber:

ELOGIO DA LOUCURA – Um dos livros mais conhecidos da literatura mundial, há mais de 500 anos, de Erasmo de Roterdã (1466/69? – 1536). Humanista holandês, cujo nome verdadeiro era Erasmo Desidério. Nascido em Roterdã (atualmente grande cidade portuária da capital holandesa, Amsterdã). Quis ser padre, mas mudou de ideia. Essa obra é de fundo satírico que investe contra o obscurantismo consagrador da pseudo-religião. Assim, exerceu grande influência na literatura do século XVI.

“A palavra loucura adquire, na obra de Erasmo, uma dimensão plena de ambiguidade e uma rara elasticidade. Trata-se de loucura como energia criativa nas ações humanas”. Passados 5 séculos de sua 1ª edição (1509), o prazer da leitura, ainda leva muitos leitores às páginas de o Elogio da Loucura. Por sinal, escrito na casa do amigo do autor, o escritor inglês Tomás More, em Londres. Diz Erasmo: “tendo, pois, decidido empreender a realização de alguma coisa, e não estando em condições favoráveis para compor obra séria, senti o desejo de divertir-me fazendo o Elogio da Loucura”. Imagina se o mesmo estivesse inspirado.

More, autor de Utopia, além de pensador e diplomata, foi brilhante advogado. Em 10 de junho de 1508, Erasmo escreve ao amigo: “mas por que sugerir-vos meio de defesa a vós, tão excelente advogado, em cujas mãos se tornam ótimas causas que nem sempre são das mais excelentes. Adeus sapientíssimo More. Defendei cuidadosamente esta loucura que vos pertence” (2).

AMOR DE PERDIÇÃO – A música traz estes versos dos compositores: “caso, descaso; desastres da paixão/ Oh! Real ilusão – o bem e o mal em vão!/ Caso. descaso; desastres da paixão/ Oh! Real ilusão – amor de perdição!”

Só um detalhe: o popular escritor português Camilo Castelo Branco (1825-1890), escreveu em 1861 e publicou em 1862, a novela “Amor de Perdição“, considerada sua obra-prima, que relata a história de amor entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens que experimentam sua primeira e grande paixão. No entanto, a inimizade de suas famílias impede o casamento” (3). Daí para a frente, só tragédia. Um livro espetacular!

LIRA DOS VINTE ANOS – Uma das obras mais festejadas da nossa literatura, e a mais importante do poeta paulista Álvares de Azevedo (1831-1852). O livro é composto de 3 partes: primeira – Surge o poeta sonhador que busca o amor. Segunda – Agora é a vez do eu lírico revoltado, irônico, realista. Quando surgem, então, versos sombrios. Terceira – Em seus poemas, o poeta manifesta a tristeza; a aproximação da morte, o que finalmente ocorre aos 21 anos de idade.

Lira dos Vintes Anos, o livro, contém o “que há de melhor e mais autêntico na produção do poeta Álvares de Azevedo. Falta de palavras peculiares, a obra expressa com fidelidade a essência deste autor, que buscou incessantemente pelo amor e encontrou na boemia um caminho para fugir da realidade” (4).

Identicamente ao livro, a Lira… de Belchior e Casaverde apresenta estes versos: “meu pai não aprova o que eu faço/ tampouco eu aprovo o filho que ele fez”. Tanto ao leitor quanto ao ouvinte, as dúvidas persistem. As semelhanças também. Mas como é tarde para se obter uma resposta de Belchior, as questões devem ser formuladas ao coautor Francisco Casaverde, o Ferreirinha, que continua atuando no mundo artístico.

Apesar dos livros: “Elogio da Loucura“, “Amor de Perdição” e ” Lira do Vinte Anos” serem de domínio público – por existirem há mais de 1 século – esse registro não isenta os autores do disco “Elogio da Loucura” das devidas formalidade referenciais e autorais dos criadores das obras originais.

Contracapa do LP “Elogio da Loucura”

Não se trata de uma crítica – não é esse o nosso papel -, mas apenas de uma observação (ou constatação?). Caso fossem citados no LP trariam mais grandeza e credibilidade ao disco de 88. O silêncio, portanto, suscitou dúvidas se houve plágio. E

m favor da verdade dos fatos, bem que Ferreirinha, compositor de mais de 300 letras e professor de música, poderia sanar os questionamentos provenientes dessa “descoberta”. Agindo assim, tanto a memória quanto a obra de Belchior continuarão preservadas.

Notinha de alerta – Para refletir sobre o Brasil que insiste em não banir as suas mazelas raciais contra o negro, cujo Dia da Consciência Negra foi “comemorado” ontem, 20, escolha uma ou as duas citações a seguir: “Ser livre não é apenas se livrar das correntes que lhe prendem, mas viver sendo capaz de respeitar e engrandecer a liberdade dos outros”, Nelson Mandela (1918 -2013 ). “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, publico só assiste de camarote”, Lima Barreto (1881 -1922).

Por Francisco e Angeline Gomes.

Fontes: 1. http//enciclopediaitaucultural.org.br – acesso em 16.11.20; 2. Roterdã, Erasmo. Elogio da Loucura. – Novo Brasilr. – SP: 1982; 3. Castelo Branco, Camilo. Amor de Perdição. SP: Escala, 2008; 4. Azevedo, Álvares de. Lira dos Vinte Anos, 2 ed. – SP: Escala, 2008; 5. LP “Elogio da Loucura“, Polygram/Philips, 1988.