Amazonas: “cultura, história e memória” (Parte final)

Na primeira parte publicada em 28.11.2020, foram abordados, a partir da introdução de “Cultura, história e memória” e suas características sobre o homem amazonense, seja na sua formação, seja na sua consciência de mundo, de vivência, principalmente. Agora, nesta parte final, trato, especificamente de: “A cultura da Manaus inculta: a cidadania ausente sob as luzes do progresso”.

Acervo pessoal

Antes, o autor faz excelente análise in “A cultura no Amazonas sob a heteronomia e a barbárie: três razões a explivitar”, ou seja, “a primeira de ordem epistêmico-filosófica; a segunda, de ordem ético-política e a terceira, de ordem pedagógico-histórica” (1). Nesse contexto, o livro torna-se muito interessante. Pois aborda questão sobre a cultura local, onde todos sabem quais são seus alicerces.

“É a cultura que informa os olhos com os quais o homem vê e compreende o mundo. Não existe para o homem um olhar inocente, natural, imediato, colado a um modo de vida primordialmente isento de conflito. O conflito é o mais humano dos constitutivos ontológicos do homem. Os tempos ditos idílicos mais resultam de forças projetivas que de um real passado arquetípico” (1).

Fazer de cultura, história e memória o tripé para uma única abordagem, é coisa para pesquisador genial. E, como tal, sem sombra de dúvida, pode ser considerado o ensaio de Alcimar de Oliveira. Enquanto mais a gente aprofunda a leitura de suas palavras, mais convicção tem da seriedade e da sapiência com as quais o autor fez a sua investigação científica, isto é, as suas “reflexões filosóficas”.

Na tentativa de responder as questões que o impacienta sobre a cidade de Manaus, primeiro foi consultar o genial cineasta espanhol naturalizado mexicano, Luís Buñuel (1900-1983), o qual “expressa com singular lucidez o quanto significa a memória para a definição de uma existência”, em Meu Último Suspiro: “É preciso começar a perder a memória – diz ele (o espanhol-mexicano) -, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada” (1).

São palavras espetaculares, estas de Buñuel. E as completando, num sentido menos formal, digamos assim, Oliveira suscita questionamentos do tipo: “Se no plano da existência subjetiva é razoável concluir por impossível uma vida humana sem memória, não é menos razoável indagar se uma cidade sem memória seria uma cidade? Seria digno desse nome? Que substrato cultural pode existir numa cidade em que a memória abdicou de sua existência coletiva, em que suas formas de sensibilidade espácio-temporais se reificaram num processo cultural cujos acontecimentos, valores, enfim, sua identidade se dissolveu sob o regime da heteronomia da consciência? Como cultivar a memória sob o cerco de um processo cultural que se satisfaz na assimilação exógena e reificada do que lhe constitui sua tessitura identitária?” (1).

A cidade à qual se refere é Manaus que, segundo o estudioso, vive sob o “arrivismo mercantil e predatório“, edificada “às margens da cidadania”, num aglomerado humano sem cidadãos, sem um projeto racional de vida coletiva”. O levantamento vai além dessas afirmações, quando faz outros questionamentos sobre o que significa saber do passado ao longo dos séculos, se Manaus “tem sido senão uma negação permanente e não dialética de si mesma. Manaus se olha no espelho do colonizador para se reconhecer na recusa do perfil índio e caboclo que ofusca sua heterônoma identidade” (1).

Seu estudo o leva a dizer que a identidade da cidade em questão situa-se “numa zona de limbo antropológico”, ou seja, enquanto envergonha-se de seus traços primitivos, transige com o colonizador, o mesmo que soterra Manaus para construir a Paris dos trópicos ou a Miami Brasileira sob o enclave da Zona Franca, concebida da mentalidade predatória-capitalista. “Manaus reeditou mais de um século depois, menos como tragédia do que como farsa, todos os capítulos de perversão social patrocinados pelo capitalismo na industrialização de Manchester do século 19” (1).

Por esse prisma, socialmente falando, pergunta o autor: “Em que se converteu Manaus?” Num “pseudoprogresso?” Então, “como Manaus vê Manaus?” “Como é a Manaus da pós-modernidade neoliberal?” E sobre a cultura da cidade inculta, sentencia: “Se, em sentido próprio, da cidade e civilização, o que dizer de uma cidade que caminha em sentido contrário ao próprio conceito. Manaus é uma deficiência cívica. Nela o desenvolvimento humano deu lugar à eficiência pragmática do lucro, do retorno imediato. Seu progresso é inteiramente refratário à cidadania. Manaus não forma nem quer cidadãos. Manaus quer “deficientes físicos”, para usar a oportuna expressão de Milton Santos. Manaus, a persistir o atual estado de heteronomia cultural e de barbárie instalada, adrentará (já adentrou) no século 21, longe, muito longe, das conquistas humanas da vida civilizada” (1)

Oliveira não para por aí. Segue afirmando ser o capital uma velha conhecida da “barbárie do capitalismo extrativista”, de início. Depois, da “barbárie do capitalismo industrial de montagem”, que resultou “na neobarbárie do capitalismo globaizador da expulsão social, denominado neoliberal”. Cujo reflexo é visível no comportamento consumista de sua gente manauara, seja das elites, seja dos excluídos. Esta constatação tem nome próprio: miséria cultural.

“Os manauaras de hoje, embora habitem a terra dos ancestrais de relativa proximidade cronológicae geográfica, dificilmente se reconhecem na história negada dos Manau, dos Barés e dos Tarumã, povos livres dentre outros, que em combatem desigual não puderam conter a sangria de um modelo de vida, de valores e de culturas milenarmente anteriores à invasão colonial” (1). Eis aqui a Manaus da pós-modernidade; da cultura dominada – predatória e hostil -, exposta “no espelho da história”. Tem mais: “Tenta dissimular a vergonha e a culpa de sua não assumida ancestralidade indígena”. Manaus gosta mesmo é daquilo que ´tem resultado imediato, quer dizer, “da ausência de mediações reflexivas”. E, ao completar diz: “A vida da cultura em Manaus opera sempre de modo reativo, numa fruição epidérmica de seus sempre negados valores estéticos” (1).

No final de suas “reflexões filosóficas”, no que se aplica a citada capital amazonense, assevera: “Manaus se alimenta de rejeição e só reconhece o gesto colonizador de quem a despreza […]. Manaus desaprendeu que não há cultura sem autonomia, sem substrato qualificativo […]. Manaus substitui cidadãos por consumidores (consumidos pelo consumo)”.

Ao concluir sua obra, o autor volta-se para o Amazonas – tema central da pesquisa. Onde garante que “desde as primeiras investidas da empresa colonizadora, o devir (assim mesmo: devir) da história da cultura amazonense tem sido permanentemente realizado por interesses exógenos, contrários à vida e aos valores do seu povo […]. A cultura amazonense carece de inteligibilidade e de discernimento” (1).

Amigo leitor. Amazonense ou não, se este tema interessa ao vosso estudo, se possível, leia o livro que motivou estes dois artigos aqui publicados. Assim, você terá todo o direito de emitir opinião concordante ou discordante de José Alcimar, da sua abordagem, do seu levantamento. Poderão surgir novas propostas. Por exemplo, nas referências consta o nome do professor universitário, jornalista, crítico e historiador amazonense José Ribamar Bessa Freire, o qual assegura: “Ninguém quer se identificar hoje com os vencidos de ontem, porque isto implica assumir o fato de que Manaus é uma cidade derrotada. Derrotada e mal-amada. Mal-amada porque desconhecida”.

Por Francisco Gomes e Winnie Barros

Fonte. 1) Oliveira, José Alcimar de. Cultura, história e memória, 2ª ed. Manaus: editora Valer, 2014.

Um comentário em “Amazonas: “cultura, história e memória” (Parte final)

  1. A verdade é sempre uma ferida dolorida, mas que não pode deixar de ser exposta, para abrir a possibilidade de ser tratada. Esta é uma das matérias mais interessantes das que já li no facetas culturais. Parabéns ao conterrâneo Francisco Gomes e a Winnie Barros. Preciso adquirir esta obra de Oliveira para conhecer melhor seu trabalho.

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