Luz Negra, a música

Ataulfo Alves

Quem lida com música – direta ou indiretamente -, sabe bem que é Tárik de Souza, ou seja, é o jornalista, escritor e crítico musical carioca, de 74 anos. Durante muitos anos escreveu para vários jornais sobre esse ou aquele disco, ou artista, entre outros temas.

O Facetas adquiriu o disco (LP) Luz Negra (nacional), lançado em 1988 pela SomLivre, com 14 faixas (músicas). Todas são de autores e/ou intérpretes afrodescendentes. A coordenação do projeto é de Aretuza Garibaldi. Excelente trabalho. Seleção musical imperdível. Cantores espetaculares.

Na contracapa, a gravadora explica o porquê desse projeto, com esta nota: Luz Negra (nacional e internacional) é uma homenagem à raça negra através de sua música no centenário da Abolição. Procuramos selecionar entre os mais representativos compositores e intérpretes da música negra certos, entretanto, de não termos esgotado o assunto: Para isso seriam necessários não dois, mas uma dezena de discos. A todos os ausentes nossa admiração e respeito”.

Voltemos, então, ao Tárik. No encarte do LP, há uma excelente análise desse crítico sobre cada música, assim:

“O negro desembarcou na terra promissora das Américas agrilhoado no porão dos navios. Mas não permaneceu numa posição cultural subalterna. Aos poucos a música negra foi se infiltrando pelas frestas da cultura dominante até modificar por completo a situação e transgredir a hierarquia de valores estabelecida pelo poder econômico. Hoje é possível contemplar o sólido edifício musical do jazz como um projeto musical autônomo, em permanente reciclagem. O rock nasceu exatamente de um casamento proibido pela segregação racial: o country caipira dos brancos deserdados, entrelaçado ao blues dos negros plantadores de algodão. Partindo da América Central, o calipso, a cha cha cha, o reggae, o mambo, a valsa e as inúmeras transfusões de ritmos calientes e letras perturbadoras alimentam há anos as fornalhas das pistas de dança do mundo todo.

No Brasil, na casa das matriarcas tias baianas aclimatadas no centro do Rio no início do século, cozinhou-se em fogo esperto o que seria uma fusão dos batuques dos terreiros com a umbigada semba, trazida da África. Do trivial variado inicial do lundu, ao sassarico de salão do maxixe até chegar ao samba já infiltrado no sopé dos morros pelos bambas articulados do Estácio. Um ritmo que virou escola, tornou-se identidade do país do futebol e do carnaval: produto industrializado casou-se ao jazz e aos clássicos na exportável bossa-nova, gerada nos apartamentos das metrópoles.

A música negra não ficou no samba apesar de suas inúmeras vertentes de gafieira, terreiro, breque, enredo, canção, partido alto ou exaltação. Do sortido sotaque nordestino ao cancioneiro sulista; das franjas nortistas aparentadas ao merengue aos afro-blocos baianos trieletrizados, há sempre um canto negro em cada ponta do novelo da música nacional. Ancestrais pianeiros, engravatados flautistas, roqueiros de jeans e camiseta; há sempre uma tintura negra a serviço dos timbres mais coloridos do planeta. “Negro é a soma de todas as cores”, já dizia o poeta Gil que neste roteiro despacha um reggae indignado contra o Apartheid sul-africano (Oração pela Libertação da África do Sul). “É preciso ter raça, é preciso ter gana mesmo”, emenda Milton Nascimento com a pungência dos bronzes mineiros. Ou Nervos de Aço como admite, tratando da questão amorosa, o gaúcho Lupícínio Rodrigues através do seu porta-voz (e que voz!) Jamelão.

O clamor de outras vozes – as da seca – ressoa na sanfona do rei do baião Luiz Gonzaga, enquanto Jackson do Pandeiro mistura Chiclete com Banana na mesma proporção em que o inventor da fusão Samblues, Jorge Ben, traduz para o jeitinho brasileiro o slogan da era dos Panteras, black is Beautiful. Martinho da Vila abre alas para a escola de samba dissidente Quilombo, com um enredo dos escolados Nei Lopes e Wilson Moreira. O poeta Cartola descobre fibra por fibra o coração da Mangueira, Sala de Recepção do samba de morro. Paulinho da Viola questiona a marginalização do sambista “nessa terra de doutor”.

Todas essas veias abertas injetam no canto, no toque, no gesto brasileiro o traço negro: o urbano Djavan (Meu Bem-Querer), mãe Clementina de Jesus em visita à zona rural (Moro na Roça) e um Pixinguinha à parte do choro, em aliança com o batuque na cozinha do candomblé do ritmista João da Bahiana (Yaô). Claro como o Ébano de Luiz Melodia. Tal como outro bardo de rua, o boêmio Nelson Cavaquinho inventou de cantar, acompanhado da Divina Elizeth, na luminosidade ofuscante de sua singular Luz Negra – a que ilumina o teatro sem cor para a evolução aflita dos palhaços do amor. Todos nós, raça humana” (1).

Excelente texto. Palavras sob medidas, e necessárias de serem ditas. Nenhum cantor deixa de ser citado. Nenhuma música deixa de ser “cantada”. Nós, do Facetas gostaríamos que todas as 14 músicas tivessem suas composições expostas aqui, mas, por questão de coerência textual, ilustramos apenas Raça (Milton Nascimento-Fernando Brant), de 1976, cujos versos dignificam cada pessoa negra, seja brasileiro ou não; artista ou não; cada cidadão, enfim. Estas palavras de Tárik são fortes: “Luz Negra, a que ilumina o teatro sem cor para a evolução aflita dos palhaços do amor. Todos nós, raça humana”.

R A Ç A

Lá vem a força, lá vem a magia/Que me incendeia o corpo de alegria/Lá vem a santa maldita euforia/Que me alucina. me joga e me rodopia/Lá vem o canto, o berro de fera/Lá vem a voz de qualquer primavera/Lá vem a unha rasgando a garganta/A fome, a fúria, e o sangue que já se levanta/De onde vem essa coisa tão minha/Que me aquece e me faz carinho/De onde vem essa coisa tão crua/Que me acorda e me põe no meio da rua/É um lamento, um canto mais puro/Que me ilumina a casa escura/É minha força, é nossa energia/Que vem de longe pra nos fazer companhia/É Clementina cantando bonito/As aventuras de seu povo aflito/É seu Francisco, boné e cachimbo/Me ensinando que a luta é mesmo comigo/Todas Marias, Maria Dominga/Atraca Vilva e Tia Hercília/É Monsueto e é Grande Otelo/Atraca atraca que o Naná vem chegando” (2).

Vidas negras importam.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fontes: 1. LP “Luz Negra” (nacional), SomLivre, SP, 1988. 2. LP “Personalidade“, de Milton Nascimento, Philips, 1987.

Um comentário em “Luz Negra, a música

  1. Bela viagem deslumbrante do mundo negro musical, enraizados do contexto africano.
    Parabens Facetas, por nos presentear mais uma vez com tão maravilhosa descrição narrativa.

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