Entre Palavras e Versos (1ª parte)

Capa: Raimundo Duarte

No dia 05.23.2020 fui presentado pelo amigo Antonio Carlos LACERDA de Souza, muito conhecido em Lábrea (AM),com os livros: “Vicente Huidobro e Manuel Bandeira”, de Carlos Nejar e Juan Antonio Massone, respectivamente, e “Versos de sangue em multicores”, do poeta amazonense Elias de Souza.

Versos de sangue… veio somar-se a outros quatro livros desse autor, e mais a “Anuário de poetas do Brasil-86” (org. Aparício Fernandes), onde o amazonense participa com NEGRAS RAÍZES NA VISÃO DE UM POETA, da página 123 à 134. Todas essas obras com ricas dedicatórias à minha pessoa.

Indiscutivelmente, seu nome já faz parte do rol dos poetas brasileiros. Com quase uma dezena de publicações (todas independentes e pela mesma editora: a Scortecci/SP), além de participação com diferentes trabalhos em obras de outros autores, inclusive coletâneas, já é uma referência literária, não apenas regional.

O primeiro lançamento foi em 1994. De lá para cá não parou mais de produzir. Em breve irá para o prelo um novo livro com poemas inéditos, cujo título poderá ser: “Educação, sujeitos e criticidade”. O catálogo das publicações é este abaixo: Retalhos de mim (1994); Palavras e versos (1998); Educação e aprendizagem: frases que educação e frases que ensinam (2007); Versos de sangue em multicores (2010); Educação para a mediocridade e alguns antídotos (2012); Reflexões para uma educação metacompetente (2015). Livro duplo: Título 1: Rascunhos de poemas quase filosóficos; título 2: Ensaios de pensamentos que não li em livros (2016). Sobre esse livro duplo, o autor esclarece: “São conteúdos de gêneros distintos, publicados num mesmo volume”. Nossos momentos (org. – 1995). Participação especial em outras produções literárias: Anuário… (1986); Educar é um ato de amor; Educar é um ato político; e Educação em foco: desafios e perspectivas para o processo de ensino-aprendizagem (os 3, de 2020). As apresentações dessas obras são muito bem feitas. Geralmente por pesquisadores, escritores, professores, etc, e que, realmente conhecem o trabalho sobre o qual está se reportando. Não apenas cumprindo tabela editorial.

Já é de praxe deste blog, conciliar a bibliografia, a discografia com a biografia do (a) pesquisado (a). Achamos isso importante para os nossos leitores. Porque na correria do dia a dia, eles não precisam mais acessar isso ou aqui na Internet para obter maiores informações do seu interesse. O mesmo critério está sendo adotado neste estudo. Vamos então, a um resumo da vida nosso pesquisado, assim como da sua trajetória acadêmica.

Elias Bezerra de Souza (57) nasceu em Pauini (AM), no dia 5 de agosto de 1964. Residente e domiciliado em Lábrea (AM), é servidor federal, casado e pais de quatro filhos. Aos 11 anos, o pequeno seringueiro – quem conhece como é sobreviver na selva, sabe bem que nessa idade, ou até antes, a criança segue com o pai na madrugada “cortando a seringueira” para obter o látex -, se muda com a família para morar no Município vizinho de Lábrea (AM). Somente em 1976 inicia os estudos primários, os quais foram concluídos em 1983. Para acelerar seu aprendizado, “a maior parte fez em cursos supletivos: Projeto João da Silva (MOBRAL); Projeto Conquista; Supletivo de Primeiro Grau; Projeto LOGOS II. Formou-se Pedagogo pela Universidade Federal de Rondônia, onde também especializou-se em Metodologia de Ensino Superior e em Gestão e Gerenciamento Escolar” (1). No entanto, não parou por aí.

Aprovado em concurso público, em 1987, foi empossado como funcionário do Banco do Brasil, no qual trabalho em Lábrea e Porto Velho (RO). Depois de 27 anos – de 1987 a 2014 – nessa instituição, hoje esta aposentado. Porém, apesar de suas intensas atividades bancárias, soube com maestria conciliar seu tempo com a produção literária, sem prejuízo para ambas. Assim como continuou regularmente os seus estudos secundário e universitário, ou seja, um verdadeiro desafiou, principalmente para quem vive num país que não tem por hábito priorizar a formação educativa dos cidadãos.

Atualmente é professor concursado do IFAM, lotado no Campus daquela cidade. Onde, por sinal, está finalizado seu mestrado em Ensino de Ciências e Humanidades, pela UFAM, cuja dissertação será apresentada neste semestre. Paralelamente a essas atividades funcionais, o poeta continua participando (como já participou) de publicação de outras obras, por exemplo, de “Rimas Amazônicas”, isto é, uma excelente coletânea de Cordel, participando com o emocionante ´poema O Assassinato de Irmã Cleusa. Para quem não sabe foi um crime brutal ocorrido nos anos 80, quando a freira tentou apaziguar contendas entre índios da zona rural, daquele Município. Nas estrofes 37 e 38 seguintes, está evidente a sensibilidade poética do autor, ao revelar em rimas aquele fato delituoso: 37: “No Cemitério de Lábrea/Seu corpo foi sepultado/Seguido pelo seu povo/Que chorava inconsolado/Muitas faixas de repúdio/Pelo fato consumado”. 38: “Ficou pra nós seu exemplo/O seu jeito de viver/O compromisso com os pobres/No seu contínuo sofrer/A devota missionária/Morreu cumprindo o dever”.

Aos 14 anos começou a escrever poesias, o que continua fazendo até hoje, e com muito brilhantismo. Naquela fase da adolescência, começou a “rascunhar as (suas) primeiras linhas poéticas”. No entanto, não se dedicou ele apenas ao “ofício poético”, propriamente dito, mas “também crônicas, peças teatrais, textos, etc. Em abril de 1984 – aos 20 anos – publicou pela primeira vez seu trabalho poético na revista “Mocidade”. Várias de suas poesias foram declamadas em escolas, concursos de poesias e até gravadas em programas de rádio. Foi o vencedor do 1º, 2º, 3º e 4º lugares no Concurso de Poesias realizado em 5/3/86 pelo Centenário da cidade de Lábrea-AM” (2).

Em 1986 – 8 anos antes do lançamento do seu primeiro livro -, o poeta já estava pronto para criar, rimar e versejar (versejar no sentido autêntico) como está demonstrado nesta citação, cuja tônica de suas palavras é a firmeza, a segurança, sem deixar de lado a modéstia: “Não me considero um poeta diante dos mestres da poesia, como Mário Quintana (de quem já era admirador e se tornou ao longos anos, amigo) e tantos outros mais. Só sei que amo a poesia. Amo a poesia porque ela é vida, é sentimento, é riqueza de espírito, é esperança, é renascimento, é sorriso e é ternura. Amo a poesia, porque ela é também lágrima, dor, angústia, tortura, desespero. É ferida magoada, é cicatriz arrebentada e é solidão compartilhada. Amo a poesia, porque ela é a chama que me acende a vida” (2).

“Sem perder a ternura jamais”, Elias de Souza sabe que “as palavras guardam o segredo do seu significado”, como bem disse o jurista Miguel Reale (pai). Por quê? Porque as palavras transformam as pessoas, e as pessoas transformam o meio: o meio ambiente, o meio sociológico e antropológico, o meio político, o meio cultural e educacional, enfim, o meio onde vivemos, ou seja, a vida. Seja para melhor ou não – preferencialmente para melhor, é lógico. O poeta sabe muito bem qual é o seu papel, a altura do tom (e o som) dos seus versos, do seu “grito de alerta”, desde o sei primeiro livro. Desde lá, há uma constante preocupação com a precariedade da educação em todos os níveis, com a desigualdade social que grassa entre os brasileiros pais afora, com a desintegração de famílias por diversos fatores, entre tantos outros temas.

Nas “orelhas” de “Retalhos de Mim”, assim está escrito: “De cada dia da minha vida, tiro um retalho para a vida de alguém. De cada hora do meu dia, tiro um minuto para a vida de alguém. De cada momento meu, tiro um momento para a vida de alguém (…). Onde quer que eu ande, tem alguém que caminha até mim. Como quer que eu esteja, tem alguém que confia em mim” (fragmentos).

Quatro anos depois das inconfundíveis palavras citadas no parágrafo acima, ou seja, em 1988 (no apagar das luzes do século XX), o poeta externa mais contundência e inquietude às suas preocupações, as quais podem ser constatadas na obra “Palavras & Versos”, assim: “Esta ficando cada vez mais difícil viver e conviver com tanta desigualdade social, em meio a tanto descaso para com a vida humana, diante de tanta violência e marginalidade em tamanha miséria! Precisamos, urgentemente, unir nossas forças em prol do bem da humanidade” (trechos).

Esperamos que os nossos leitores gostem. Principalmente aqueles que ainda não conheciam o poeta aqui pesquisado. Em breve, a segunda e ultima parte dessa análise.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Souza, Elias de. “Versos de sangue em multicores”. – São Paulo: Scortecci Editora, 2010; 2. “Anuário de poetas do Brasil – 1986” (org. Aparício Fernandes), 3º volume. – Rio de Janeiro: Folha carioca editora, 1986.

Um comentário em “Entre Palavras e Versos (1ª parte)

  1. Obrigado facetasculturais por trazer a seu público a biografia do nosso amigo escritor poeta Elias de Souza, pauiniense de nascimento e labrense de coração. Ficarei ansioso pela 2a parte, da rica pesquisa de sua vida literaria.

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