Do pianista Pedrinho Mattar

Capas dos 5 LPs da Série Especial.

Quando o assunto é “Música Brasileira”, logo nos vêm à mente o samba, a MPB e outras derivações musicais que, a partir da década de 80, principalmente, estão ganhando espaço entre o público jovem. No entanto, não se pode deixar de lado a importância da chamada “música instrumental”, digamos assim. Por exemplo, o Brasil já teve (e tem) grandes instrumentistas, e muitos deles foram e são notáveis aqui e no meio internacional.

Porém, o destaque do Facetas de hoje é sobre Pedrinho |Mattar. Pedro Mattar, nasceu em São Paulo (SP) em 19 de agosto de 1936 e faleceu em 7 de fevereiro de 2007, aos 70, em Santos (SP),vítima de infarto fulminante. Seu interesse pela música surgiu na infância e, ainda muito jovem tornou-se pianista renomado, diga-se de passagem, nos gêneros jazz, clássico e MPB. Seu último trabalho foi “Meu Piano Favorito”, de 2002. Quando completou 25 anos de carreira, sua gravadora lançou uma série especial de cinco discos, de 1978 a 1982. O encarte do volume 5 traz o seguinte depoimento do músico:

“Nasci em São Paulo no dia 19 de agosto de 1936, sou do signo de leão e embora não seja muito fiel à Astrologia, tenho todas as características dos nascidos sob esse signo regido pelo Sol. Estou comemorando 25 anos de carreira, ou melhor, de profissionalismo, pois minha carreira começou (sem eu saber) quando eu tocava nas festas de fim de ano no colégio onde estudava. Era infalível. Durante a entrega de medalhas e troféus, o aluno Pedro (ainda não era Pedrinho) Mattar exibia seus dotes pianísticos, atendendo a insistentes pedidos dos seus professores e colegas.

Confessor que nunca pensei em me tornar um pianista profissional, mas sempre fui muito feliz nesta carreira que resolvi seguir, contrariando a vontade de meus pais que não queriam que o filho caçula de 10 irmãos se tornasse artista. “Artista não é profissão”, dizia meu pai chateado.

É muito difícil para eu escrever em poucas linhas sobre tantas coisas que me aconteceram nestes anos todos, mas ainda me lembro quando menor de idade fui tocar escondido da família numa boate muito estranha para mim na época. Várias moças sentadas que saíam e voltavam sem parar. Aliás, o movimento era muito maior fora da boate do que dentro dela. Quando chegava a Juizado de Menores, o pianista (eu) era trancado no banheiro para escapar à infração.

Na ocasião, sugeriram um nome artístico para mim, alegando que Mattar não era muito comercial. O nome escolhido foi “Piers”. Pedro Piers. Não gostei. Escapei por pouco de ser PP. Até uma peruca tentaram me impor. Não aceitei nada disso, pois o que eu queria mesmo era desenvolver meu dom nato para a música popular.

Toquei com excelentes músicos e aprendi bastante, mas até hoje mantenho um estilo muito pessoal. Enquanto ia aperfeiçoando minha maneira de tocar, melhorava também o nível das casas onde atuava.

Já formado no colégio, pude me dedicar exclusivamente à minha arte, continuando a estudar música clássica (que não abandono até hoje) e cuidando com carinho das minhas apresentações.

Para mm, toda a noite é noite de esteia, mas devo reconhecer que tive momentos importantes, como minha primeira viagem internacional em 1957 para Las Vegas, com a cantora Leny Eversong, onde ficamos por mais de um ano.

Voltei ao Brasil com cartaz e prestígio, inaugurei o João Sebastião Bar, ao lado de Claudette Soares. Esse época ainda é lembrada com muita saudade por todos que acompanharam nosso sucesso. Recebi na ocasião, o prêmio de melhor pianista da noite, e logo comecei a ser contratado para atuar nos mais importantes programas de televisão do país, e estreei um programa próprio, onde além de tocar, recebia convidados e entrevistava gente famosa.

Surgiu então o convite para a minha primeira gravação.

Sempre achei que o disco representa para o artista, o mesmo que a ferramenta para o operário. Elemento indispensável para um trabalho perfeito.

Gravei três LPs de bossa-nova, alguns editados no exterior com sucesso, e em seguida fui para a Europa com minha amiga Maysa.

Portugal, Espanha, França e Itália fizeram parte do nosso roteiro.

Viajei por quase toda a América do Sul, e gravei um LP em Lima, no Peru, com músicas brasileiras e internacionais, que alcançou o primeiro lugar na parada de sucessos local, prolongando minha temporada naquela cidade.

De volta ao Brasil, me apresentei como solista de um concerto no Teatro Municipal acompanhado pela Orquestra Sinfônica Municipal. Despertei a curiosidade do público e crítica, pois era a primeira vez que um pianista de música popular se apresentava naquele local. Grande expectativa! Suspense total! Mas alcancei um êxito absoluto, e “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin foi transformado em novo disco (Rapsódia), o que me valeu todos os prêmios do ano como instrumentista.

Participei do 1º Festival de Música de Vanguarda realizado na América do Sul, e recebi o título de “O Rei do Teclado” por diversificar o mais possível minhas atuações, e por ser o pianista que mais tem procurado popularizar o piano, levando-o para locais públicos como o coreto da Praça da República, as escadarias do Teatro Municipal e a Praça da Sé, entre outros.

Essas apresentações sempre me gratificaram muito, pois toco nessas ocasiões para um público de mais de 5 mil pessoas.

Atuei recentemente em Washington, na Casa Branca, a convite do então presidente Jimmy Carter, e com um repertório exclusivamente de músicas brasileiras, alcancei grande sucesso, o que me valeu novas atuações naquele país.

Gravei mais outros discos, e atualmente sou contratado da gravadora RGE, onde venho gravando a série “Especial”. Já gravei 5 volumes e o LP “Brasileirinho”, conseguindo o Disco de Ouro por mais de 100.000 exemplares vendidos. Isso muito me orgulha, pois não é sempre que um instrumentista no Brasil recebe tão importante troféu. Inclusive tenho planos e intenções de ganhar outros.

Sempre fui muito coerente com a minha arte e meu público, e na medida do possível procuro levar ao disco algumas das músicas mais solicitadas em minhas apresentações. Gosto de atender a pedidos, mesmo quando alguém diz:

-“Ei, Pedrinho, toca “Eu vi o gato na esquina”. Toco. É “I ve got you under my skin”. Ou então! – “Aquela do incêndio, aquela do incêndio”. Já sabendo do que se trata, toco a “dança do fogo”.

Em meus shows, gosto de me apresentar sempre de black-tie, o que leva a ter uma coleção de mais de 50 roupas de gala. Talvez seja uma vaidade pessoal, mas qual o artista que não é vaidoso?

Tive também momentos muito tristes e difíceis, quando em ocasiões diferentes, perdi meus pais e dois irmãos de maneira inesperada. Apresentei meus espetáculos como se nada tivesse acontecido, e só Deus realmente me deu forças para que eu pudesse atuar sem que o público percebesse alguma coisa. Mas como diz a frase célebre: “The show must go on”. O show deve continuar.

Apresentações por todo o Brasil, novas excursões à Europa, Estados Unidos e América do Sul, noites mal dormidas, a expectativa de uma estreia, um novo disco, a afinação do piano, o programa de televisão que já vai começar, poses para novas fotos, a temporada na boate, o telefone que não para, o repertório a ser escolhido, o smoking a ser passado. Tudo isso já faz parte do meu dia-a-dia, e são coisas (entre tantas outras) que já encaro com bom humor e naturalidade.

Comecei a estudar piano ainda criança, e mesmo depois de atuar profissionalmente por 25 anos quase sem parar, ainda mantenho a disposição de um estreante e o entusiasmo de um amador, e embora não seja nostálgico, quero agradecer sinceramente às pessoas que me ajudaram e ao publico que tem me prestigiado durante esse tempo todo.

E, finalmente, meu carinho todo especial a esse companheiro inesquecível: o meu piano, que de tão acostumado comigo, abana a cauda cada vez que eu chego perto. Pedrinho Mattar“.

Passados 14 anos de sua morte, sua obra continua vivíssima entre nós brasileiros e estrangeiros. Assim como continua via a sua memória, como a de tantos outros nomes que contribuíram (e contribuem) para a riqueza cultural de nossa música, como um todo. Esta é a nossa homenagem a toda categoria de artistas, seja cantor, produtor, ator, ou circenses, etc, que por sinal, vive momentos difíceis por conta das restrições governamentais para conter essa doença que insiste em grassar mundo afora. Vamos vencê-la com chave de ouro!

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte: 1. Encarte do LP Especial, vol. 5, de Pedrinho Mattar, Gravadora RGE, 1982.

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