O “náufrago”, de García Márquez

Capa – Ilustração por Carybé

Confesso que além de ter demorado muito para conhecer as obras desse escritor, li poucos livros dele, levando-se em consideração o elevado número de suas publicações. Primeiro foi “Relato de um náufrago”. Depois, “Cem anos de solidão”. Só lembrando: esse último, na semana que retirei o exemplar dos Correios, o autor foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, no final de 1982. Ainda tive acesso a “Crônicas de uma morte anunciada”, “O veneno da madrugada”, e agora “Viver para contar”.

GABO, apelido de Gabriel José García Márquez, nasceu no dia 6 de março de 1927 (se vivo estivesse, exatamente hoje, estaria completando 94 anos de idade) na aldeia de Aracataca, não muito distante de Barranquilla, na Colômbia. Ainda muito jovem abandonou a casa dos país para ganhar a vida, trabalhando em inúmeros empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de Direito em Bogotá nos anos de 1947/48, quando tinha apenas 19/20 anos, época em que publicou o seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagena, Barranquilla e no El Expectador , de Bogotá – jornal de oposição ao governo -, quando tinha menos de 30 anos, onde fez grandes reportagens, entre elas, a que deu origem o livro ora analisado, cuja história foi publicada em 14 dias consecutivos, com estrondosa vendagem. Porém, o periódico foi censurado e fechado por determinação do ditador colombiano, apesar dos protestos, e, seu mais famoso repórter, isto é, García Márquez, exilado em Paris por conta da veracidade de suas publicações. Por mais de 60 anos exerceu a literatura, e tornou-se um dos escritores mais influentes do mundo e um dos maiores do século XX. Calcula-se que tenha vendido mais de 40 milhões de exemplares, cujas edições foram traduzidas para mais de 30 países. Foi ativista político – “A única vantagem da fama foi ter podido dar a ela um uso político” -, e amigo inseparável do ditador cubano Fidel Castro. “Fascinado pela mistura de imaginação e realismo, história e poesia, se consagrou como um dos fundadores do realismo fantástico”, encontrado na sua produção literária, a qual está dividida dividida nas suas memórias e na sua ficção. Morreu na cidade na Cidade do México, no dia 17 de abril de 2014, pouco mais de um mês de ter completado 87 anos, vítima de pneumonia.

“Relato de um náufrago”, foi, sem dúvida, um dos livros mais interessantes dos que li nas últimas décadas. O volume era de 1970, com tradução de Remy Corga Filho, e com ricas ilustrações de Carybé (1911-1997), famoso pintor nascido na Argentina e se naturalizado brasileiro, a partir de 1949. A obra é um espetáculo do começo ao fim. Leiamos esta síntese:

“Este livro não foi concebido como tal, porque mais do que um texto literário constitui um modelo de excelente reportagem. É o trabalho feito por um escritor em atividade paralela à sua extraordinária carreira na Literatura. É a história de um drama da vida real publicada em série no diário bogotano El Espectador.

Em 28 de fevereiro de 1955 teve-se conhecimento de que oito membros da tripulação de um destroier da Marinha da Colômbia haviam caído à água e desaparecido durante uma tormenta no Mar do Caribe. Apenas um deles sobreviveu, Luís Alejandro Velasco, que após passar dez dias à deriva, sem comer nem beber, foi encontrado semimorto numa praia deserta do norte da Colômbia. Praticamente sequestrado pelas autoridades e colocado num hospital naval, só lhe foi permitido falar nesse tempo a jornalistas do regime, e apenas um da oposição, disfarçado de médico, conseguiu entrevistar Velasco. A Colômbia vivia, então, sob a ditadura folclórica do general Gustavo Rojas Pinilla.

Esta e, portanto, a reconstituição jornalística do ocorrido, segundo depoimento pessoal do náufrago, que procurou espontaneamente a redação do El Espectador. No curso do seu diálogo com Velasco, o repórter (Gabo) descobriu que não acontecera tormenta alguma, e sim um acidente: o destroier levava uma carga de contrabando (televisão, telefone, etc) e, tendo adernado por força dos ventos no mar agitado, a carga soltou-se e arrastou para o mar os oito marinheiros (essa era a versão oficial). A revelação do que verdadeiramente sucedera converteu-se, imediatamente, em denúncia política. O país foi tomado de grande alvoroço que custou a glória e a carreira do náufrago e valeu um exílio para o repórter” (1).

Trata-se de um livro fascinante! A partir do relato desse fato o jovem jornalista e mais tarde grande escritor, García Márquez se notabilizou como um dos maiores da literatura mundial, com a publicação de obras memoráveis. Por exemplo, de Barcelona, em 1970, ele fez pequenas observações sobre o acontecido e sobre o sobrevivente que resultaram na publicação da obra em questão.

O cargueiro Caldas pertencia a Marinha de Guerra Colombiana, o qual teria sofrido a suposta tormenta no mar do Caribe, como afirmavam as autoridades governamentais. “O navio viajava de Mobile, Estados Unidos […] para o porto colombiano de Cartagena“, onde chegou duas horas depois dos 8 tripulantes terem caído no mar. A procura pelas vítimas foi imediata, “com a colaboração das forças norte-americanas do Canal do Panamá (…). Ao cabo de quatro dias desistiu-se da busca, e os marinheiros perdidos foram declarados mortos. Passado um pouco mais de uma semana, entretanto, um deles apareceu moribundo, numa praia deserta do norte da Colômbia, depois de dez dias, sem comer nem beber, numa balsa à deriva”.

Depois da fama, e, por ter sustentado a verdade, contrariando o governo, Velasco caiu no ostracismo. “Nunca mais ouviu-se falar do náufrago solitário, até que, há alguns (15 anos depois, no início dos anos 70), um jornalista perdido (que não foi Gabo, o qual estava na Europa) encontrou-o atrás de uma mesa em uma empresa de ônibus. Vi essa foto – diz Márquez -: aumentou de peso e de idade e nota-se que a vida o marcou, mas deixou nele a aura serena do herói que teve a coragem de dinamitar a própria estátua”, ou seja, quando ele revelou que o destroier não fora “atacado” pelas águas marinhas. Mas, a carga contrabandeada que foi o motivo do “acidente”, num dos dias mais calmos naquela região, dos últimos fevereiros.

Então, eis aqui a história da história daquele jovem de apenas 20 anos de idade que ficou seus 10 longos dias num pequeno bote, uma espécie de canoa, cercado por tubarões. sem comer – pescou um peixe com as suas mãos trêmulas -, nem beber – tentava ingerir a pouca urina que expelia -, e debaixo de um sol escaldante. No entanto, após ser encontrado por nativos de uma praia, quilômetros de distância do local de sua agonia, e ter seu relato causado uma enorme euforia nacional, foi proclamado um astro da pátria colombiana, beijado pelas rainhas da beleza, enriquecido pela publicidade – chegou a acumular uma pequena fortuna -, mesmo que efemeramente, pouco depois foi abandonado e esquecido para sempre.

Senhores leitores, o livro é realmente fascinante, e a tática como o El Espectador utilizou para obter o verossímil relato de Alejandro, é mais ainda. Quem puder ler o livro de pouco mais de 130 páginas irá constar o que aqui o Facetas está resumidamente detalhando. É uma obra imperdível! Umas das mais interessantes da literatura latino-americana, isso do nosso ponto de vista, é claro.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. García Márquez. Relato de um náufrago. – 14 ª ed. – RJ; Editora Record, 1970.

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