O fantástico poema épico de Milton

“Estar cego não é uma miséria. Não ser capaz de superar a cegueira é a miséria”.

O nosso leitor sabe muito bem: o tempo passa, mas cada um de nós com nomes de livros vivos na mente. Talvez, nem lembra mais dos enredos, nem dos autores. Personagens? Nem pensar! No entanto, os títulos estão bem fotografados, principalmente quando o nome da obra é “bonito”, ou sugestivo. No meu caso, cito alguns: Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo; Um Bonde Chamado Desejo, de Williams Tennessee; Espumas Flutuantes, de Castro Alves; Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac; Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo; Paraíso Perdido, de John Milton; Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade; Cancioneiro (“Laura”), de Francesco Petrarca; A Estrutura da Bolha de Sabão, de Lygia Fagundes Telles, entre outros – cada um faça a sua lista.

Entre os citados acima, vamos de John Milton (1608-1674), considerado um dos maiores poetas ingleses. Nasceu e morreu em Londres. Com Paraíso Perdido, ele conquistou o primeiro lugar de poeta épico da língua inglesa. “O poema, no entanto, deve considerar-se mais como produto da cultura latina do que como expressão do gênero inglês”. Por quê? Pelo contato com as obras de Dante ou de Camões, do que com as de Shakespeare, ou seja, o pano de fundo do grande poema do inglês é continental (europeu) e não apenas nacional (da Inglaterra).

“Paraíso Perdido é o mais conhecido dos poemas épicos da língua inglesa e os grandes poetas épicos do mundo são tão poucos que se podem contar pelos dedos (de uma única mão). Essa forma particular do estilo artístico, tal como a conhecemos hoje, surgiu pela primeira vez, no da literatura com as obras de Homero, atingindo a plenitude da sua pujança em Virgílio” (1). Depois, vieram Dante e Camões.

“Milton, desde de muito jovem, decidira dedicar-se à composição de um grande poema que se tornasse posteriormente uma das obras clássicas da Literatura inglesa; ao realizar seu intuito, elegeu um ambiente em harmonia com a tradição clássica, mas instilou nele um tema inspirado em sua própria natureza religiosa” (1). Quando Milton nasceu, Shakespeare ainda vivia. O menino cresceu em uma época em que o latim era a língua internacional dos homens cultos. E, foi nesse ambiente que publicou seu primeiro livro: Lycidas, com o qual obteve relativa fama de poeta.

No entanto, “só depois de compreendermos o veículo utilizado por Milton, podemos apreciar a beleza dos seus versos”. Inicialmente, ele pensou em embasar seu poema num tema patriótico. Mas, acabou desenvolvendo uma temática de modo a abarcar um campo que concerne todo o gênero humano: “a história da tradição e a da queda do primeiro homem”. Assim, fica evidente, logo nos três primeiros versos: “Do homem primeiro canta, empírea Musa,/A rebeldia – e o fruto, que, vedado,/Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo…”

O interesse capital da narrativa do Paraíso Perdido reside na maneira como seu autor desenvolve o tema. Por exemplo: “Não é Adão, mas Eva, quem comete o pecado original, desobedecendo a Deus”. O espírito do mal, representado por Satã, que enaltece a beleza da fêmea, a qual, “movida pela curiosidade, pelo orgulho e pela ambição, Eva aceitou e saboreou o fruto proibido”.

“As consequências da sua queda, são admiravelmente descritas no poema”. Invadia, ato contínuo, pela sensação de culpa, Eva tenta iludir a si própria com a esperança de que Deus se não tenha apercebido do seu ato. Lembra-se de Adão. Pensa em dominá-lo. Depois, é possuída pelo medo. Pensa que vai morrer. “Se morrer, qual será o destino de Adão? Continuará a viver e a ser feliz, talvez na companhia de outra mulher? O ciúme penetra em seu coração, e Eva resolve agir fazendo com que, se o seu destino for a morte, Adão morrerá com ela. Vai então contar ao companheiro o ato que praticou, e é nessa continência que culmina o absurdo de sua argumentação”. Ficando, portanto, Adão totalmente envolvido, enquanto ela perambula sozinha pelo Jardim Edênico. “Diz-se, com verdade, que, após a queda, Adão e Eva se tornaram realmente humanos!”.

“Na queda de Adão, não se nota a influência de qualquer interesse próprio, de ambição, orgulho ou pecado similares, mas apenas o motivo cavalheiresco inspirado pelo seu amor por Eva. Esse amor é descrito em versos de grande beleza no Livro VIII do poema, e a maneira como John Milton trata a queda de Adão revela-se cheia de nobreza e também de generosidade. Adão não é movido por impulso ou paixão alguma, mas pelo seu livre-arbítrio, que o leva a saborear igualmente do fruto proibido, sabendo que Deus lhe interditara fazê-lo, porque preferiu sofrer junto com Eva a permanecer sozinho no Paraíso” (1).

Para um leitor moderno, no entanto, de um romance da nossa atualidade, a atitude de Adão seria de um herói, não de um pecador, merecedor de ser expulso do paraíso. “Alguns críticos são de opinião de que Milton não conseguiu resolver esse conflito e que, por essa razão, desse ponto de vista, o seu poema fracassou, não conseguindo se impor à convicção do leitor”. Por quê? Porque “a sua narrativa da queda do primeiro homem nos levasse a nutrir por Adão simpatia capaz de sobrelevar à reprovação condenatória que seu ato nos merece“.

Porém, o poema não deve ser analisado como moderno, é lógico. Mas, no tempo da sua criação, isto é, deve ser “colocado no ambiente inerente às crenças correntes na época em que foi escrito”, há mais de 400 anos. E também, deve ser avaliado “à luz do credo religioso do seu autor”, o qual depositava na Bíblia uma fé indiscutível. Tem mais: “O tema central do seu argumento baseia-se nos ensinamentos de Santo Agostinho e doutrina da Igreja, segundo a qual a obediência à vontade de Deus proporciona aos Homens a Felicidade enquanto que a desobediência os torna miseráveis”.

“Quando Milton compôs o Paraíso Perdido XVII, acreditava-se que a sociedade humana e o próprio universo tinham sido criados por Deus dentro de uma ordem hierárquica na qual o próprio Deus representava, evidentemente, o Todo-Poderoso […]. Nessa época, faltava ainda meio século para surgir a doutrina herética de Rousseau, para a qual todos os homens nascem livres e iguais”. Para Milton, o conceito original de homem, reside, portanto, no princípio da obediência aos superiores.

Um dos personagens mais notáveis do poeta, foi Satã. Mas um Satã descrito sob a figura de um anjo, muito embora de um anjo caído. Por sinal, é o próprio Satã que relata as supostas afrontas que recebeu de Deus. Os outros personagens, Adão e Eva, ao longo do poema, carecem um pouco mais de colorido. Quanto ao Padre Eterno, o autor não foi convincente. “Mas onde existe um mortal capaz de descrever Deus de maneira adequada?”, pergunta, no final do seu magnífico prefácio, A. H. Robertson. Até nesse quesito – Deus -, Milton foi genial, assim como Da Vinci ou Michelangelo, quando do retoque final de suas obras.

Ao concluir a sua inquestionável abordagem, diz: “Convém lembrar ainda que o leitor apreciará um poema épico cuja tradição aprofunda as suas raízes nas antigas épocas de Homero e Virgílio. A sua linguagem é grandíloqua, a maneira como o assunto é tratado pode considerar-se monumental, e o tema universal”.

Há muitos anos, li num periódico, que apesar de sua gigantesca contribuição à literatura mundial, John Milton morreu pobre e abandonado nos arredores de Londres, um mês antes de completar 66 anos de idade, em 1674. Mas nos deixou Paraíso Perdido, para ser lido e relido, e onde seu conjunto de versos memoráveis, “arquiva uma passagem real, irreversível, que se não pode repetir, da história do universo”.

Notinha útil – Hoje tomei a 1ª dose da Coronavac. Espero que esse imunizante possa ser utilizado cada vez mais, em milhões de pessoas. Vacina sim. ciência sim. cientista sim.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. Milton, John. Paraíso Perdido. Tradução de Antônio José Lima Leitão,- SP: Martin Claret, Série Ouro, 2002.

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