História do Samba

Em 1997, a Editora Globo e a Gravadora MBG, publicaram uma coleção de CDs sob o título: “História do Samba”. Cada disco trazia uma revista (fascículo) de 22 páginas com fotos, relatos das músicas e dados biográficos dos artistas em cada exemplar. A pesquisa, por sinal, merecedora de 10, é de Luiz Henrique Rossi Gurgel e Márcia Beatriz Carneiro Aragão. A apresentação é esta:

“Poucas culturais populares podem se orgulhar de um representante musical tão rico como a brasileira. Tão grande e magnético que a primeira associação feita no exterior ao nome do Brasil é com o samba. Retrato de um povo alegre, comunicativo e feliz, o sambam tem uma história que justifica tal posição, desde seus primórdios como lazer de escravos, até a atualidade, em que sua presença é acatada internacionalmente.

A coleção História do Samba, apoiada por cuidadosa pesquisa em estudos dos maiores especialistas do assunto e respeitando a posição de cada um deles, conta – um enredo primoroso – como o destino teceu ritmos e poesias, somou melodias e poetas, para resultar no assobio consagrador do homem da rua” (1).

A Introdução – Uma História Que Deu Samba -, é um capítulo à parte. Nela, em quatro páginas, o casal publica um brilhante histórico do samba, desde a Escravidão aos dias atuais. De início, questionam: “Onde ele Nasceu? Na África? No Brasil? Se no Brasil, foi na Bahia? Ou no Rio de Janeiro? Procurou seus ancestrais no Norte? Desceu para o Sul e se fixou em definitivo? Seu nome é samba?”

Terminam o estudo assim: “Desde suas origens mais remotas, de suas mais hipotéticas ou estranhas ramificações, passando por todo o processo de crescimento e sedimentação, até o fastígio de fim de século (XX), em que, em vez de pelo telefone (duplo sentido; 1º – Pelo Telefone, música histórica de 1916; e 2º – Telefone, como moderníssimo instrumento de comunicação, á época). o samba agora se comunica até pela Internet” (1).

Em outras palavras, seja como zambra, zambo, zamba ou batuque, o samba nasceu, cresceu, amadureceu e se perpetua até hoje, em todo o Brasil. Aliás, fora dele, também. Por exemplo, os japoneses são enlouquecidos por esse ritmo. Tanto que passaram “da admiração inicial à exploração comercial, importando gravações ou levando artistas brasileiros para temporadas em suas casas noturnas {…}. Existe em Tóquio um pub-bar chamado Elizeth, que só toca músicas da “Divina” Elizeth Cardoso” (1).

Na Europa, o samba sempre é recebido de braços abertos. Na América do Norte, idem. “Levado aos Estados Unidos para apresentação no famoso Carnegie Hall, sob a luxuosa roupagem harmônica da Bossa Nova, acaba por conquistar o país, o mercado fonográfico e por consequência toda a área musical a partir da influência norte-americana, tornando Garota de Ipanema, a composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, uma das cinco mais vendidas no mundo, na história da fonografia” (1).

Assim tem sido, assim está sendo e, com certeza, assim será a perpétua história do samba ante tantas ouras variantes musicais. Por assim dizer, cabe bem a seguinte pergunta, cuja resposta caberá a cada um daqueles que não vão deixar o samba morrer: “De que forma esse ritmo, meio bastardo, pé no chão, saindo dos terreiros e dos fundos de quintais, entrando pela porta das cozinhas das casas-grandes das fazendas e descendo as ladeiras de barro das favelas para subir as escadarias de mármore dos teatros municipais das grandes capitais, transforma-se no retrato musical do Brasil, como nossa mais forte identificação cultural diante dos povos, e assume o papel emblemático de nosso representante mais conhecido fora das fronteiras?” (1).

Pesquisas outras nos revelam que, na imprensa, a palavra SAMBA, escrita em letras garrafais, nasceu católica: foi “batizada” pelo padre Lopes Gama, segundo o jornal O Carapuceiro, editado no Recife (PE) entre 1832 e 1842. Em uma edição de 1838, esse religioso “se refere a “samba d’almocreves”, classificando o estilo musical como coisa própria da periferia, do meio rural (almocreve era o serviçal que se ocupava em cuidar de mulas e burros), contrapondo-o ao que se cultivava nos salões provincianos. Ali ouviam-se e dançavam-se operetas, polcas, valsas e o amaneirado lundu-canção” (1).

Por sua vez, os escravos chamavam sua dança de semba (com “e”), que significaria “umbigada” ou “união do baixo ventre”, referindo-se àquilo que no Brasil era designado, no século XVI e começo do século XVII, como batuque, englobando todos os ritmos e danças originárias da África. Daí, alguns renomados pesquisadores no assunto, como Luís Câmara Cascudo, admitirem a seguinte tese: “A origem da palavra “samba” que varia de “divindade angolana protetora de caçadores” a “culto à divindade através da dança”, passando pelo sam como dar e ba como receber, sendo assim a dança do dá e do recebe” (1).

Aceita como definitiva, a palavra serviu, de início, para denominar ritmos bastante diversificados em todo o Brasil, ou seja, as vertentes do samba. Inclusive, os escritores Edison Carneiro e José Ramos Tinhorão, criaram um interessante diagrama ilustrativo, no qual consta que do batuque com os ritmos África-Brasil do século XVI e começo do século XVII, ao samba do final do século XX (o estudo em pauta foi feito em 1997), com destaque para a Bahia e Rio de Janeiro ( samba-canção, samba-enredo, samba de quadra, samba de breque, samba funk, Bossa Nova, samba reggae, etc), há muitos outros subgêneros. Só para ilustrar, temos o Calhando mineiro e o Calundus baiano.

Apesar de ser um tema palpitante, apaixonante, paremos por aqui. Fica por conta dos nossos leitores adeptos ao assunto, aprofundarem suas buscas, as suas próprias pesquisas. Vamos então, a alguns versos da inesquecível composição Não Deixe o Samba Morrer( Edson Conceição-Aluísio Silva, sucesso desde 1975, na voz inconfundível de Alcione. Só para ficar mais emocionante, invertemos os três últimos versos para início, e a primeira estrofe para última. Ficando assim:

“Antes de me despedir/Deixo ao sambista mais novo/O meu pedido final.

Não deixe o samba morrer/Não deixe o samba acabar/O morro foi feito de samba/De samba pra gente sambar.

Fonte: 1. Coleção “História do Samba”, capítulo 1. RJ: Editora Globo/Gravadora BMG, 1997.

Um comentário em “História do Samba

  1. Excelente crônica acerca da história e desenvolvimento do mais consagrado ritmo brasileiro, Gomes.
    A ressalva vem por conta da ausência do nomes da SantissimaTrindade da Música Popular Brasileira, segundo Martinho da como autores do primeiro samba gravado no Brasil “Pelo telefone” (Donga, Pixinguinha e João da Baiana).

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