20 de abril: dia do disco de vinil

Galeria do Vinil – Acervo particular

Apesar dos seus vários compromissos profissionais e pessoais, a psicóloga Winnie Barros não deixou passar em branco mais uma data importante para o nosso blog, nos lembrando do dia do VINIL que ocorreu no último dia 20 de abril, numa semana repleta de comemorações Brasil afora. Como exemplo, citamos: Dia do Índio, Dia da fundação de Brasília, Dia de Tiradentes e Dia do descobrimento do Brasil.

Então, vamos nos reportar sobre Ataulfo Alves, e logo o leitor saberá o porquê da correlação do artista com a data acima. Nascido no dia 2 de maio de 1909 no pequeno Município de Miraí (MG) numa tarde de domingo de sol forte, depois da missa. Ali cresceu “entre os sons tirados da viola do pai, os versos improvisados, os gemidos da sanfona, as toadas cantadas pelos viajantes de passagem. Aos oito anos já era capaz de versejar, respondendo aos repentes do pai, o capitão Severino” (1).

Era um adolescente quando foi levado para Rio (RJ) pelo conceituado médico Afrânio Moreira de Andrade, que pretendia expandir seu consultório, aumentar e diversificar sua clientela na capital federal. “Amigo da família e simpatizante com o jeito do rapaz, acreditava que, se tivesse oportunidades, Ataulfo podia ir longe”. O jovem querendo melhorar de vida para ajudar a sua família, como sempre fez, aceitou ao convite e partiu…

Em pouco tempo percebeu que o Dr. Afrânio não era a pessoa ideal para ajudá-lo. Foi quando saiu à procura de outro ofício, vindo a empregar-se como lavador de vidros na Farmácia e Drogaria do Povo, onde aprendeu a manipular as drogas. Não demoraria para que assumisse a função de prático de laboratório. Funcionário exemplar, conquistou a admiração do patrão, Samuel Antunes, e de suas filhas, Nilda e Zélia. “E seria por intermédio delas que conheceu uma moça alegre, cheia de vivacidade, que dizia para todos que queria ser artista. Seu nome? Maria do Carmo, futuramente, Carmen Miranda” (1). Certa vez, revelou Ataulfo que fazia ‘xarope de cambará’ para para a mãe da moça. Assim, fez amizade com a família dela. “Só muito tempo depois soube que ela tornara-se uma grande cantora”.

Quando saia do trabalho e rumava para casa, no bairro do Rio Comprido, já era noite, aproveitando para parar nas rodas de samba da região, pois sabia que levava jeito para a música, para o violão. Nesse meio, em 1929, aos 20 anos, ajudou na criação do bloco carnavalesco “Fale Quem Quiser”. Logo teve contato com sambistas como Ismael Silva, Nilton Bastos, Marçal, Alcebíades Barcelos (Bide), entre outros.

Foi Bide que em 1934 apresentou Ataulfo ao diretor da gravadora RCA Victor, Mr. Evans. “De cavaquinho em punho, o moço cantou algumas de suas composições”. O americano só dizia “OK, OK, OK”. Aí fez um telefone e veio ao estúdio uma cantora analisar melhor as músicas. Quem? Carmen Miranda. “Ela ouvia, ouvia e me olhava, até que disse: ‘mas você não é aquele rapaz lá da Farmácia?’ ‘Perfeitamente’. ‘Mas você não era compositor!’ ‘Você não era cantora”’, brincava Ataulfo.

“Era o início da fecunda carreira. De composições belas e conhecidas do público, como Ai, Que Saudade da Amélia, Atire a primeira Pedra, Vai na Paz de Deus, Leva Meu Samba, Vida da Minha Vida, Lírios do Campo, Saudades Dela e Meu Lamento (1). Tem mais: Ataulfo não era apenas um compositor. Ele seria, também “autor de uma maneira diferente de fazer samba”. Qual? Costumava ouvir atentamente as músicas, com muita concentração e em total silêncio. Passado algum tempo, criava seus versos, suas melodias, ou seja, um estilo bem diferente dos bambas com os quais se reunia. Essa independência fez dele autor de músicas “com típico sabor carioca dos sambas de meio de ano , porém temperadas com um caráter interiorano, de uma mineirice que nunca abandonaria o artista”.

Conta-se que certa vez, quando a notável cantora carioca Aracy Cortês (1904-1985) ensaiava para um show, teria ouvido algumas músicas de Ataulfo, quando falou uma das melhores definições artísticas sobre o autor: “Coisa engraçada os sambas desse crioulo. Parecem mineiro andando, devagar, sem pressa, cheio de ginga, mas sempre chegando ao lugar certo”.

O talento e os sonhos do migrante do interior de Minas levados para o Rio, tornaram-se realidade. “Anos depois mais tarde entraria para o rádio, passando a conviver com Noel Rosa, João de Barro, Almirante e outros compositores de expressão nos anos 30 e 40”. E, chegando aos anos 60 com mais de 700 músicas compostas. Isso significa que seu nome foi (e é) fundamental na MPB, mas tinha um segredo para o sucesso, isto é, o indiscutível talento de construir sambas essencialmente cariocas, mas recheados de mineirice, cujos gestos finos, postura elegante e a simpatia de um sorriso franco tornaram-no (o compositor) admirado por todos, fosse a pessoa do meio artístico ou não. Por exemplo: Grande Otelo, Roberto Carlos, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Louis Armstrong, etc.

O compositor e produtor musical Eduardo Gudin (70 anos), que conheceu (e conhece) o meio artístico da música, do samba, diz o seguinte sobre o músico em questão:

“Pra tentar exercer bem o meu ofício de compositor, sempre fiquei muito atento às mínimas nuances da forma de compor de grandes mestres.

Ataulfo Alves era um sambista diferenciado. Na minha opinião, ele fazia um samba mais arrastado, mais chorado que os demais sambistas da época.

Sua cadência é singular, de uma sutileza ímpar, que, às vezes, quase não se percebe o quanto ela nos faz sambar por dentro. Suas melodias pertencem – ou quem sabem inauguram – às formas mais românticas do samba. Nesse aspecto, Ataulfo criou uma enorme escola com fiéis seguidores.

As letras de seus sambas são de tal apelo popular, que podemos notar o uso constante de ditos populares: “morro o homem fica a fama”; “atire a primeira pedra”.

Mais incrível ainda é a capacidade que ele teve também de criar ditos populares que viraram provérbios ou expressões eternas: “eu era feliz e não sabia”; “laranja madura na beira da estrada…”.

Não bastasse tudo isso, Ataulfo foi um intérprete genial, com suas Pastoras formando aquele coro tão peculiar.

Sim, eu vivi isso de perto, graças a Deus!!! Agradeço a oportunidade de escrever um pouco sobre ele e vou agora mesmo colocar um disco seu para escutar” (1).

Porém, no mês de abril de 1969 (prestes a completar 60 anos de vida), o cantor ouviu de seu médico: “operar a úlcera”. A intervenção foi simples, mas o paciente apresentou complicações, e, “no dia 20 de abril de 1969, ia-se o sambista. Iam-se os sonhos, as composições por escrever, os saraus. Ataulfo não morria numa batucada de bambas, como pediria em uma de suas canções. Partia de um quarto de hospital, após horas em coma” (1).

E o dia do vinil? Muito bem. A história do surgimento do vinil já tem mais de um século. Inclusive Mike Evans publicou, em 2016 “VINIL: A Arte de Fazer Discos”. Trata-se de uma obra imperdível para os amantes de discos. No entanto, considera-se o dia 20 de abril como O DIA DO DISCO DE VINIL, desde 1978. Mas não é em todo o Brasil, apenas na capital do RJ. Foi uma lei aprovada pela Câmara Municipal daquela cidade, após sugestão de um grupos de artistas, cuja data comemorativa dar-se-ia em 20 de abril, para lembrar o dia da morte de Ataulfo Alves, como um dos maiores compositores nacionais. Nesse data, geralmente “os colecionadores e os saudosistas do vinil festejam a paixão por essa mídia clássica e cada vez mais revivida”.

Notinha útil – Chegou ao nosso conhecimento que o servidor estadual (lotado F. Hemoam), Paulo Ricardo Castro da Silva (30), concursado e graduado em Administração pela UFAM, é leitor assíduo do Facetas. Ele é, também, um apreciador nato de literatura, História e música. Inclusive ouve artistas mundialmente conhecidos como Jimi Hendrix, B.B. King, Black Sabbath, Led Zeppelin, entre outros. Ao Paulo, os nossos agradecimentos por tê-lo como leitor das nossas publicações.

Notinha informativa – Com a publicação de hoje, o Facetas atinge a edição de número 300, ou seja, trezentas semanas ininterruptas. Para nós, os criadores e mantenedores do blog é gratificante. Sempre com o mesmo propósito, que é expandir o nosso trabalho sobre música, literatura, biografias, etc, com qualidade, por meio dos nossos fiéis leitores, e aos quais, somos muitíssimos gratos.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte

  1. Ataulfo Alves. Coleção MPB Compositores, volume 24, SP: Editora Globo/Gravadora RGE, 1997.

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