Memórias Precoces de Brás Cubas

Em junho de 2039 o Brasil estará lembrando o bicentenário do nascimento do notável escritor carioca Machado de Assis (1839-1908), do qual herdamos uma rica produção literária: contos, romances, poesia, peças de teatros, etc, que continuam em evidência, não somente no Brasil, mas também em outros países, onde as obras foram traduzidas.

De origem humilde, somente aos 18 anos o jovem foi contratado por Paulo Brito, dono de uma tipografia e livraria, para corrigir os originais dos trabalhos que lá chegavam. Machado foi operário gráfico, revisor de editora, vendedor de livros, jornalista e escriturário de repartição pública. E, tanto na vida particular quanto na pública, soube manter “decoro, compostura, respeito à autoridade, modéstia, timidez, espírito conservador, hábitos rotineiros”.

Porém, essas características não o impediam de frequentar ambientes intelectuais, nem deixar de ser amigo de grandes homens, de pessoas famosas. Constantemente ia à Livraria Garnier, onde tinha cadeira cativa. Toda tarde, após sair do trabalho, lá comparecia para discutir literatura e outros temas pertinentes. Homens já conhecidos do meio jornalístico e literário se faziam presentes.

Com o passar dos anos foi conquistando seu espaço no meio intelectual. “Mais tarde ainda, alcançou a glória da ABL, que ajudou a fundar e da qual foi aclamado presidente perpétuo”. Por sinal, lá seu corpo foi velado no dia 29 de setembro de 1908 e homenageado com discurso emocionante de Rui Barbosa. Passado mais de um século de sua morte, até hoje seu nome é lembrado do público, que o reencontra nas personagens de seus livros. Drummond , por exemplo, dedicou-lhe o memorável poema: “A um bruxo, com amor“.

Um dos livros machadianos mais lido é “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1881, que marca o início do realismo na literatura brasileira. Publicado no ano anterior em formato folhetim – prática usual à época -, cujos capítulos eram editados diariamente em jornais. São 160 deles: o primeiro, “Óbito do autor”; o último: “Das negativas”. Para quem não conhece, trata-se de um trabalho fascinante.

O romance é a autobiografia de Brás Cubas, protagonista narrador que, depois de morto resolve escrever suas memórias: dos amores juvenis ao doutor adulto e ocioso e que, teria almejado uma carreira política. Sem no entanto, acontecer. Suas aventuras amorosas, quase levam a própria família à falência. Por isso é enviado pelos pais a Europa, “de onde volta doutor, às vésperas da morte da mãe”.

Contudo, o moço não toma jeito. Continua aprontando… “Sem objetivos na vida e entediado, Brás Cubas reencontra Quincas Borba, um colega de infância que se diz filósofo e que expõe sua filosofia, o Humanismo. No primeiro reencontro dos dois, Quincas, “pobre e miserável”, rouba o relógio do amigo. Algum tempo depois, “graças a uma herança, refaz suas finanças e repõe” o objeto.

Borba, no entanto, não vai muito longe na vida: fica louco. Por sua vez, Cubas procura “uma forma de viver menos tediosa”. Tenta a política, não deu certo. Pensa em produzir um remédio: “EMPLASTRO BRÁS CUBAS”. Mas, quando sai “à rua para cuidar de seu projeto, molha-se na chuva e apanha uma pneumonia da qual vem a falecer, acompanhado, em suas últimas horas, de alguns familiares e de Virgília” (1). Virgíla? Sim. Apesar de casada, fora sua amante no passado. Aliás, de quem ficara grávida, e “a criança morre antes de nascer e os amantes separam-se”.

Memórias… é realmente uma obra grandiosa, perpétua. Machado de Assis, assim como Fernando Pessoa, surpreende o leitor. Sempre! O mesmo faz Brás Cubas, quando, da sua “apresentação” (Ao Leitor), garante que seu livro terá no máximo cinco leitores. Porque “trata-se, na verdade, de uma obra difusa“, e ainda adota a ironia (“rabugens de pessimismo”). “Pode ser. Obra de finado (“trabalhada lá no outro mundo”). Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”.

No capítulo I, quando o vivo-morto expõe o plano de sua obra e narra sua morte (ÓBITO DO AUTOR), diz: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”. Porém, no seu interior gélido, dizia consigo mesmo: “Morte! morte!”, ao contrario de: “Vida! vida!” E assim fez: morrer antes de viver. “A vida estrebuchava-me no peito com uns ímpetos de vaga marinha, esvaia-se-me (hoje esvaias-me) a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me (hoje fazias-me) planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma” (1).

A genialidade de Machado de Assis, não para por aí. Ele determina que Cubas narre dessa forma o seu óbito: “Morri (aos 66 anos) de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo” (1).

Tem mais. O morto segue (!?) para o último momento de sua morte – incrível – quando relata no capítulo final do livro, o de número 160 (DAS NEGATIVAS), o seguinte: “Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto […]. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quieto com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a esse outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” (1).

Confesso que pretendia complementar com mais algumas negativas que empurram o Brasil ladeira abaixo. Por exemplo: sem controle de natalidade; sem reforma agrária; sem governo decente; sem moralidade no legislativo; sem política partidária idónea, etc, etc, etc. Passados 140 anos do lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o Brasil convive com dois tipos pobrezas: a que atinge milhões de brasileiros pela desigualdade social; e a que afeta outros milhões pela fragilidade cultural, moral e intelectual. Se Machado de Assis pudesse voltar a escrever esse mesmo livro, seu título seria: Memórias Precoces de Brás Cubas. No primeiro, o narrador começa pelo seu óbito. No atual, ou seja, no segundo, iniciaria sua narrativa falando sobre a sua vida. Curta vida, aliás. Mas, viveria o suficiente para explanar tintim por tintim “o legado da nossa miséria”.

Que esse relato, como disse Cubas (“julgue-o por si mesmo”), assim seja feito pelos nossos leitores, também.

Notinha útil em três atos – O nosso blog parabeniza os milhões e milhões de trabalhadores espalhados mundo afora, pela passagem do DIA UNIVERSAL DO TRABALHO, com estas palavras do poeta Gonzaguinha: “Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/E a vida é o trabalho/E sem o seu trabalho/Um homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata” (in “Guerreiro Menino”); – A fundadora do Facetas Culturais – que hoje chega a edição de n° 301 -, Winnie Barros, está aniversariando hoje. À mesma, os nossos parabéns! Que tenha muita saúde e vida longa; e – No dia 1º de maio de 1829, nascia em Mecejana (CE), José Martiniano de Alencar, e morreu no Rio de Janeiro, a 12 de dezembro de 1877. Trata-se do grande escritor José de Alencar, autor de livros memoráveis como “O Guarani”, “Iracema”, “As Minas de Prata”, entre outros. Alencar chegou a ABL por intermédio do amigo Machado de Assis.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. Machado de Assis. Coleção “Literatura Comentada”, SP: Abril Educação, 1980.

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