O novo caminhar de Thiago de Mello

Foto de Ricardo Oliveira, publicada no Amazonas EM TEMPO, de 28.08.2009. Aqui, o poeta caminha no centro histórico de Manaus, próximo ao Teatro Amazonas.

“Não, não tenho caminho novo./O que tenho de novo/é o jeito de caminhar (do poema “A vida verdadeira”).

No último dia 30 de março de 2021, o poeta amazonense Thiago de Mello (1926), completou 95 anos de idade, e foi homenageado em sessão solene pela Câmara Municipal de Manaus pelo conjunto de sua obra literária. Na ocasião, o escritor Tenório Telles destacou: “Parabenizo mais uma vez Thiago de Mello, que representa a vida, a esperança e a construção de um mundo melhor para se viver”.

Trata-se, portanto, de um dos poetas mais influentes da literatura brasileira da atualidade, e de vários países do mundo, principalmente os latino-americanos, com destaque para o Chile, onde o “poeta da selva” é muito lido e admirado. Nesse país ficou exilado na década de 60, tornando-se muito amigo de outro grande poeta, Pablo Neruda. Na capital, Santiago do Chile, em abril de 64, escreveu “Os Estatutos do Homem”, dedicado ao jornalista carioca Carlos Heitor Cony.

A lista de suas obras é vasta, assim como vasto é o rol daqueles que reconhecem a grandeza poética e cultural de suas publicações, como: o poeta e ensaísta Zemaria Pinto, o filólogo Antonio Houaiss, o poeta Pablo Neruda, o historiador Robério Braga, o professor Tenório Telles, a jornalista Leyla Leong, o articulista João Braga Neto, entre outros. A seguir, algumas considerações e seus autores sobre o poeta e sua poesia.

1. “Convivi com amorosa ressurreição de minha infância, bem mais longínqua do que a sua, mas graças à sua revivência. O poeta – que há sempre em você, aparece até quando você não o quer mostrar (Antonio Houaiss)”.

2. “Quando do golpe militar de 64 no Brasil, Thiago servia como adido cultural no Chile e lá ficou como exilado onde nasceram, de modo circunstancial, os artigos, as estrofes e os versos mais famosos, contidos no “Os Estatutos do Homem”, isto é, um poema-desabafo, fruto da indignação e da revolta, publicado alguns dias depois (ainda em abril/64) num matutino do Rio de Janeiro. Isso “custou-lhe inúmeros dissabores, entre os quais, o rompimento temporário de uma velha amizade com o poeta Manuel Bandeira, simpatizante do novo regime”. Esse poema “é uma celebração da utopia. Suas imagens são claras e traduzem claridade. Verdade, vida, manhãs de domingo, girassóis, palmeira, vento, azul do céu (Zemaria Pinto)”.

3. “Os Estatutos do Homem”, foi publicado em 66, no livro “Faz escuro, mas eu canto“. “Título sugestivo, em que deixa evidente seu compromisso de resistir, apesar das sombras. O texto de Estatutos sintetiza as grandes aspirações da civilização: o sonho de construção de um mundo mais justo e solidário; de uma vida que seja expressão da verdade e da alegria, em que a convivência entre os homens seja mediatizada pela confiança e fraternidade (Robério Braga)”.

4. “O poeta, como os velhos navegantes, é um nauta que se aventura pelos caminhos do mundo. Alguém que traz na alma a inquietude diante das velhas rotas e a irresignação face ao destino do ser humano – expressas na atitude generosa de encantar, com sua linguagem mágica e seus versos, a vida (Tenório Telles)”.

5. “Artículo 3. “Queda decretado que, a partir de este instante,/nabrá girasoles en todas las ventanas,/que los girasoles tendrán dereche/a abrisa dentro de la sombra;/y que las ventanas deben permanecer el dia entero/abiertas para el verde donde crece la esperanza (Pablo Neruda)”.

6. Artigo 3. “Fica decretado que, a partir deste instante/haverá girassóis em todas as janelas,/que os girassóis terão direito/a abrir-se dentro da sombra;/e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, /abertas para o verde onde cresce a esperança (Thiago de Mello)”.

Somente nos anos 80, conheci a poesia de Thiago de Mello. De lá para cá tenho lido o máximo possível do foi criado por ele e o que é dito sobre ele. Gosto muito do livro “Mormaço na Floresta”. Nele consta o profundo poema Amazonas, pátria da água. No entanto, finalizo este artigo com outro belo e significativo poema: “Para os que virão“:

“Como sei pouco, e sou pouco,/faço o pouco que me cabe/me dando inteiro./Sabendo que não vou ver/o homem que eu quero ser.

Já sofri o suficiente/para não enganar a ninguém:/principalmente aos que sofrem/na própria vida, a garra/da opressão, e nem sabem.

Não não tenho o sol escondido/no meu bolso de palavras./Sou simplesmente um homem/para que já a primeira/e deslocada pessoa/do singular – foi deixando, de vagar, sofridamente,/de ser, para transformar-se/ – muito mais sofridamente -/ na primeira e profunda pessoa do plural.

Não importa que doa: é tempo/de avançar de mão dada/com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja/de aprender a conjugar/o verbo amar.

É tempo sobretudo/de deixar de ser apenas/a solitária vanguarda/de nós mesmos./Se trata de ir ao encontro./(dura no peito, arde a límpida verdade de nossos erros)./Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,/e saber serão, lutando”.

Aos nossos leitores, aqui, ótimas palavras do poeta de Barreirinha (AM), de Manaus (AM), do Brasil e do mundo.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Notinha de gratidão – Amanhã é um dia memorável! O Facetas vem parabenizar todas as mães do mundo. Aqui, representadas pela professora pernambucana Mercês Barros da Silva Oliveira (58 anos). Nossa leitora lá da cidade metropolitana de Camocim de São Félix (PE). Pedagoga com especialização em Psicopedagogia clínica e institucional, mãe de duas filhas e incansável educadora. Uma profissional daquelas que acreditam piamente no papel da escola na formação do cidadão, em todos os aspectos.

Católica praticante; seguidora das ideias do mestre Paulo Freire; e ouvinte assídua do grande intérprete de Voa Liberdade, Porto Solidão, Estrela Reticente, etc, Jessé. Mulher inteligente; mãe dedicada e filha atenciosa – dia após dia, reserva a maior parte do seu tempo para promover o bem-estar de sua mãe, dona Helena. Parabéns, notável mulher, mãe e mestra! A senhora é um exemplo de vida para todas as mães que “removem as pedras do caminho”, como cantava Cora Coralina, ou seja, que superam as dores do corpo e da alma, que rompem tabus e preconceitos e que clamam por respeito e direitos iguais, sejam eles individuais sejam eles coletivos. Viva o Dia das Mães!.

2 comentários em “O novo caminhar de Thiago de Mello

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