“Receita de saudade de Vinicius”

“O poeta nasceu no menino,

o compositor nasceu no adolescente.

Em ambos, e sobretudo no homem que foi,

imperou a liberdade.”

Há 40 anos perdíamos a pessoa do poeta carioca Vinicius de Moraes (1913-1980). Naquele mesmo ano, a gravadora RGE, lançou o disco: “Testamento: a Música e a Poesia de Vinicius de Moraes”, com 12 musicas e diversos intérpretes como: Como Dizia o Poeta, com Vinicius, Toquinho e Marília Medalha; Eu Sei Que Vou te Amar, com Maria Creuza e Vinicius; Apelo, com Toquinho, Vinicius e Maria Bethânia, entre outros.

No ano seguinte, 1981, a mesma gravadora lançou o volume 2, com 14 musicas e vários intérpretes como: A Felicidade, com Agostinho dos Santos; Maria Vai Com as Outras, com Maria Creuza; La Casa, com Toquinho, Sergio Endrigo e Vinicius; Samba em Prelúdio, com Geraldo Vandré e Ana Lúcia; Berimbau, com Baden Powell; Bom Dia, Tristeza, com Maysa; Insensatez, Alaíde Costa, etc.

Nas contracapas dos dois LPs consta consta o seguinte texto do crítico musical Zuza Homem de Mello:

“Poucos são os autores da Música Popular Brasileira surgidos após a Bossa Nova, que não admitem terem recebido influência do capitão-do-mato, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangó, Vinicius de Moraes.

A figura de Vinicius de Moraes deu à música popular um status dentro das artes brasileiras, como só ele, com sua dignidade, poderia dar. Apenas isso, seria suficiente para justificar a parte de sua vida dedicada à poesia da canção com que ele “exprime sentimentos mais íntimos de saudade, amor, beleza, ausência, alegria”.

Certamente foi essa sua atuação, de que ele tinha perfeito sentido, que encorajou toda a geração atual a ser profissional de música, a ter confiança numa atividade que seria, a partir dele, tão respeitada como antes raramente o fora.

Pela maneira aberta como sempre recebeu jovens para dar conselhos, ou parceiros para colocar letra em música, ele foi um poeta amplo, cuja extensa obra musical comoveu, inspirou e cercou de amor, em algum momento, a mais brasileiros que qualquer outro.

Sua confiança na música popular brasileira sempre foi um traço marcante de sua carreira e ele não se intimidava com as longas e incômodas excursões que realizou até praticamente o fim da vida, com seu parceiro mias constante dos últimos 10 anos, Toquinho. Eles dois, e mais o baixista Azeitona e o baterista Mutinho, formavam os quatro mosquiteiros que levaram a tudo que é canto do Brasil, o espírito de exercer o ato tão puro de cantar.

Com Vinicius no palco, com aquele seu ar de um pouco pai da gente, era muito fácil cantar. Ficou mais fácil cantar, depois dele. Para todas as gerações. “Um velho calção de banho… quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não… olha que coisa mais linda… eu sei que vou te amar a cada ausência tua… vai amar, vai sofre, vai chorar…e no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar, é preciso cantar…

Saravá poeta e diplomata Vinicius de Moraes. À benção poetinha. Com você aprendemos que o bom samba é uma forma de oração. Nasceu lá na Bahia, e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração” (1).

Zuza tem razão: passado esse tempo da partida do poeta, sua memória está vivíssima em nós. A gente tem a percepção de tê-lo bem aqui, do nosso lado, ou bem ali, no palco; em algum bar da Cidade Maravilhosa. Abre-se um livro didático, lá está um soneto viniciano; ao prestar o vestibular, lá está uma crônica dele, para o candidato destrinchar; o amante da boa música vai ouvir um vinil antigo, lá está um clássico do Poetinha; se é um CD da nova geração de músicos, lá está uma composição de Vinicius, etc. Trata-se, portanto, do “sólido poeta de versos definitivos e consagradores”, escreveu Tárik de Souza.

O escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) in RECEITA DE SAUDADE DE VINICIUS, grafou:

“Poesia é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de louco e lírico em tudo, qualquer coisa de Rimbaud, qualquer coisa de english poethy. Uma rua com oitis na Gávea ou Botafogo, uma nostalgia da velha ilha do Governador de King’s Road-Chelsea. É preciso que seja saudade inesperada: um Vinicius nunca aparece quando promete e, às vezes, pode aparecer sem prometer. É preciso ter escocês ao alcance da mão. É uma larga esperança de mundo mais recente! Amigos, amigos! Talvez quando for sábado de feijoada. Que circulem também pela sala as sombras de Mário Andrade, Zé Lins, Ovalle, Cármen, Candinho Portinari, Ary Barroso, tantos… tantos… E o pai, Clodoaldo. Violão é imprescindível, pois é o único instrumento que representa a mulher ideal: “nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada mas sem jactância; relutante em exibir-se a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada”. É preciso lua. E que se recorte na vidraça os galhos duma jabuticabeira. Discos negros também: Pessie Smith, Mahalia Jackson, Armstrong, Bechet…Pixinguinha, nem se fala! Bom humor é pertinente. Oh, e sobretudo que haja mulher… E que a mulher “destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto de sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina do efêmero; e em sua incalculável imperfeição constitua coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável…”

PMC – Quanto ao mais, resumiu tudo Vinicius neste grifo: Meu tempo é quando” (2).

Amigos leitores, sem termos muitas palavras a serem acrescentadas aqui, assim foi Vina (apelido de família): “Viajou muito, escreveu lindos livros, muitas letras e músicas muito legais, casou, descasou, casou… E num dia muito triste, em julho de 1980, o grande poeta morreu… Que saudade de Vinicius!”.

Notinha útil – Ainda a pouco, quando estávamos revisando este artigo para ser publicado, chegou ao nosso conhecimento, por meio do nosso leitor, o biólogo amazonense Marcelo Freitas, que os herdeiros de Vinicius de Moraes, irão receber uma indenização de 3,4 milhões de reais da União, pelos direitos políticos cassados do diplomata Vinicius, pelo AI-5. Até morrer o poeta, em 1980, aos 67 anos, não havia o mesmo voltado às suas funções junto ao Itamaraty. Trinta anos se passaram desde o início da ação judicial de 1990. Portanto, faça-se JUSTIÇA, com Vinicius e todos aqueles que foram injustiçados e perseguidos por esse ou aquele Ato Institucional entre 1964-1985, amenizando assim, os danos morais e políticos causados pela ditadura.

por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes

  1. LP “Testamento: a música e a poesia de Vinicius de Moraes” (volumes 1 e 2), SP: Gravadora RGE, 1980/1981.
  2. LP “Vinicius”, da Coleção História da MPB, SP: Abril Cultural, 1982.

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