“Ave Leila, cheia de graça”

Capa do LP

A Bossa Nova ainda era uma criancinha de colo quando Leila Toscano Pinheiro nasceu a 16 de outubro de 1960, em Belém (PA). Hoje muito conhecida nos meios artísticos como cantora, compositora e pianista. Ainda adolescente nos anos 70, já lidava com a música. Seu pai, o gaitista Altino Pinheiro que ouvia com frequência Elizeth Cardoso, Elis Regina, Nara Leão, etc, formou uma banda com os 4 filhos: Leila, Alberto, Vera e Marisa, no repertório constava Chico Buarque, Joyce e Elis. “O inquieto cenário musical do país leva para Leila o som da Jovem Guarda e dos Tropicalistas”.

Na virada dos anos 70, a moça já domina o piano e estrutura o seu 1º show. “Sinal de Partida”. Em outubro de 1980, aos 20 anos, estreia no Theatro da Paz, o mais importante de Belém. Foi o início de sua carreira gloriosa. Em 1981. Finca o pé na estrada. “Deixa o curso de Medicina no meio do caminho” e sai em busca de realizar seu sonho: ser cantora. E, em maio daquele ano desembarca no Rio de Janeiro. Embora não fosse o mesmo Rio da nascença e efervescência da Bossa Nova, mas era o Rio da Garota de Ipanema.

“Convidada por Jane Duboc, também cantora e paraense, Leila vai assistir às gravações de “SEDUÇÃO”, LP de Maria Creuza”. Resultado: em 82, grava seu 1º disco com canções de convidados ilustres da música nacional, como Espelhos das Águas, de Tom Jobim e Mãos de Afeto, de Ivan Lins. Em 85, participa do Festival dos Festivais, da Rede Globo, com o samba Verde (Eduardo Gudin-Costa Neto), e fica em 3º lugar, como cantora revelação. No ano seguinte chega como contratada da PolyGram, cujo diretor artístico era Roberto Menescal. Nesse mesmo ano lança “Olho Nu“.

De lá para cá não parou mais de cantar, de criar, de embelezar. Se as capas de seus discos enchem os olhos da gente de contentamento, ouvi-la é um deslumbramento. Um bálsamo para o espírito. Suas escolhas musicais são um primor. Sua voz, um encanto. Por exemplo, “Coisas do Brasil” (93), é fascinante. A música homônima é linda, linda (“Foi tão bom de conhecer“), de Guilherme Arantes e Nelson Motta, além de outros clássicos como Vai Passar (Francis Hime e Chico Buarque), Gostava Tanto de Você (Edson Trindade), Primavera (Carlos Lyra-Vinicius de Moraes, entre outros.

Porém, “Bênção, Bossa Nova” (89), é sem dúvida um dos melhores discos de sua carreira. Esse trabalho marca os 30 anos da Bossa Nova. Com 30 músicas, arranjos e produção de Roberto Menescal. Nele estão: Você e Eu (Carlos Lyra-Vinicius de Moraes); Corcovado (Tom Jobim); Candeias (Edu Lobo); O Que é o Amor (Johnny Alf); Você (Roberto Menescal-Ronaldo Bôscoli); Até Quem Sabe (João Donato-Lysias Ênio); Que Maravilha (Jorge Ben), entre outras.

No encarte de “Bênção…” a cantora revela que em julho de 89 esteve nos estúdios da Rede Globo, jundamente com outras cantoras para gravar um quadro para o “Fantástico”, em homenagem aos 30 anos da Bossa Nova. Ali nasceu a ideia do seu disco, após conversa com Menescal. “Dali pra frente foi uma sucessão das chamadas “coincidências”: encontros de expectativas e planos quase que simultâneos com os convites para realizá-los.

Buscando vorazmente ver por um outro anglo o que me toca, me emociona pra cantar, agora um pouco mais consciente, do espaço de que dispomos pra falar e sermos ouvidos, não cheguei às letras e músicas que dissessem o que eu queria a tempo de gravar e lançar meu disco em 89.

Cantar esses compositores e músicas tão conhecidos, só mesmo me deixando guiar por eles todos. Tive aí uma das maiores emoções e alegrias desde que comecei a cantar. Tomara que cês gostem. Valeu, Menescal!”

Nessa mesma linha de raciocínio musical, em “Ave Leila, cheia de graça”, no mesmo encarte, Ronaldo Bôscoli, diz o seguinte sobre a cantora ora em análise::

“Talvez ungida desses ventos maravilhosamente democráticos, a bossa nova – preenchendo o luminoso espaço deixando por Nara Leão – resolveu eleger, através desse trabalho, Leila Pinheiro sua nova musa. A nova musa da bossa nova, que gostosa redundância!

Depois de um prolongado porém sempre apaixonado namoro, Leila escolheu este disco para celebrar a sua união com o nosso movimento. Com direito à bênçãos, um comportamento raro entre nós…

A carreira de Leila, embora traçada através de caminhos meio ambíguos no sentido da bossa nova, é profundamente coerente.

Quando essa paraense libriana veio para o Rio – antes realizou seu primeiro show em Belém – no ano de 81, através de brilhante participação no coral de um disco solo. O primeiro. E nele já inseridos as presenças de Tom e Donato. Em 89 foi a vez de encontros “estrangeiros” – foi a Bogotá e Barranquila junto com o Zimbo Trio.

Finalmente me parabenizo com Leila Pinheiro, a nova musa da bossa nova. Juntos inauguramos um novo capítulo desde que o maior movimento entre quantos foram lançados por estes ricos brasis. Quer por seu continente, quer por seu conteúdo.

Bênção Leila, a bossa nova te deseje e saúde”.

Essas justas e ajustadas palavras de Bôscoli escritas há 32 anos, são de grande valia tanto para a cantora quando para os seus fãs. Se fisicamente vivo ele estivesse, teria absoluta certeza que Leila é uma grande cantora, compositora e pianista. Ela chega as 60 anos de idade e, 40 de carreira como uma artista sensacional. Tem mais: uma bela mulher, talentosa, cheia de graça e “bossanovando” sempre.

O disco “Alma”, apesar de ser composto por apenas 9 músicas é uma obra-prima. Nele estão nomes como os de Milton Nascimento, Edu Lobo, Chico Buarque, Renato Russo, entre outros. Por exemplo, Besame (Flávio Venturini-Murilo Antunes), faz a gente cantarolar estes versos: “La luna tropical/O som de um bandeneón/Não me canso de pedir/Besame, besame mucho mas”.

Por fim, vamos à íntegra de Verde. Aquela música do Festival dos Festivais, de 85, linda linda linda de se ouvir. Oficialmente lançada pela PolyGram Discos, no LP “Olho Nu“, em 1986:

“Quem pergunta por mim/Já deve saber/Do riso no fim/De tanto sofrer,/Que eu não desisti/Das minhas bandeiras,/Caminhos, trincheiras da noite.

Eu que sempre apostei/Na minha paixão,/Guardei um país/No meu coração,/Um foco de luz/Seduz a razão,/De repente a visão da esperança!

Quis esse sonhador/Aprendiz de tanto suor/Ser feliz num gesto de amor/Meu país acendeu a cor!

Verde as matas no olhar/Ver de perto/Ver de novo um lugar,/Ver adiante,/Sede de navegar,/Verdejantes tempos,/Mudanças dos ventos no meu coração!”

É isso aí. Tudo é fantástico! Aos nossos leitores, com carinho.

Por Angeline e Francisco Gomes

Notinha de pesar – O Facetas vem perante aos nossos seguidores, lamentar a morte do sambista Nelson Sargento, na última quinta-feira, dia 27.05.2021, aos 96 anos. Sua arte há de se perpetuar entre nós e às novas gerações.

fontes

1.http://p. download. oul.com.br (Biografia Leila Pinheiro).

2. LP “Bênção, Bossa Nova“, de Leila Pinheiro, Philips/PolyGram, 1989.

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