“Toco-toca Toquinho”

Você sabe quem é Antônio Pecci Filho? É simplesmente o cantor, compositor e violinista paulistano Toquinho, o qual, no dia 06 de julho próximo, estará completando 75 anos de idade. Ele foi último parceiro musical de Vinicius de Moraes. Se durante os 10 anos que esteve com o Poetinha, produziu músicas inesquecíveis, outras tantas foram criadas de 1980 para cá, haja vista que Toquinho está sempre em contínua evidência artística.

Sobre o amigo, Paulinho Nogueira (1929-2003) disse: “Toquinho. Um diminuitivo que simboliza todo o carinho e a admiração que pessoas que o conhecem de perto tem por ele. Eu, particularmente, sinto orgulho por ter sido, um dia, seu professor de violão e por desfrutar de sua alegre presença e fraternal amizade” (1).

Muitas pessoas – músicos, produtores, fãs, etc -, questionavam: sem Vinicius, “como será a carreira de Toquinho, um artista sempre voltado para as parcerias?” Porém, ciente de seu compromisso com a música, com seu público, e acima de tudo, com a memória de muitos artistas, seguiu em frente. E, produziu (e produz) belos discos, grandes sucessos, é só analisar a sua discografia.

Saber de Toquinho é encontrar um talento cuja criatividade foi temperada pela genialidade de Vinicius de Moraes e de Chico Buarque. É descobrir uma história que mistura os acordes do violão, as sombras de um jatobá e os abraços de camarada, de amigo do peito. Conhecer a história de Toquinho é, também, saber de seu irmão João Carlos. Quando ouvirmos com cuidado as músicas de Toquinho, poderemos ter certeza de que algum verso, alguma canção estará reservada para seu mais antigo e mais afetuoso companheiro, com quem o compositor dividiu a infância e os primeiros sonhos” (1).

É isso. Cada artista tem seu jeito próprio de ser, de agir, de criar, de viver, etc. Por exemplo, enquanto o cantor e compositor Alceu Valença tem poucos parceiros musicais e poucos intérpretes para a sua vasta obra, Toquinho, tem uma imensa lista, como: Paulo Vazolini, Simone, Marília Medalha, Bethânia. MPB4, Ornella Vanoni, Clara Nunes, Miúcha, Francis Hime, Sadao Watanabe, Maria Creuza, entre outros. Por quê? Porque “Toquinho combinou dois elementos em sua vida: a disciplina e a sensibilidade. Assim, ele tornou-se guerreiro incansável na busca do acorde mais preciso e artista perceptivo o suficiente para descobrir a realidade humana por trás dos fatos” (1).

Igual a ele, nenhum outro artista emplacou tantos sucessos entre as crianças. Quem dele se aproxima nesse quesito é Vinicius e Oswaldo Montenegro. Em 84, no LP “Sonho Dourado”, estava Ao Que Vai Chegar, em homenagem ao filho Pedro que estava prestes a nascer. Foi sucesso nacional. Mas, seu grande hits mesmo ocorreu a partir de 83, com Aquarela, que caiu no gosto de todos mundo: crianças, adolescentes, adultos, etc. A música era executada a todo instante, nas rádios, na televisão.

Aquarela é até hoje o maior êxito de sua careira. “Em 1982, o violonista gravava na Itália Acquarello, em parceria com os italianos Guido Morra e Maurizio Fabrizio. Uma canção alegre, sem muitas pretensões. Lançada no Festival de San Remo, a música estourou e elevou a venda de seu disco a números inesperados. Em alguns meses, Toquinho alcançava a marca de cem mil cópias vendidas na Itália, tornando-se o primeiro brasileiro a receber um disco de ouro naquele pais. O fenômeno se repetiria no Brasil, após algum tempo, quando a composição foi lançada em português, com o nome de Aquarela” (1). A primeira parte da canção era um antigo tema instrumental composto pela dupla para a novela Fogo Sobre Terra, da Rede Globo. A segunda, por Fabrizio. A letra originalmente Acquarello, em italiano, e de Morra. Tanto lá quanto aqui, foi um sucesso estrondoso.

No início dos anos 90, aprovado em concurso público para o magistério, logo fui designado pela Seduc-AM para ministrar nos 1º e 2º graus, as disciplinas ( uma aula por semana) de Educação Ambiental, EMC, Educação Artística e OSPB. De posse de um rádio gravador, fitas K7, e as letras mimeografadas de músicas como: O Careta, Pais e Filhos, Maluco Beleza, Aquarela, Asa Branca, As Baleias, Lamento de Raça, Guerreiro Menino, etc. As aulas eram um show à parte! Os jovens adoravam aquela metodologia, cuja cobrança de atividade para as notas vinha dos debates sobre temas como: as drogas, o aborto, o divórcio, o trabalho, a família, a escola, o meio ambiente, entre outros. Lembro-me que uma turma de 8ª série fazia círculo na sala e todos participavam com entusiasmo, com muita alegria. Eram Antônio, Carla, Érica, Jéssica, Manuel, Phriscilla, Polianna, Sílvia, Sylvia, Silvian, Tamara e mais uns trinta.

Entre as musicas citadas e outras selecionadas, as mais pedias eram Pais e Filhos, com Legião Urbana e Aquarela, com Toquinho. Vamos então, à íntegra da letra de Aquarela, longa, mas prazerosamente em ser lida e ouvida:

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo/E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo/Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva/E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva/Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel/Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.

Vai voando contornando/A imensa curva norte sul/Vou com ela viajando/Havaí, Pequim ou Istambul/Pinto um barco a vela branco navegando/É tanto céu e mar num beijo azul/Entre as nuvens vem surgindo/Um lindo avião rosa e grená/Tudo em volta colorindo/Com suas luzes a piscar/Basta imaginar e ele está partindo/Sereno indo/E se a gente quiser/Eleva vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida/Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida/De uma América a outra consigo passar num segundo/Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo/Um menino caminha e caminhando chega num muro/E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está.

E o futuro é uma astronave/Que tentamos pilotar/Não tem tempo nem piedade/Nem tem hora de chegar/Sem pedir licença muda nossa vida/E depois convida a rir ou chorar/Nessa estrada não nos cabe/Conhecer ou ver o que virá/O fim dela ninguém sabe/Bem ao certo onde vaia dar/Vamos todos numa linda passarela/De uma aquarela que um dia enfim descolorirá.

Num folha qualquer eu desenho um sol amarelo/Que descolorirá/E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva/Que descolorirá/Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo/Que descolorirá” (2).

Amigo leitor, já que o futuro é essa nave misteriosa, vamos administrar o presente para se colher bons frutos. Trazendo do passado tudo aquilo que de bom restou. Vivere!

Por Angeline e Francisco Gomes

Fontes

  1. Coleção MPB Compositores: Toquinho, volume 27, SP: Globo/RGE, 1997.
  2. LP “Aquarela“, RJ: Gravadora Ariola, 1983.

Um comentário em ““Toco-toca Toquinho”

  1. Boa noite amigo, há alguns meses que aguardava essa fabulosa obra-prima, certa vez chegamos até a comentar sobre essa maravilha de composição, que mesmo nos dias de hoje, com nossos cabelos grisalhos, nos leva a enveredarmos no nosso mundo mágico e infantil.
    Esse mago do violão o considero como aquele o qual junto com o saudoso Vinicius, formaram a mais perfeita e inusitada dupla musical dos últimos tempos.
    Só me resta bater 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼 por tão nobre publicação sobre nosso Toquinho, nome no diminutivo, mas de uma enorme pujança, que deveria ser Tocão…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s