A eterna música de Pixinguinha

Batutas brasileiros em Buenos Aires – 1927

O ano era 2019. O mês era dezembro. Naquele clima natalino, a Angeline Gomes adquiriu um lote de CDs de um professor do IFAM que iria deixar Manaus, para uma nova missão educativa. Os discos foram presenteados a mim. Entre eles, a mais autêntica arte de cantores e compositores como: Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, Johnny Alf, Pery Ribeiro, Leny Andrade, Pixinguinha, entre outros.

Pixinguinha em dose dupla, ou seja, dois CDs: “O Jovem Pixinguinha”, da coleção grandes solistas, com 14 gravações originais de 1919 a 1920, entre elas, Os Teus Beijos, Desprezado, Eu Também Vou e Carinhoso. E “Pixinguinha 100 Anos”, também com 14 canções: Rosa, Naquele Tempo, Segura Ele, Sofres Porque Queres, La-Ré, etc. Essas duas obras-primas são aqui apresentadas pelo Facetas (seis anos) aos nossos leitores.

Sobre o Jovem Pixinguinha, o maestro e pesquisador musical Henrique Cazes (19 – ), considerado o maior solista de cavaquinho do Brasil das décadas de 1980 e 1990, é um dos mais legítimos representantes de tradições musicais como a do genial Alfredo Filho. Carinhoso, por exemplo, é uma das canções preferidas do maestro., escreve esta nota na contracapa do CD em análise:

“Quando Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, nasceu em 23 de abril de 1897, a maneira chorada de tocar já era bastante difundida entre os músicos populares. O próprio pai de Pixinguinha era um flautista chorão e o menino foi criado num ambiente bastante musical. Irineu de Almeida, seu professor de música, era chorão de primeira linha e vaticinava ao ouvir o menino tirando seus primeiros sons de flauta. ‘Esse garoto vai longe!” Aos onze anos Pixinguinha já improvisava com desenvoltura e aos quatorze gravava como solista do CHORO CARIOCA, grupo liderado por Irineu.

Antes de completar vinte anos, Pixinguinha já apresentava composições sofisticadas como o tango brasileiro Dominante. Quando finalmente o intérprete e o compositor se encontraram numa gravação, deu-se a diferença que um gênio faz.

Em 1919 quando já era um flautista reconhecido e já liderava (o conjunto) Os Oito Batutas, Pixinguinha gravou Sofres Porque Queres e Rosa num disco que marca um salto qualitativo e formal na história do choro. Esse é o ponto de partida desta compilação “O Jovem Pixinguinha”. A partir daí ele não parou de exibir seu virtuosismo de flautista em gravações memoráveis.

Em meados da década de 1920, Pixinguinha se aproximou do teatro de revistas e essa foi a sua escola como arranjador. Em pouco tempo sua verve musical lançava o que seria a base de todo processo orquestral de nossa música popular. O começo dessa trajetória de arranjador está aqui retratado em faixas como Tapa Buraco e Desprezado, além das raras e lendárias gravações originais de Lamentos e Carinhoso.

A inclusão da gravação de Recordando, de 1935, serve para mostrar que mesmo em plena atividade como maestro arranjador, Pixinguinha continua imbatível na flauta”.

No CD “Pixinguinha 100 Anos”, o encarte de 12 páginas, não traz as letras das canções, como é de costume. Mas sim, um excelente comentário do admirado crítico musical Tárik de Souza. Pense numa pesquisa criteriosa e idônea e, ao mesmo tempo, encantadora. Encantadora por nos revelar, inclusive, a origem da palavra Pixinguinha. “Mas e o apelido? Seria mesmo uma contração de Pixindim (menino bom?) dado pela avó materna africana Edwirges, com o sarcástico Bexiguinha , apodado pelos coleguinhas depois que ele contraiu varíola e ficou com o rosto marcado?” Seja como for o apelido tornou-se nome próprio da soberana música nacional brasileira.

Tárik admite não ser fácil obter dados precisos sobre Alfredo Filho na primeira metade do século XX: “Precariedade de dados” e “desdém da elite com a arte popular”. Mesmo assim, sabe-se que Pixinguinha foi “compositor, intérprete (além de exímio na flauta, ele ia do sax ao piano), arranjador, maestro e band leader. Chegou até gravar cantando como se ouve no afro-samba Yaô, uma das raridades deste CD”.

“Na época do cinema mudo, o máximo que se permitia aos negros era integrar discretamente os grupos instrumentais que animavam as cenas projetadas. Era a primeira vez que se escolhia para a sala da frente um grupo com integrantes negros”, os Oito Batutas: seu líder e flautista Pixinguinha, o qual conseguiu consagração definitiva por seus sete parceiros. “Seu sucesso foi tão grande que, sob o patrocínio do mecenas Arnaldo Guinle, o conjunto apresentou-se em Paris, no ano da Semana de Arte Moderna, em 1922, e gravou um disco na Argentina”. Sua glória veio em 1937, com o estrondoso sucesso de Carinhoso, na voz de Orlando Silva.

“De origem humilde, filho de um funcionário da Repartição Geral dos Telégrafos, chorão e flautista, Pixinguinha atravessou as barreiras da sociedade mais intelectualizada (esteve com o historiador Sérgio Buarque, com o sociólogo Gilberto Freyre e como o jornalista Prudente de Moraes Neto, etc). Sempre com a mesma elegância com que viveu, ele ostentou na morte santificada na sacristia de uma igreja de Ipanema onde assistia a um batizado, em 17 de fevereiro de 1973, aos 74 anos, seu coração parou, enquanto a Banda de Ipanema se preparava para sair às ruas em mais um carnaval, que aconteceu triste, sob a chuva que inundava a tarde”.

“Com a integridade de gênio à paisana, ele plantou os alicerces da MPB do século vinte. Enchendo de alegria e generosidade cada nota, cada acorde, cada contraponto”. A sua musica se eternizou entre nós. Dentro de nós. Seja durante a sua vida, seja após a sua morte física. Seus sons, seus versos, suas composições, estão por todas as partes.

“Existe, pelo menos, uma canção brasileira que ninguém ouve em silêncio. Uma canção que se tornou tão conhecida de todos nós que, a seus primeiros acordes, logo começamos a acompanhar a letra, cantando junto. Carinhoso talvez seja a mais popular do Brasil. Foi composta por Pixinguinha ( a melodia) em 1923, quando ele tinha 26 anos de idade, mas já era um dos principais nomes do mundo artístico nacional. A canção permaneceria assim: apenas música sem letra, por mais de uma década. Apenas em 1937 -14 anos depois – João de Barro (19 -20 ), o Braguinha, criaria os versos que ficariam marcados profundamente no consciente e no inconsciente brasileiro. Orlando Silva entraria nas casas, pelo rádio, cantando: Meu coração/Não sei porquê/Bate feliz/Quando te vê/E os meus olhos ficam sorrindo//Mas mesmo assim/Foges de mim…” 1.

Logo agora, quando restam apenas duas semanas do Facetas completar seis anos, nada melhor de que, juntos autores e leitores, reviver a eterna musicalidade de Alfredo, de Pixindim, de Bexiguinha ou de Pixinguinha, que enche nossos corações de alegria.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. Coleção MPB Compositores: Pixinguinha, volume 16. – SP: Editora Globo/RGE Discos, 1996.

2 comentários em “A eterna música de Pixinguinha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s