Altemar Dutra: “o Trovador das Américas”

Desenho de Mello Menezes, no encarte do LP Nunca Mais Vou Te Esquecer, RCA – 1992.

Em 1984, a gravadora Columbia lançou o LP “Rendez vous”, com “grandes intérpretes, de todo o mundo, cantando em francês”. Entre eles, Julio Iglesias, Regine, Miguel Bosé, Yves Montand, Jeane Manson, Roberto Carlos, etc. Sem precisar ir tão distante, aqui no Brasil, temos grandes vozes encantadoras, como: Abílio Farias, Nelson Ned, Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Noite Ilustrada, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Agnaldo Rayol, Altemar Dutra, e tantos outros e outras, principalmente no gênero bolero. O nosso tema de hoje, versa sobre o “Sentimental Demais”, ou seja, Altemar Dutra.

Altemar Dutra de Oliveira, era mineiro de Aimorés, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santos, onde nasceu em 6 de outubro de 1940 e morreu em Nova Iorque, aos 43 anos, de AVC, quando fazia um show, na Boate La Tanquera. Estava casado com a cantora Marta Mendonça desde 1965, com quem tinha os filhos Deusa Dutra e Altemar Jr. Ainda criança vai morar em Colatina (SC). Na adolescência, ganha um violão da mãe e passa a dedicar-se ao estudo do instrumento e a cantar. Ali mesmo participou de programa de calouros na Rádio Difusora, ficando sempre em 1º lugar.

Aos 17 anos muda-se para o Rio de Janeiro onde é apresentado ao compositor Jair Amorim. Logo grava um compacto com Saudade Que Vem e Somente Uma Vez. Aos 23 anos, lança seu 1º LP: “A Grande Revelação” e fez sucesso com Creio Em Ti, uma versão de Oswaldo Santiago e Tudo de Mim, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Dessa dupla, vieram muitos outros sucessos dentro e fora do Brasil. Em 1965, tornou-se nacionalmente conhecido com disco “Sentimental Demais”, que atinge o 1º lugar nas rádios com as canções homônima, O Trovador e Bom Dia, Tristeza.

“Em 1966, alcança grande vendagem com o LP “Sinto Que Te Amo”, com destaque para a canção Brigas” (1). Aliás, Brigas, é a musica com a qual o artista gostaria de ser lembrado por muitas gerações. Ainda no final daquela década, grava “El Bolero se Grava Así”, com o conhecido cantor chileno Lucho Gatica; em 1969, é a vez do álbum “O Trovador das Américas”. Da dupla antes citada, vieram outros sucessos (que até hoje são executadas nos meios radiofônicos) como os boleros Que Queres Tu de Mim, Somos Iguais e Serenata da Chuva. A seguir, a íntegra do emocionante texto de Jair Amorim, de fevereiro de 1988, com o qual ele brinda os fãs de Altemar:

“Não digo que eu tenha convivido com Altemar: longe disso. Eram encontros espaçados, periódicos, muitas vezes sem motivos aparentes, musicalmente falando. Nós nos dávamos por uma simples questão fundamental: vínhamos da mesma terra, sofremos as mesmas dificuldades iniciais. Ainda hoje, me lembro da tarde em que ele me procurou na Secretaria da União Brasileira de Compositores, violão à tiracolo, para me entregar a carta de recomendação assinada por um amigo comum do Espírito Santo. Conversamos, fiz-lhe algumas sugestões, dei-lhe, enfim, os conselhos habituais para o seu caso. Depois sumiu. Mais tarde, ou melhor, meses depois, meu parceiro Evaldo Gouveia me comunicava que havia colocado quatro músicas nossas com aquele rapaz de Vitória que eu havia conhecido. Não fiz fé, confesso. Mas foi com ele, exatamente, que a recém formada dupla estourou. E que estouro! Me recordo que uma tarde em Salvador, no hotel perto da Praça Castro Alves, quando os alto-falantes de uma Kombi berravam a todo vapor o “Tudo de Mim”. Eu queria dormir e não podia. Xinguei o Altemar, xinguei a vida, xinguei o fato de ser um dos autores daquela monstruosidade. Depois vieram outras músicas. Muitas músicas. De tal sorte e tanta assiduidade que até hoje se pensa que éramos, eu e o Evaldo, autores exclusivos do notável cantor. Não éramos, mas ele sentia ciúmes quando ouvia obra nossa na voz de outros colegas. Queria sempre a primazia, que lhe mostrássemos em primeiro lugar o que tínhamos feito. Assim gravou e regravou tudo aquilo – que seria de nossa inspiração. E, em seus elepês, um atrás do outro, Altemar reservava espaço para, no mínimo, três composições de dupla. Era uma festa.

Hoje, depois de sua morte, fico a me lembrar daquele rapaz moreno e baixinho, de voz tão peculiar, que de vez em quando me visitava em Petrópolis. Ele chegava de mansinho, com seu anel e sua pulseira de ouro, deixava o carro na calçada e pedia uma dose de uísque puro, sem gelo. Ninguém falava em música. Eram assuntos cotidianos, desses feitos para acompanhar a conversa de três a quatro doses de bebida. De repente, sem que ninguém se lembrasse, Altemar se levantava da poltrona e perguntava pelo violão: “Cadê o violão?” O violão está aqui, Altemar. Cante. E então o trovador cantava. Cantava a noite inteira, entrava pela madrugada afora, jogando na sala e nos céus, aquela voz que Deus lhe havia dado, solta, clara, firme, com nuances jamais imaginadas. Cantava porque seu destino era aquele: cantar. Não me lembro de ter ouvido outra performance igual. Era um desafiar de emoções novas e velhas, que ele ia alinhando, uma após outra, à proporção que a bebida fazia efeito. Lindas, todas elas. E com a marca, a sensibilidade, o talento de alguém não submisso às plateias, aplausos que teve pela vida inteira.

Eu tive esse privilégio. Eu ouvi Altemar cantar no momento em que ele desejava, despojado e sincero. Agora, existe apenas a saudade. Uma saudade que eu cultivo, lá fundo da alma e do coração. Uma saudade que é, penso eu, a saudade de todos aqueles que tiveram a felicidade de ouvi-lo.

Que Deus o abençoe. Eternamente” (2).

Na pesquisa, encontrei outras duas citações que se encaixam bem neste artigo: 1ª – “É um menino no jeito e, vai ver, até no pensar […]. Nasceu artista e tem a melhor voz e a melhor interpretação destes últimos 10 anos de vozes e interpretações {…}. É um cantor que canta “sentimentos” {…}. É, fora de dúvidas, uma grande revelação” (Gravadora Odeon, no 1º LP do cantor, de 1963); 2ª – “PS – Altemar foi falado e escrito e é a voz grande, a interpretação maior ainda, a sensibilidade, o coração que canta. Por isso, a razão de PS, uma vez que Altemar Dutra é nome definitivo e nada mais, precisa ser tido nem acrescentado, a não ser que ele está de volta com estas (12) canções bonitas – as melhores que encontrou no caminho das canções. RG” (Do LP, “Mensagem”, de 1964).

Depois de muito “garimpar” aqui e ali, o acervo do Facetas reúne mais de 40 LPs e CDs – algumas cópias, é claro – desse valiosíssimo cantor. Alguns, discos, por exemplo, originais, ou seja, da 1ª prensagem, como: “Grande Revelação” (1963); “Mensagem” (1964); “Sentimental Demais” (1965); “O Ídolo” (1969), entre outros. Também as duas caixas com 10 discos. Cinco cada: “O Trovador das Américas” (1988) e “O Trovador: 20 anos de sucesso (1963-1983), de 1989.

Eu era um adolescente nos anos 70 e ouvíamos, eu e meu pai, pelo rádio, lá longe da capital Manaus, no interior do Estado, as grandes vozes da música nacional. Além dos cantores acima citados, lembro-me de Elizeth Cardoso, Ângela Maria (daí o nome da minha única irmã, Ângela), Nora Ney, Dalva de Oliveira. Eu ficava deveras atento às “melodias anunciadas”, bem ao lado do radio a pilha. Certa vez Altemar cantou estes versos: “Velho, meu querido velho/Agora já caminha lento/Como perdendo o vento/Eu sou teu sangue, meu velho…”, de Meu Velho (Mi Viejo). Eu ainda não tinha discernimento de adulto. Meu pai, ao meu lado, disse: “Eu, agora, lembro bem do meu velho pai; daqui a alguns anos, você lembrará bem de mim. Desliga o rádio e vamos para a estrada”. Ele era seringueiro. E, adentramos à selva (a mata) amazônica para extrair o látex. Hoje, lembro bem de suas palavras. “Uma saudade que eu cultivo, lá (aqui) no fundo da alma e do coração”, diz Jair sobre Altemar. O mesmo digo sobre “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”, pai.

Aqui, a nossa pequena homenagem a esse grande nome da nossa música, que nos deixou cedo – aos 43 anos de idade, em 1983. Porém, a sua voz, foi, é e será ouvida por muitas gerações que virão. Pelo menos é isso que queremos. A saudade que Jair Amorim diz ter do amigo é a mesma que sentimos nós, seus fãs. Esperamos que os nossos leitores também gostem desta nossa iniciativa saudosista. Sincera. Cheia de emoções.

Notinha útil – É com muito contentamento que a equipe do Facetas parabeniza sua integrante, Angeline Gomes, por mais um aniversário, nesse domingo. Para ela, muita saúde e vida longa.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Enciclopédia itaucultural. org.br; 2. Encarte da coleção “O Trovador das Américas”, Odeon, 1988.

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