Eu, a brisa e Johnny Alf

Capa do CD de 1989.

Alfredo José da Silva, o “Genialf”, como era chamado por Tom Jobim, foi o cantor, compositor e pianista Johnny Alf. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 19.05.1929, e falecido em Santo André (SP), em 04.03.2010, aos 80 anos. Aprendeu piano ainda criança. “Após início na música erudita, começou mostrar também interesse pela música popular” (1). Considerado uns dos precursores da bossa nova, nos deixou clássicas e belas músicas no nosso cancioneiro. Aos 14 anos, formou sei 1º grupo musical. Estudou inglês no IBEU, onde fundou um clube para intercâmbio de música Brasil/EUA. Logo contou com o apoio de Dick Farney, Tom Jobim, Luiz Bonfá entre outros. Adquiriu o seu pseudônimo “quando se apresentava no programa de jazz de Paulo Santos, na Rádio MEC”.

“Alf começou sua carreira profissional na música, quando foi contratado como pianista, para tocar com Farney e Nora Ney” Depois seguiu tocando nas noites. Suas canções: Céu e Mar e Rapaz de Bem são dessa época. Já idoso, raramente se apresentava. Uma aparição foi em 2008, na Oca, quando dos 50 anos da bossa nova. “Sem parentes, nos últimos anos viveu em um asilo em Santo André, onde morreu”– segundo alguns noticiosos -, “pobre e esquecido”, ou seja, sem “o devido reconhecimento em vida”.

Praticamente tudo que gravou foi inspiração sua. Ouvir a sua voz rouba e as suas notas ao piano, é algo fascinante. Algumas de suas músicas são: Ilusão à Toa; O Que É Amar; Escuta; Podem Falar; Seu Chopin, Desculpe; Pensando Em Você; Nós; e principalmente Eu e a Brisa. Há também, outras magníficas composições em parcerias, assim como muitos são os intérpretes de sua arte. Dezenas deles de Eu e a Brisa, tanto da antiga quanto da nova gerações de artistas.

Na “Série Documento O QUE É AMAR?“, de 1989, quando dos 30 anos da bossa nova e dos 50 de vida de Alf, no CD homônimo, o incrível Tárik de Souza faz este comentário: “Este ano em que se comemora 30 de bossa nova, é tão apetitoso quanto irônico servir no prato do toca-discos esta antologia de Johnny Alf, com algumas composições que remontam ao início dos anos 50. Alfredo José da Silva, um carioca sonhador, que ouvia os clássicos, e não perdia os musicais do cinema americano, estava anos-luz à frente do seu tempo. Por isso, não ficou velho. Suas divisões de frases esquinadas em diagonal com os ataques dos metais; a voz flambada nas paixões sem correspondência; as construções harmônicas de imprevisão cromática, tudo isso – e mais o mistério melódico de um coração sentimental – mantêm modernistas as linhas da obra de Alf.

O Que É Amar (CD) não se reduz a mero thriller dos grandes sucessos do pioneiro. O LP compacta algumas das principais facetas deste mestre do sombreado rítmico e do sortilégio poético. O lado pisa macio da filosofia malandra, tradição depuradora do melhor samba da Vila, onde nasceu Alf, está no referencial Rapaz de Bem (“e a minha onda é do vai e vem/com as pessoas que eu bem tratar/eu qualquer dia posso me arrumar”), um manifesto do jeito sonso da bossa nova. Céu e Mar (“Estrelas na areia/verde mar caminho do céu”) tema cara concreta do poeta de bruscos cortes cinemáticos. O compasso 2/4, “leve, sincopado do chorinho-canção”. Seu Chopin, Desculpe vale por um desafinado do ideário de Alf. Ali está a confluência da bossa com os clássicos (a Polonaise incluída) e, seu parentesco anterior com a mais densa tradição instrumental do país dentro do mais saudável espírito antropológico. No Bondinho Pão de Açúcar é o gênio rítmico do cantor que embarca, seccionando a letra numa viagem hard pop pelos compassos.

Até o chiado de pratos de bateria ele dubla. Nos econômicos scats, distribuídos ao longo do disco, o melífluo vocal de Alf pode variar do trompete ao barítono com impressionante domínio interior de válvulas e chaves imaginárias.

Mas é na balada romântica que o arrojo futurista do autor/cantor/pianista se revela mais pontiagudo. Das paródicas definições de O que é amor ao resignado Penso em Você, com o cantor emoldurado por uma cortina de cordas descendo à súplica do tom menor. O sussurrante recado de Escuta, o lado de amor guardado pra Disa e os encantos devotos de Podem Falar escapam do mal tradicional das declarações amorosas. Há sempre uma aresta de estranhamento nestas paixões elípticas. É o que ocorre na apoteose do desejo contrariado, onde o autor confessa que lhe “aprazo esta ilusão à toa”.

Contentou-se com a quimera, mas tornou o momento transcendente numa obra-prima. Fim de Semana em Eldorado faz o anticartão postal: o cenário do amor não correspondido, anotado à margem da partitura. Isso para não falar de Eu e a Brisa, um pico histórico, não apenas na carreira de Alf, mas o próprio roteiro da balada triste no país. Inscrita num dos festivais mais disputados da TV-Record de São Paulo, de 67, a música foi obviamente preterida por pertados como Alegria, Alegria (Caetano Veloso), Domingo no Parque (Gilberto Gil), Roda Viva (Chico Buarque) e Ponteio (Edu Lobo/Capinam). Mas sua força melódica era tão grande que Eu e a Brisa derrotou a bateria promocional da TV: transformou-se num sucesso do hit parade, inicialmente na voz da cantora Márcia e depois na do próprio Johnny, na única faixa “ao vivo” deste disco, montado com fonogramas a partir de sua estreia na antiga RCA, em 60.

Um pouco mais de cronologia. Filho de um soldado, que morreu na Revolução de 32, e uma doméstica, teve os estudos de piano custeados pela família que empregava sua mãe. Seguiu uma educação rígida (nos pianos só clássicos; estudos no severo colégio Pedro II), mas estava tomado pela música popular captada no rádio (“Nat King Cole era um dos meus ídolos”), frequentava sessões culturais do Instituto Brasileiro-Estados Unidos e era dos sócios do Sinatra-Farney Fã Clube, onde se reuniam Nora Ney, Doris Monteiro, Tom Jobim, Billy Blanco, inconformados com o status quo do samba da época. Em 52, estreava profissionalmente como pianista e cantor e logo começava a gravar, sem regularidade, seus pioneiros sambas bossa nova como Rapaz de Bem. Quando a bossa estourou, na pele de um movimento integrado, alguém “se esqueceu” de incluí-lo na lista dos que deviam embarcar para o Carnegie Hall, no célebre espetáculo de 62, que reuniu a nata do gênero. De lá para cá, escondido nos bares da noite, Alf passou de injustiçado a cult, com uma recente estada na casa noturna mais influente do Rio, o African Bar, do animador cultural Nelson Motta. Três décadas só fizeram renovar os encantos ocultos de sua obra de esmero minimalista. É ouvir para crer” (2).

Tárik diz tudo. O CD em questão é uma obra de arte. Passados 32 anos do seu lançamento, é prazeroso ouvi-los (o disco e o cantor). Só para explicar o título deste artigo: “Eu, a brisa e Johnny Alf”, não se trata de uma pretensão, uma ousadia. Mas sim do eu lírico. Com pretensão sim, em enfatizar o nome do criador de Eu e a Brisa. Por sinal, uma das mais belas canções do universo musical brasileiro. Principalmente na voz da cantora paulista Márcia (77 anos). Apesar de umas 30 versões da mesma música em grandes vozes como Cauby Peixoto, Ney Matogrosso, Maysa, Baby Consuelo, entre tantos outros. A seguir os inesquecíveis versos de Eu e a Brisa:

“Ah, se a juventude que essa brisa canta/Ficasse aqui comigo mais um pouco/Eu poderia esquecer a dor/Do ser tão só pra ser um sonho/E aí então que sabe alguém chegasse/Buscando um sonho em forma de desejo/Felicidade então pra nós seria/E, depois que a tarde nos trouxesse a lua/Se o amor chegasse eu não resistiria/E a madrugada acalentaria a nossa paz/Fica, oh brisa fica, pois, talvez quem sabe/O inesperado faça uma surpresa/E traga alguém que queria te escutar/E junto a mim, queira ficar/Bem junto a mim queira ficar” (bis).

Esperamos, com este artigo, agradado aos nossos leitores. Por favor, ouça, com o (a) intérprete de sua preferência.

Notinha útil – Amanhã, 05 de setembro, é a data mais importante da Historia do Amazonas. Trata-se da elevação do Estado à categoria de Província. Desde de 1850 que “a antiga capitania de São Jose do Rio Negro, deixou de pertencer à Província do Grão-Pará e se tornou independente”. Sabe-se, portanto, que por aqui o provincianismo político, cultural, educacional, comercial, industrial, ambiental, etc, etc, etc, está muito presente, ainda. É lamentável! Esperamos por mudanças urgentes.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fontes: 1. dicionariompb.com.br; 2. CD “O que é amar”, de Johnny Alf, RCA, 1989.

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