Oração aos Moços: 100 anos

Rui Barbosa de Oliveira, jornalista, político, jurisconsulto, escritor e grande orador, nasceu em Salvador (BA), em 5 de novembro de 1849 e morreu em 1º de março de 1923, em Petrópolis (RJ), aos 74 anos. Quando do centenário de seu nascimento, em 1949, seu restos mortais foram transladados para a cripta do Palácio da Justiça da Bahia, chamado Fórum Rui Barbosa.

O baiano chegou à política por meio de Manuel Dantas, do Partido Liberal do seu Estado, onde foi eleito deputado provincial e geral. Obteve destaque na elaboração das reformas eleitoral e do ensino, de 1881/1883, e na emancipação dos escravos em 1884. Nessa época assumiu a defesa do federalismo, opondo-se a participar do último gabinete monárquico. Com a Proclamação da República, em 1889, foi ministro da Fazenda do governo provisório. Porém, foi muito criticado e hostilizado por forças de oposição.

Teve importante participação na elaboração da Constituição de 1891. Coube-lhe, no entanto, a revisão dos projetos da Comissão presidida por Saldanha Marinho, cujo substitutivo enviado ao Congresso, rompia de vez com a tradição parlamentarista, defendida pelo Império. Consagrando o presidencialismo tal qual o adotado nos EUA. Quando Floriano Peixoto assume o poder, Rui passa para a oposição. “Lutou contra as limitações impostas às liberdades públicas. Durante a Revolta Armada, foi preso e processado. Perseguido como rebelde, exilou-se em Buenos Aires, Lisboa e Londres” (1). Em 1895, voltou ao Brasil e reassumiu sua cadeira no Senado, onde fazia oposição ao governo Campos Sales.

Em 1907, foi nomeado pelo presidente Afonso Pena, para representar o Brasil na Conferência de Paz de Haia (importante cidade da Holanda), na defesa do Brasil da igualdade entre as nações. Ele ganhou tanta projeção internacional, que de lá saiu, como o apelido de a “Águia de Haia”. Outro destaque, por mérito, ocorreu em 1916, durante a 1ª Guerra Mundial, quando representou o país, por determinação do presidente Venceslau Brás, no centenário de independência da Argentina. “Na Faculdade de Buenos Aires, pronunciou discurso que se tornaria célebre, definindo o conceito jurídico de neutralidade. Foi um passo decisivo para a ruptura das relações do Brasil com a Alemanha e a aceitação das causas dos aliados” (1).

Em 1910, candidatou-se à presidência do Brasil, mas foi derrotado por ampla margem de votos (obteve 222.822), enquanto seu adversário, Hermes da Fonseca (obteve 403.867). Mesmo assim, “liderou um grande movimento que mobilizou a oposição pública e que ficou conhecido como Campanha Civilista” (1). Nas eleições presidenciais seguintes (1914), teve seu nome lançado novamente, mas não concorreu. Em 1919, aos 70 anos, com a morte do presidente eleito Rodrigues Alves, que não chegou a tomar posse, Rui disputou com Epitácio Pessoa, mas contou penas com o apoio dos Estado do Rio de Janeiro e do Para – foi derrotado nas urnas.

Ainda muito jovem, Barbosa bacharelou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo em 1870, após ter iniciado seus estudos ginasiais e acadêmicos, na capital pernambucana, Recife. E, logo no início da carreira, na Bahia, passou a envolver-se com política partidária. Como também, escrever para jornais e desenvolver o dom da oratória. Depois dessa fase, veio a publicar muitos livros – daí ser extensa a sua bibliografia -, como: O Elogio de Castro Alves; José Bonifácio; Cartas de Inglaterra; República; Oswaldo Cruz; e principalmente Oração aos Moços, de 1920, seu último trabalho, publicado em vida, em 1921, ou seja, há exatos 100 anos.

“Oração aos Moços é um de seus mais célebres escritos. O texto é o discurso aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo, lido pelo professor Reinaldo Porchat e, sem dúvida, constitui uma obra-prima pelo modelo de clareza, persuasão e eloquência” (1). Cabe esclarecer ainda, que o “Dr. Rui”, como era familiarmente chamado, não compareceu à solenidade de formatura, da qual era o paraninfo, porque enfrentava sérios problemas de saúde.

Segundo o mestre Edgard Batista Pereira, “na Oração aos Moços vemos um Rui diferente, toda serenidade e brandura, aconselhando, advertindo, perdoando. Ele mesmo o diz: “a bênção do padrinho não traz fel. Não encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem despeito”. Isso não impediu que seu estilo ganhasse em concisão e energia. Seus períodos são curtos e incisivos como textos e códigos. (…) É um pai falando aos filhos. Emprega tão-só palavras simples, mas palavras que são conselhos, e conselhos que são verdades imperecíveis. Estas ele as encontra em si mesmo, nos recessos do próprio coração, donde jorrou, límpida e cristalina como os veios d’agua das alturas, a Oração aos Moços” (2).

O bojo dessa obra memorável é deveras curto – 50 páginas, incluídos os manuscritos do autor -, publicada há cem anos, em março/abril de 1921, no lendário jornal O Estado de São Paulo. Trata-se, no entanto, de um livro grandioso, inesquecível, haja vista que seus ideais essenciais “são a Liberdade e Justiça. E estes são eternos e só desaparecerão com o próprio Sol”. Leia uma única vez, e jamais esquecerá de algumas lições de vida nele pontuadas.

A certa altura do discurso, ele escreve: “Num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não há, moral, política“. Na sequência cita Dante: “Le leggi son, ma chi son pon mano ad Nullo” (“Mas quem lhes há de ter mão? Ninguém”). E suplicando, completa: “Magistrados futuros, não vos deixeis contagiar de contágio tão maligno. Não negueis jamais ao Erário, à Administração, à União, os seus direitos”. Tem mais: “Não militeis em partidos, dando à política o que deveis à imparcialidade (…). Não cortejeis a popularidade (…). Não prescindais, em suma ao conhecimento próprio” (2).

Não deixou ele, no que cabe ao mandamento do conhecimento, de recomendar, o seguinte princípio: “Os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias. (…) Se o povo é analfabeto, só ignorantes estarão em termos de governar. Nação de analfabetos, governo de analfabetos” (1)

Por fim, na leitura solene, é óbvio, do magnífico reitor, o professor Reinaldo Porchat, estava escrito esta oração exclamativa: “Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre nação explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta” (1). Passados 100 anos da publicação desse Manifesta da Coerência e do Saber, cabe, portanto, a cada leitor do Facetas tirar as suas próprias conclusões, sobre o B. r. a. s. i. l. do século 21, sem perder de vista o nosso passado de 500 anos, para, se puder, projetar os próximos 50, no máximo.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Barbosa, Rui. Oração aos Moços. – SP: Editora Martin Claret, 2004; 2. Barbosa, Rui. Oração aos Moços. – RJ: Ediouro, 1985.

Um comentário em “Oração aos Moços: 100 anos

  1. Professor Gomes, vc sempre atento à situação pela qual nosso Brasil vem passando. Ninguem nada mais do que o grande jurista Rui Barbosa, para nos representar com essa abordagem tão ilustre nesse momento atual.
    O Brasil hoje precisa sim, de pessoas com o intelecto de Rui, para que diante dessa palhaçada do STF, possamos ter o Brasil que queremos.

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