Um século de Cobra Norato

Cobra Norato – ilustração de Poty

Já comentei aqui que o enredo de alguns livros, por nós lidos, a partir da nossa adolescência, principalmente, fica no arquivo da memória para sempre. É só alguém fazer referência sobre essa ou aquela obra, e logo nos vêm à lembrança: autor, personagens, contexto, etc. Por exemplo, reli recentemente – depois de 4 décadas -, “Cobra Norato”. Pense num poema apaixonante, o qual está dividido em 33 partes (critério do editor).

“Cobra Norato, poema genial de Raul Bopp, situa o autor como um dos maiores escritores de nosso país e presença de grande importância no movimento modernista da década de 1920, que tanto influenciou (e influencia até hoje), os caminhos da cultura nacional”. É uma observação, apenas sobre uma das grandes artes: a literatura.

Raul Bopp nasceu em 04 de agosto de 1898, na comunidade de Pinhal, no Município de Santa Maria (RS), e morreu aos 85 anos, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no dia 02 de junho de 1984. Seu bisavô migrou da Alemanha para o Brasil em 1924, onde passou a dedicar-se à criação de gado. A mãe de Raul era descendente da família Kroeff, também de origem alemã, veio para o Brasil aos 21 anos, em 1845. Ainda na terra natal, a moça ocupava-se do fabrico de vinho. Porém, nas horas vagas, escrevia versos, poemas com frequência.

Quando adolescente Raul “quis viajar pelo mundo”. Esteve, inclusive, no Paraguai. De lá, migrou para Mato Grosso, onde iniciou o curso de Direito, “completando-o em três outras cidades diferentes: Recife, Belém e Rio de janeiro”, por causa das suas constantes viagens Brasil afora. Conhecer novos lugares era para ele um contentamento, sempre. E, foi numa de suas “mudanças” que concebeu os primeiros versos do seu magistral poema.

Sobre o que observou em relação a Amazônia, escreve: “Era uma geografia do mal-acabado. As florestas não tinham fim. A terra se repete carregada de alaridos anônimos. Eram vozes indecifradas. Sempre o mato e a água por toda parte”. Por essa sua percepção, logo logo ele “passou a acreditar nos seres fantásticos da floresta: o Minhocão, o Curupira, o Caapora, o Mapinguari. Os “causos” que “ouviados canoeiros da Bacia Amazônica tornavam-se, para ele, a mais pura realidade. Cobra Norato, começava-se a se esboçar” – de um projeto para crianças transformado num poema para adultos.

Bopp participou diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Depois fez parte do grupo paulista verde-amarelo. Entre 1926 e 1929, o poeta viveu em São Paulo, onde fez parte do Movimento Antropofágico – “vertente do modernismo que marcou para sempre a história da cultura nacional, ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, entre outros. Passado essa fase, esteve ele no Extremo Oriente, Europa e América Latina. A partir de 1932, como diplomata serviu em: Cobe (no Japão), Iocoama, Los Angeles, Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima” (1).

Sobre a obra em questão, leiamos o que escreveu o grande poeta Affonso Romano de Sant’anna: “Cobra Norato, é um texto emblemático. Raul Popp diz que começou a escrevê-lo em 1921, quando era estudante de Direto em Belém (…). Mas o que marcou a origem do poema foram os trabalhos de Antônio Brandão Amorim, onde Bopp sentia “um forte sabor indígena (…)”, ou seja, onde ou poema “ia se deixando impregnar pelas lendas amazônicas (como a da Cobra Grande, ou uma de suas variantes, a do Cobra Norato” (1).

O grande pesquisador Câmara Cascudo, em seu destacado “Dicionário do folclore brasileiro”, explica o seguinte sobre o poema de Bopp: “Uma índia se banhava estre os rios Amazonas e o Trombetas, quando foi engravidada pela Cobra Grande. Nasceram-lhe um menino – Norato – e a menina Maria Caninava. Maria era uma peste e vivia provocando naufrágios. Norato que era bom, foi obrigado a matá-la. Como penitência, Norato, à noite, passou a transformar-se em um rapaz sedutor, deixando na beira do rio sua longa pele. Diz a lenda que, se alguém conseguisse pingar leite na boca da cobra e ferir sua cabeça, ele se desencantaria e se tornaria só rapaz. Tal façanha foi conseguida por um soldado do rio Tocantins”.

Porém, ainda, segundo Romano, “há outras versões. Bopp criou uma variante própria. Arranjou uma moça para Cobra Norato – a filha da rainha Luzia. Mas, para cumprir seus prognósticos – vencer um ciclo exaustivo de provas. Terá que passar por SETE mulheres brancas, de ventres despovoados; terá que entregar a sombra pro Bicho do Fundo; terá que fazer mirongas, na lua nova”. Daí ser “um poema estranho, de leitura difícil”.

Assim, continua Sant’anna: “o encontro com o movimento antropofágico (…), foi muito importante para Bopp. Sobretudo o contato com Tarsila, em quem ele via a chefe do movimento e a quem dedica o poema”. E, ao concluir a sua análise literária, assegura: “o poético do texto vem menos do tratamento do verso do que da utilização do mito dentro da estética modernista” (1).

Em 1985, passado um ano da morte do poeta, Lígia Morrone Averbuck, tanto em “Cobra Norato” como em “Revolução Caraíba”, escreve com muita propriedade essas considerações: “Bendita Amazônia! Se Bopp não tivesse passado, em suas viagens curiosas e aventureiras, por esta região de lendas e mistérios, talvez não tivéssemos o genial Cobra Norato, a andar sinuoso, veloz e poético pela história das obras-primas da literatura brasileira e universal” (1).

Consta também, nesta edição, ora em estudo, um depoimento/entrevista – em quatro páginas – entre Raul Bopp e Maria Amélia Mello, editora chefe da “José Olympio”, ocorrido em 1976 e 1978, publicado, nos jornais, onde o poeta tanto fala sobre o Movimento de 1922 como da concepção com a da produção desse livro, o qual não deve deixar de ser lido por nós. Por isso voltei às suas páginas 4 décadas depois da primeira leitura. recomendação nossa.

Assim começa e finda o indispensável “Cobra Norato”: Um dia, eu hei de morar nas terras do Sem-fim (…) – Pois então até breve, compadre Fico-lhe esperando Atrás das serras do Sem-fim”.

Por Angeline e Francisco Gomes

Notinha útil – Ontem, 1º de outubro é dedica ao Dia Internacional da Pessoa Idosa. No Brasil, nessa data, em 2003, foi sancionada a Lei nº 10.741, ou seja, criando o Estatuto do Idoso (com 118 artigos), que regula os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. No art. 2º consta: O idoso tem todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, como todas as oportunidades e facilidades, para prevenção de sua saúde física e mental, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. Aos idosos, o parabéns do Facetas!

Fonte: 1. Bopp, Raul. Cobra Norato; ilustrações de Poty – 29ª ed. – RJ: Editora José Olympio, 2010.

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