“A brincadeira que era o carnaval”

Fotos do disco em questão

Constam no mesmo disco (LP, capa dupla, volumes 1 e 2) “Carnaval Não É Brincadeira1”, dois comentários geniais: A Brincadeira Que Era o Carnaval e O Frevo, assinados por José Ramos Tinhorão e Marcus Vinicius, respectivamente. Na contracapa, para justificar esse título dos discos, Marcus Pereira faz este resumo: “O Brasil está precisando reinventar o carnaval. Nunca houve, como hoje (1977), tantas mágoas para afogar, tantas tristezas para esquecer”.

No disco 1, por exemplo, no lado A, estão 5 frevos-canção, cantados por Claudionor Germano; no lado B, estão 4 marchas-rancho, cantadas por Cláudia Moreno. Porém, há um lembrete da gravadora: “Os frevos são gravações realizadas pela Fábrica de Discos Rozenblit, do Recife (PE), que gentilmente nos autorizou sua utilização”. No disco 2, lado A, estão 5 marchinhas, interpretadas por Ana Maria Brandão; e no lado B, 4 sambas, interpretados por Djalma Dias. Como são tão interessantes as duas pesquisas, fica impossível comentá-las num único artigo. Mas, sim dois. O Facetas começa pelo musicólogo Tinhorão.

Ele vai direto ao ponto: “A história da música de carnaval (aliás, uma criação exclusivamente brasileira), ainda está para ser escrita. Os pesquisadores que se aventuram ao levantamento das produções carnavalescas deparam-se sempre com dificuldades praticamente intransponíveis: ninguém registrou musicalmente o que o povo cantava pelas ruas durante o século XIX; nem tudo o que era composto – mesmo por autores de algum nome – chegava a ser editado em partituras; e embora o disco tenha vindo, no início desde século (XX), remediar tais falhas, até hoje ainda não se conhece 70% das músicas gravadas no Brasil” (1).

Sabe-se que a música carnavalesca surgiu da necessidade de encontrar uma ordem rítmica, haja vista que havia “o vale-tudo”, até segunda metade do século passado (XX), ou seja, a partir de 1840, com a criação dos bailes de carnaval em teatros, os foliões agitavam-se ao som de música dançante, mas de inspiração europeia. Porém, “como o carnaval é uma festa coletiva (seja pelos salões, seja pelas ruas), cuja música requer dança e canto, foi inventada a “fórmula rítmico-melódica que, acentuando sempre o tempo forte do compasso dois por quatro, permitisse à multidão marchar sem atropelos”. Mas, esse feito só foi conseguido em 1869, não por um músico, mas por um ator, o comediante Francisco Correia Vasques, um dos criadores do teatro popular brasileiro.

Vasques resolveu escrever uma paródia sob o título O Zé Pereira Carnavalesco, como “cousa (assim mesmo com “u”) cômica que se deve parecer muito com Les Pompieres de Nanterre (Os Bombeiros de Nanterre, peça francesa)”, que consistia exatamente no estribilho à base de sopros, e em que o ritmo era fortemente marcado por um enorme bumbo brandido, à maneira dos Zé Pereira portugueses. Essa é, de fato, a primeira música de carnaval, cujos versos de fanfarra ficariam célebres: “E viva o Zé Pereira!/Pois que a ninguém faz mal/E viva a bebedeira/Nos dias de Carnaval!”

As “asneiras do carnaval” que andavam todos os anos na boca do povo miúdo, principalmente negro e mestiço, ainda no final do século XX podiam ser ouvidas pelos componentes dos cordões de variantes de capoeiras cariocas. Assim, afinal, “o ritmo particular desses grupos de rua, que acabaria inspirando, em 1899, o aparecimento da primeira composição especialmente escrita por por autor conhecido para o carnaval de rua: a Marcha Ó Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga” (1), composta a pedido dos responsáveis por um cordão carnavalesco chamado “Rosa de Ouro”, do bairro do Andaraí. Outras marchas de ranchos e cordões foram lançadas por volta de 1905.

Apesar de descoberto o ritmo ideal para o deslocamento das fileiras de foliões nos bailes de salão, o Ó Abre Alas ficou sendo, durante todos os primeiros anos do século XX, um exemplo isolado de marcha. Embora tenham surgidas outras mais modernas e oficializadas como música feita especialmente para o ritmo do carnaval, ou seja, qualquer gênero de música podia eventualmente fazer sucesso. Por exemplo, desde polcas até marchas portuguesas.

“Essa espontaneidade que refletia, no fundo, a confusão de um período de reconstrução da sociedade brasileira, após a explosão da vida urbana que sucedeu ao fim do regime escravo, ia terminar antes do fim da Primeira Grande Guerra. E era a própria folia que demonstrava, muito ajuizadamente, como o panorama social tinha mudado: ainda antes do fim da guerra de 1918, as diferentes classes sociais do Rio de Janeiro se dividiam em três carnavais – o dos pobres na Praça Onze; o dos remediados na Avenida Central (hoje Rio Branco) e o dos ricos, nos cursos e bailes dos grandes clubes” (1).

Com o samba em 1917, e o ritmo da marcha sistematicamente no carnaval, a partir de 1919, surgiam então, duas fórmulas rítmico-melódicas para atender as três classes antes citadas, “interessadas em participar daquela alegre oportunidade de lazer coletivo chamada Carnaval”. É nesse contexto que surge “uma figura nova de criador popular – o compositor profissional – e, ainda mais, a partir de fins da década de 1920, de toda uma geração de autores especialistas em música de carnaval (Lamartine Babo, João de Barro, o Braguinha, Ary Barroso, Haroldo Lobo, entre outros)”.

Assim, a música de carnaval ia ser enriquecido, nos anos 1930, com surgimento, no sul, do frevo pernambucano, cujas batucadas pretendiam imitar o ritmo das comunidades negras dos morros cariocas, donde “sairia a maioria das escolas de sambas, trazendo consigo a última grande novidade da música destinada ao carnaval: o samba-enredo” (1). Portanto, tudo isso – e muito mais – possibilitou “maravilhoso resultado dessa criação popular única no mundo, que permite às multidões cantarem coro, num uníssono perfeito, os mais diferentes gêneros de músicas, em meio ao aparente caos do carnaval” (1).

“Vai passar/Nessa avenida um samba/Popular”.

Notinha útil – Parafraseando Euclides da Cunha, em Os Sertões, autor de “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, em 04.08.2019, Marie Castañeda e Gabriel Girão, publicaram “O nordestino é, antes de tudo, um forte”, em desagravo às declarações xenofóbicas do sr. Bolsonaro contra pessoas da região. Ontem, 8 de outubro, foi comemorado O DIA DO NORDESTINO – sua cultura, sua diversidade folclórica… O Facetas parabeniza o Nordeste e a sua gente por ser o grande sustentáculo da cultural brasileira.

Por Angeline e Francisco Gomes e Dra. Winnie Barros

Fonte: 1. LPs 1 e 2 “Carnaval Não É Brincadeira!”, SP: Discos Marcus Pereira, 1977.

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