A história do Frevo

Capa do disco: “Carnaval Não É Brincadeira!”

Segundo o maestro Guerra Peixe, o frevo “é a mais importante expressão musical popular” do Brasil. Gênero esse que não admite “compositor de orelha” em hipótese alguma. “Na realidade, o frevo, exige dos compositores mais que o simples conhecimento de teoria musical e forçando-os a entender obrigatoriamente dos segredos da orquestração, é um dos gêneros mais elaborados e formalmente mais ricos de nossa música popular. Isso é fato patente” (1). Sua riqueza musical é vasta. Além de ser “o mais antigo gênero carnavalesco do Brasil, cujas raízes remontam às três últimas décadas do século passado” – XIX (1). Ele veio mesmo antes da marchinha, da marcha-rancho e do samba. Os estudos revelam essas certezas verídicas.

Seu desconhecimento e de sua importância, fê-lo ser um gênero estadual, e não música regional, no sentido estrito sensu da palavra. Apesar de ‘correr” em quase todo o Nordeste, “só em Pernambuco, no entanto, é que esse gênero consegue ser produzido, devido a todas as exigências: afinal de contas, só lá é que se encontram não apenas os compositores com os requisitos exigidos (conhecimento de harmonia, contraponto e, sobretudo, de orquestração), como também os músicos capazes de executar as complexas figuras rítmicas sincopadas em registros difíceis, como formas de articulação e expressividade próprias. Só encontramos uma razão para justificar essa adequação dos músicos pernambucanos à complexidade da composição e da execução do frevo: a tradição. O mesmo não acontece com os músicos de outras regiões do país” (1).

Outra explicação, conforme Marcus Vinicius, reside no fato de que em Pernambuco sempre houve muitos músicos de bandas e tocadores de pistons, trombones e madeiras. O “ouvido-popular” do Recife, desde o século XIX, acostumou-se bem ao som dos pesados acordes desses instrumentos e às melodias conduzidas por eles. Já por volta de 1870, quando “as primeiras células melódico-harmônicas do que posteriormente seria chamado frevo, houve como que um influência decisiva da sonoridade das grandes bandas sobre elas: o novo gênero nascia sob o impacto da marcação em dois por quatro das marchas-de-banda e captando os timbres sofisticados da formação metias-palhetas-madeiras” (1).

É possível, grosso modo, dizer que o frevo resultou da contribuição timbre/instrumento europeia; assim como ritmo/melodia com acentuada influência afro. No entanto, “não se sabe dizer, até hoje, se foi a coreografia do frevo – o “passo” – que condicionou a música ou se, ao contrário, foi condicionado por esta. Mas importa ressaltar que neste gênero a unidade entre música/dança é tanta que, diz novamente Guerra Peixe, o dançarino chega “a dançar a orquestração'” (1).

Sabe-se que os primeiros frevos foram cantados por passistas ritmados. Posteriormente esse gênero passou a ser instrumental que, sob influência da marchinha carioca, anos depois, fez ressurgir o frevo cantado: o frevo-canção. Por que, então, o frevo é o mais antigo gênero carnavalesco brasileiro? Porque, por volta de 1888, já havia “um carnaval tipicamente pernambucano e organizado em bases totalmente distintas do que se fazia no resto do país”. Acredita-se que uma das razões para a diferenciação, reside, exatamente, na existência de uma música própria, por um lado. Por outro, havia um grande número de agremiações carnavalescas no Recife do último quartel do século XIX. Por exemplo, o Clube Carnavalesco Mixto (com x) Vassourinhas foi fundado em 1888, ou seja, um clube de frevo que leva às ruas a famosíssima Vassourinhas, de Matias da Rocha, um dos mais antigos frevos de que se tem notícia, e um produto inteiramente acabado, pronto.

Sabe-se ainda, “que no ano de 1900, quando começaram a desfilar no Rio os primeiros grupos que só com algum esforço se poderia denominar de “cordões”, o Recife fazia o seu Carnaval do Século, pondo na rua nada menos que 100 agremiações carnavalescas”. A partir daí, o frevo evoluiu durante todo o século XX, ganhando novas características, como a cadência descendente e o breque no grave, trazidos por Nelson Ferreira – e, principalmente, passou a ser conhecido através de três manifestações (1).

Quais? Estas aqui: 1. “O frevo-de-rua, mais próximo às origens, tocado por orquestra de metais e palhetas, sem letra, com melodia, ágil e destinada a botar a massa pra “frever” (“ferver”). Ainda há, também, as espécies conhecidas como “ventania” e “coqueiro”; 2. “O frevo-canção, cantado nos salões, bastante influenciado pela marchinha carioca, mas com andamento mais rápido e melodia sincopada”; e 3. “O frevo-de-bloco, influenciado pela música dos pastoris, tocado por orquestras de pau-e-corda, de intenso lirismo nas melodias e nas letras, que são cantadas, apenas por mulheres (pastoras) integrantes dos blocos”.

A seguir, três canções – uma para cada manifestação artística – , e seus criadores (autores): Fogão, frevo-de-rua, de Sérgio Lisboa (1888-1954), pernambucano de Jaboatão dos Guararapes. Essa música foi gravada pela primeira vez por mestre Zacarias e sua Orquestra em 1950 (vídeo disponível no YouTube) , em gravação de 78 rpm; Nos Cabelos de Rosinha, frevo-canção, de Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (1904-1997), pernambucano de Surubim. É, sem dúvida, “o mais conhecido compositor de frevos do Brasil”. Alguns de seus versos: “Nos cabelos de Rosinha/Rosa nunca amarelo/Quem visse as duas rosas de manhãzinha/Difícil era dizer qual era a Rosa ou a Rosinha; e A Verdade É Esta, frevo-de bloco, de Edgar de Morais (1904-1974), em Recife nasceu e morreu. Foi um dos grandes foliões, e que ficou conhecido como o General de Cinco Estrelas da Folia. Seus versos: “Vem, escutar/Nossa linda canção/Que às vezes nos faz chorar/Em sentir do passado uma recordação”.

Seria muita pretensão da nossa parte, recomendar esse ou aquele frevo a ser ouvido. São tantos – e tão belos -, que vale apena nosso leitor escolher a música de sua preferência. Esperamos que cada um leia e goste deste pequeno histórico, pesquisado e aqui publicado.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte: 1. LP “Carnaval Não É Brincadeira!”, SP: – Selo Marcus Pereira, texto: “O Frevo”, de Marcus Vinicius, 1977; 2. ouvindofrevo.wixsite.com

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