Clementina de Jesus, a síntese do Brasil

Arte de Elifas Andreato – 1979

Tenho orgulho da música brasileira. Em todos os tempos. Em todos os gêneros. tenho dos compositores, intérpretes, músicos, produtores, etc. É fascinantes demais ouvir vozes como a Elza Soares, Margareth Menezes, Clara Nunes, Leci Brandão, Áurea Martins, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Teresa Cristina, Elizeth Cardoso, entre outras, advindas da autêntica musicalidade afrodescendente.

Vamos, aqui e agora, de Clementina de Jesus da Silva (1901-1987). Nascida em Valença (RJ) e falecida, vítima de derrame, em Inhaúma (RJ), aos 86 amos. Sambista e dona de uma voz inconfundível, potente e ancestral , foi a síntese do Brasil. “Conhecida como Rainha Quelé, carregava consigo os banzos de seus ancestrais, transformados em cantos, encantos e segredos nos jongos, no partido-alto e nas curimbas que cantava” (1).

“Ela chegou tarde ao conhecimento do público. Quando Hermínio Bello de Carvalho apresentou Cleentina, já fazia 63 anos que ela havia nascido (…). Ainda assim, sua passagem pela música popular brasileira foi marcante. Ela emprestou sua voz possante ao samba. Qualquer samba. Cantou de cartola a João Bosco e Aldir Blanc, passando por Paulinho da Viola. Também registro sua voz gravando cantos afro-brasileiros, como na música de Pixinguinha, Yaô” (2).

A menina Clementina nasceu no tradicional reduto de jongueiros. Ali ela viveu a infância ouvindo sua mãe, a parteira Amélia de Jesus dos Santos, cantar enquanto lavava as roupas na beira do rio. Seu pai, Paulo Batista dos Santos, era capoeira e violeiro da região (ou seja, do Vale do Paraíba). Assim, a pequena foi guardando na memória, tesouros que mais tarde surgiria a Escola de Samba Portela, onde sua voz ecoou por muitos anos. Após casar-se com Albino Pé-Grande, foi morar no Morro da Mangueira, de onde não saiu mais.

Foi lavadeira e empregada doméstica. Sua atividade de cantora era exercida sem intenção de fazer-se profissional, mas por prazer, por alegria. Como cantora profissional começou aos 63 anos, como já foi dito, no início dos anos 60, por meio de Hermínio, que ficou fascinado ao ouvi-la cantar no restaurante Zicartola, cuja voz já clamava a atenção de muitos. Inclusive a crítica que foi unânime em exaltá-la, tanto no show quanto nos dois LPs gravados ao vivo. Em 1966, esteve ela em Dakar (África), e foi o maior sucesso ao lado de Martinho da Vila, Rubem Valentin, entre outros. Ainda nesse ano, gravou seu 1º disco solo com jongo, curimba, sambas e partido-alto. “Também Milton Nascimento, fascinado pelo banzo de Clementina, convidou a cantora para participar de seu disco chamado “Milagre dos Peixes” gravando a excepcional faixa Escravos de Jó

Ao todo, gravou 15 LPs – solos e participações em álbuns coletivos, como o “O Conto dos Escravos” composto de vissungos de escravos da região de Diamantina, que foi uma unanimidade de sucesso entre os críticos. A artista “foi louvada como elo entre África e Brasil, tendo sido reverenciada por grandes nomes do cenário musical brasileiro, como Elis Regina, João Nogueira, Clara Nunes, Caetano Veloso, Maria Bethânia e João Bosco. Todos a tratavam com muito carinho (…). O sambista Candeia compôs um samba em homenagem à Rainha Quelé chamado Partido Clementina de Jesus, que a cantora gravou ao lado de Clara Nunes em 1977, no LP “As Forças da Natureza”(3).

Em 1979, a sambista lança outro LP memorável: “Clementina e Convidados” de 12 faixas, entre outras: Embola Eu; Boca de Sapo; Sonho Meu; Torresmo à Milanesa, com participação de Cristina Buarque, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Adoniran Barbosa, Carlinhos Vergueiro, etc. Nesse mesmo trabalho, Fernando Faro, em maio de 1979, escreve:

“Tantos anos. Tantos./Nesse tempo todo e pele exposta ao sol, à água, ao vento/Não podia ser diferente./Agora está ali aquela mão./ Velha./Como uma folha ressecada./Sem brilho, sem qualquer sinal de umidade./Tão frágil e quebradiça que se teme tocar./Que até o movimento mais cauteloso preocupa e aflige/ – ele pode partir em 78 pedaços e virar pó./É essa mão que desce trêmula até a bolsa e de lá/retira um pedaço de papel higiênico./ – Essa vista hoje tá uma porcaria – resmunga ela enxugando aquela água que lhe sai do olho./Isso que você está falando não está escrito aqui, não/ – diz ela./Está. Clementina. É que você começa a ler um verso e na metade pula pro outro. Olhe!/Não olho nada. Não quero olhar./ – Está bem, vamos deixar isso pra amanhã./(Vamos fazer samba do Paulo da Portela?)/ – Ah, Clementina, não me diga…/ – Digo, sim senhor. Não sei que samba é esse não!/ – Ora Clementina, o “Cocorocó, eu lhe dei a fita; você levou pra casa…/ – É, vó, você levou. Tava lá na mesinha – diz Bira, o neto e acompanhante./ – Não se mete, menino. Quem o chamou aqui? Vagabundo!/Vá embora, vá!/Não quero ver mais você, não! Nem que me leve pra casa, ouviu? Não preciso./Ela nervosa, brava. Mexe a boca como se mastigasse alguma coisa…/ – Você tem que aprender as músicas, Clementina. É o mínimo que você tem que fazer. Bom, vamos tentar gravar o samba do Candeia?/ – Vamos./Ela mexe na estante à procura da letra. Os papéis estão todos amassados, porque os movimentos são inseguros e nervosos./ – Gravar, gravar! Só se fala em gravar, em dinheiro ninguém fala!/A fita começa a rodar./Agora ela canta./A mão sobe e desce firme, no balanço da música./Aos poucos, um cheiro de mato começa a sair de todas as coisas – cadeiras, instrumentos – o sol penetra pelos cantos do estúdio, e também a lua e a noite, e tudo parece se mudar em terreiros, quintais e quadras./Como nas assombrações./Agora vemos só árvores verdes e uma terra molhada e fértil./É uma história muito bonita, como não se ouvia mais, é recontada. É revivida./Ele não é mais ela, Clementina, de 78 anos./É um feitiço” (3).

Viva Clementina! Vamos ouvir Clementina! Ela é um feitiço!

Notinha útil – Amanhã, 24 de outubro, a cidade de Manaus (AM), estará completando 352 anos. Considerada o “hino” do Amazonas, os versos da música Porto de Lenha (Torrinho-Aldísio Filgueiras), de 1986, per si, revelam muitas coisas sociais e econômicas desta Capital. Vamos à íntegra da letra: “Porto de lenha/tu nunca serás Liverpool/com uma cara sardenta/e olhos azuis/um quarto de flauta/do alto rio Negro/pra cada sambista-paraquedista/que senha o sucesso/o sucesso sulista/em cada navio, em cada cruzeiro/em cada cruzeiro/das quadrilhas de turistas” (4).Êta Manaus!

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. http://www.museuafrograsil.org.br; 2. Col. MPB Compositores, vol. 33 – Alceu Valença, editora Globo/Gravadora RGE, 1997; 3. CD “Clementina e Convidados”, SP, gravadora EMI, 1979; e 4. LP (álbum duplo): “Nossa Música”, 1986.

2 comentários em “Clementina de Jesus, a síntese do Brasil

  1. Que bela exposição bibliografica!
    Clementina rima com menina, com sua voz potente, acalantou muitos corações nos mais gêneros tipos musicais.
    Clementina de Jesus, seu nome rima com luz pra encantar dos os corações. Parabéns ao Facetas por nos brindar com a descrição da vida daquela, sem duvida alguma, está entre todas como umas das melhores interpretes do samba e do jongo, tão bem aqui expressados.
    Parabens à cidade sorriso pelos 152 anos. Que nossos governantes, lhe sorrir novamente…

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