Contos folclóricos, de Câmara Cascudo

Foto-capa do livro ora em estudo

Não há como gostar de Literatura sem conhecer um pouco a vida e a obra de Luís Câmara Cascudo (1998-1986). Trata-se de um dos maiores pesquisadores do Folclore Brasileiro. Nasceu em Natal (RN) e viveu quase toda a sua vida no Estado de origem. Professor, folclorista, jornalista, historiador, musicólogo, etc. “Na juventude, viveu no bairro do Tirol, na Vila Cascudo, da família, em uma chácara enorme. Seu pai hipotecara toda aquela imensa propriedade, não conseguiu saldar a dívida e perdeu tudo. Com a falência do pai, precisou abandonar a Faculdade de Medicina, em Salvador, no quarto ano”.

Morando em Natal, começou “a ensinar História Geral do Brasil”. Depois, mesmo enfrentando sérios problemas financeiros, “conseguiu cursar a Faculdade de Direito do Recife”, onde formou-se em 1928, aos 32 anos. “A pobreza do seu pai, altiva e nobre, não lhe permitia abandoná-lo e viajar para o Sul, mesmo recebendo convites tentadores”. Queria ser professor e assim o fez. Foi, inclusive, diretor do Instituto de Antropologia, hoje Museu Câmara Cascudo. “Aposentou-se em 1966. Em 67, recebeu o título de professor emérito e, em 77, o de doutor honoris causa“.

Sempre estudava muito. Lia muito. Escrevia muito. “Em suas viagens, fazia amigos e ouvia histórias”. Era muito querido, aliás. Assim, tornou-se um homem muito admirado. Por isso, recebia muitas informações sobre “causos” passados de pai para filho. Aí, nasceu o historiador, o qual “pesquisou os caminhos trilhados pelo homem e nos deixou as mais preciosas informações sobre a nossa terra e a nossa gente. (…) Seu legado para a cultura brasileira é incalculável” (1).

Recentemente adquiri a reedição de “Contos…”, de autoria desse mestre e fiquei admirado, abismado. A obra é tão rica sobre a nossa cultura popular, que, do prefácio, minunciosamente narrado pelo historiador – em 18 páginas -, resultou neste artigo. Não precisa ser especialista no ramo do folclore, para perceber sua riqueza. Basta, apenas, fazer uma detida análise, para perceber a inconfundível riqueza da cultura popular brasileira e da literatura oral do Brasil, por meio do seu conteúdo.

“O livro Contos tradicionais do Brasil, de Luís Câmara Cascudo, pesquisador incansável da cultura brasileira e da literatura oral no Brasil, apresenta cem contos transmitidos de geração a geração, preservados, mas também modificados e transformados pela memória e imaginação coletivas”, pelos seguintes critérios: 1. Antiguidade; 2. Anonimato; 3. Divulgação; e 4. Persistência. Cada modalidade, na sua contextualização, é óbvio. A obra em questão, “é, sem dúvida, um acervo ímpar sobre o nosso folclore. Muita dedicação. Muito afeto pelo Brasil” (1).

Em nota, diz a editora tratar-se de um trabalho de “versões dos contos tradicionais – na sua maioria ouvidas, com carinho, de pessoas do povo do seu Estado”, cujo trabalho está dividido em temas como: “contos de encantamento, religiosos, etiológicos, adivinhação e outros”, a fim de facilitar a leitura e a compreensão. Esse conjunto de contos “ainda hoje são recontados em todo o pais”, independente do Estado ou da Região.

Segundo o autor, “nenhuma ciência como o Folclore possui maior espaço de pesquisa e de apresentação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no Homem, da tradição e do milênio na Atualidade, do heroico no quotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo”. Ainda segundo o pesquisador, “o conto popular é justamente mais amplo e mais expressivo”, por um lado. Por outro, o menos examinado, reunido e divulgado. Tem mais: “o valor do conto não é apenas emocional e delicioso, mas uma viagem de retorno ao país da infância. O Folclore ensina a conhecer o espírito, o trabalho, a tendência, o instinto, tudo quanto de habitual existe no homem. Ao lado da literatura, do pensamento intelectual letrado, correm as águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação popular” (1).

O conto é, portanto, “um vértice de ângulo dessa memória e dessa imaginação. A memória conserva os traços gerais. A imaginação modifica, certos aspectos da narrativa, isto é, o princípio e o fim das histórias são as partes mais deformadas na literatura oral. O conto popular revela informação histórica, etnográfica, sociológica, jurídica, social. É um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e julgamentos” (1). Essa modalidade de conto “é o primeiro leite intelectual. Os primeiros heróis, as primeiras cismas, os primeiros sonhos, os movimentos de solidariedade, amor ódio, compaixão vêm com as histórias fabulosas ouvidas na infância” (1).

No todo, Cascudo, adotou esta classificação (características): ANTIGUIDADE. ANONIMADO. DIVULGAÇÃO. PERSISTÊNCIA. Incrivelmente, o estudioso soube combinar esses quatro termos como forma para resumir capítulos inteiros de muitas outras obras do gênero, com esta citação: “É preciso que o conto seja velho na memória do povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos repertórios orais. Que seja omisso nos nomes próprios, localizações geográficas e datas fixadoras do caso no tempo” (1).

Os 100 contos estão divididos em 12 seções: “Contos de Encantamento”, “Contos de Exemplo”, “Contos de Animais”, “Facécias”, “Contos Religiosos”, “Contos Etiológicos“, “Demônio Logrado”, “Contos de Adivinhação”, “Natureza Denunciante”, “Contos Acumulativos”, “Ciclo da Morte” e “Tradição”. No final de cada texto, há ainda uma explicação bem detalhada sobre a origem de conto. “Isso torna Contos tradicionais do Brasil, sem dúvida, um acervo ímpar sobre o nosso folclore” (1).

A dedicação de Câmara pelo resgate de nossas tradições é algo louvável; seu afeto pelo Brasil, fica assim evidente nas suas próprias palavras: “Os motivos dos contos tradicionais são cinco, oito, dez mil, para todo o mundo. Aqui findo quanto pude reunir na tradição oral, nos contos velhos que encantaram as gerações brasileiras. Possa esta coleção animar o estudo do Folclore, numa unidade de trabalho, tenacidade e alegria cordial” (1).

“E como encontraram,/Tal qual encontrei;/Assim me contaram,/Assim vos contei!…” É fascinante o livro em estudo. Somente o nosso leitor poderá conferir o que o Facetas conferiu sobre o folclore brasileiro.

Notinha triste – A equipe do Facetas lamenta profundamente o falecimento da cantora Marília Mendonça (1995-2021), no dia de ontem. A sua arte há de se perpetuar entre os brasileiros, trazendo alegria a milhões de corações. Ela era muito querida aqui na cidade de Manaus. Em 2019, seu show no Largo São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas, reuniu milhares de pessoas, sendo que a cena mais marcante naquele momento foi quando a artista exibiu a bandeira do Estado do Amazonas. Tem mais: quando Manaus enfrentava o pior momento da Covid-19, em janeiro desse ano, Marília foi umas das primeiras famosas a contribuir com doação de cilindros de oxigênio, salvando muitas vidas. Obrigado por tudo, “Rainha da Sofrência”.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros

Fonte: 1. Cascudo, Luís Câmara. Contes tradicionais do Brasil. – 14. ed. – Salvador, BA: LDM, 2018.

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