“Estado de Sítio”, a arte poética de Aldisio Filgueiras

capa do livro em análise

Calma leitor! Não se trata daquele instrumento político utilizado por esse ou aquele chefe de Estado. No Brasil, por exemplo, tema está fundamentado nos artigos 137 a 142 do CF/88. Aqui, trata-se, portanto, do livro de poesia do poeta amazonense Aldisio Filgueiras, o qual fora escrito quando seu autor tinha 18,19,20 (saindo do 2º Grau) anos idade. E já era genial. Agora, então, aos 74 anos é genialíssimo: poeta, escritor, jornalista, compositor, etc, etc, etc.

Segundo ele, “Estado de Sítio foi escrito entre 1965 e 1967. Em 1968, foi premiado em concurso da União Brasileira de Escritores, seção do Amazonas. Impresso, a UBE decidiu por sua não publicação, inspirada no momento político do país, temperado pelo AI-5. A edição se perdeu. Alguns exemplares foram encontrados no meio da rua. Está sendo (re)editado, agora (2004), tal e qual” (1).

Nesta edição do século XXI, foi mantida a apresentação da edição do século XX (“para gáudio do leitor”), escrita por Filgueiras em Manaus, no “inverno ou verão, de 1967”, da qual, o Facetas extraiu alguns excertos, assim: “os poemas aqui enfeixados sob o título geral de Estado de Sítio, apesar de algumas dissonâncias formais, têm um projeto: buscar na linguagem a sua origem social. Isto não resolve tudo, porque na prática a teoria é outra: o meu engajamento político não terá percebido a íntima relação que as boas intenções têm como fogo do inferno”.

“Se alguma insistência formal unifica o livro, trata-se de tornar a linguagem a partir da práxis material e humana do nosso homem, sem o intelectualismo boçal e omisso que importamos de São Paulo (como nós importamos e como nós não nos importamos com isso) e Rio, e sem os socialismos inúteis dos nossos marxistas esotéricos. A linguagem útil e necessária a um tempo de guerra: que se usa. Transformação da linguagem utilizada em produto utilizável ou para ser utilizado. Bem de consumo: arte poética.”

Por esses princípios, diz o versátil e antenado poeta, “os poemas são intencionalmente toscos, limpos de toda a superficialidade alienante”. Na primeira pessoa, ele assevera: “sou contra os analfabetismos de todos os graus. Assim, a obra em questão, traz intensas tentativas de desalienação da linguagem e da própria visão da problemática homem-sociedade.”

O jovem e veemente poeta questiona e justifica a sua pergunta: “mas, por que Estado de Sítio? Bom: a condição do homem e principalmente do homem jovem da Amazônia que ainda é muito paroquiano (…). E a poesia, claro. Os pontos negativos do produto (consumo experimental interno) decorrem dos problemas da mão-de-obra (eu não me poupo, mas peço desculpas): a nossa Universidade (hoje UFAM) teima em não formar técnicos especialistas em problemas nossos”(1). Passados mais de 50 anos dessa visão, esse “problemas nossos” se avolumaram e ainda vivemos, principalmente o ribeirinho, do extrativismo de subsistência, em plena era informacional da 4ª fase do capitalismo.

O poeta ora em análise, garante: “Estado de Sítio é o nosso primeiro produto (arte poética) industrial (já disse que é experimental), a partir de matéria-prima nossa: experiência humana + linguagem útil + mais técnica moderna de composição e comunicação. A arte não é um veículo de comunicação?” E, completando, garante/indaga: “A máquina não foi inventada para computar as sílabas de um soneto, senão para mudar o próprio homem?”.

Por fim, assegura: “mas não precisam me desculpar se eu não preciso frequentar nenhuma zona franca (a Zona Franca de Manaus, fora criada em fevereiro de 1967, pelo Decreto Federal nº 288) para produzir: não adianta mesmo. O que existe é História. Hoje não tem importação. Isso é o que é importante”. Diga-se de passagem: produzir culturas pelas letras, pelo versos repletos de verdades, de inquietação (pessoal, social).

Li em algum lugar, um artigo no qual seu autor dizia que Pra não dizer que não falei das flores, na nossa atualidade, não tem sentido, é uma canção ultrapassada. Será? Ou trata-se de uma opinião hermeticamente fechada? A CF assegura a livre manifestação de expressão, de pensamento, desde que não venha a ferir os direitos alheios. No exemplo acima o autor não pode ignorar o contexto no qual surgiu esse “hino de protesto”, pois “o que existe é História”. E “Estado de Sítio”, da mesma época de Vandré, tem sentido? Sim. Ambos os exemplos estão aí e vivíssimos! O nosso contexto histórico e social é diferente – em todos os aspectos – daquele vivido pelo menino-poeta e vice-versa, há 50 anos? Cada leitor deverá tirar as suas próprias conclusões.

“Estado de Sítio”, é a pura “arte poética”; uma obra antológica. Está dividido em 4 partes: 1) Informação do Amazonas; 2) Noções de moral e ética; 3) Poema sobre a educação e a família; e 4) Estado de Sítio, as quais totalizam 71 poemas. Destaco aqui, alguns que são fantásticos como: Poema novo; Recém-poema; Moral prático; Uma aula de filosofia; O ser da criança; A geração do deserto; Povo-ação do medo; Informação do Amazonas; e, principalmente, o homônimo, Estado de Sítio, do qual o extraímos os seguintes versos (item 7):

“O poeta é o responsável pela humanidade Mas o poeta tem medo: Deus espirrou tão forte sobre a rosa dos ventos que os pontos cardeais perderam as direções do futuro

Estamos sós, diante do século”.

Tem mais: em Terceto, o admirável Aldisio versa assim: “O homem põe/o rio dispõe/deus* arquiva“. Faça o mesmo, amigo leitor: exponha as suas ideias. Sejam sobre a Amazônia, o Tibet.; sobre Dante, Borges, Neruda, Patativa do Assaré, Cervantes; sobre a “problemática homem-sociedade”; sobre Anísio, Bessa, Paulo Graça, Tenório, Aldísio; sobre Torrinho, Candinho, Toquinho Martinho; ou sobre você mesmo (a). Esperamos que gostem.

*palavra grafada, no poema, com “d” minúsculo.

“Porto de lenha/tu nunca serás Liverpool”.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte: 1. Filgueiras, Aldisio. Estado de Sítio. Manaus: Editora Uirapuru, 2004, 2ª ed.

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