“Emotiva”, o magnífico disco de Hélio Delmiro

Foto de Milton Montenegro – contracapa do LP Emotiva

O carioca Hélio Delmiro (74 anos), é um artista genial. Considerado um dos nossos maiores instrumentistas. Um irmão influenciou seu gosto pela música. “Aos 14 anos dedica-se ao violão, entusiasmado pela bossa nova e começa a tocar em bailes, quando conheceu Victor Assis Brasil”. Com Cláudio Caribé, Márcio Montarroyos, Luizão e outros, formou o conjunto “Fórmula 7”.

Tocou para Elis Regina por 3 anos. Inclusive, gravou com ela e Tom Jobim nos EUA. Participou do especial para a TV com Michel Legrand. “Tocou com Luiz Eça, Paul Horn, Dave Grusin, Lalo Schifrin, e gravou com Miltinho, Doris Monteiro e os maestros Nelsinho e Carlos Monteiro de Souza. Em 1975 produziu discos de Clara Nunes e João Nogueira”. Em 1978, no 1º Festival de Jazz de São Paulo, fez duo com Eça.

“Pouco tempo depois viajou com Elizeth Cardoso ao Japão. Em 1979 tocou com Milton Nascimento no Brasil e no exterior, participou dos Festivais de Jazz de Montreux e Tóquio com Elis Regina e apresentou-se no show “Emotivo” no Teatro Ipanema. Gravou com Victor Assis Brasil e Sarah Vaughan. Em 1980 fez temporada no IBAM, em fevereiro, e tocou em Belo Horizonte com Assis Brasil. “Emotiva” é o primeiro disco em seu nome”.

Esse LP foi produzido por Maurício Quadrio, e contou com a participação de Pascoal Meirelles (bateria), Danilo Caymmi (flauta), Paulo Russo (contrabaixo), Jota Moraes (vibrafone), Luiz Avellar (piano) e Delmiro (violão). O disco contém 8 músicas, entre elas: Esperando, Emotiva nº 1, Tarde, etc. Trata-se de um disco imperdível. Em fevereiro de 1980, logo após o lançamento do disco, José Domingos Raffaelli, crítico de Jazz do “Jornal do Brasil”, “Diário do Paraná” e “Somtrês”, publicou brilhante artigo – dual extraímos os trechos a seguir – sobre Hélio Delmiro.

Na noite de estreia do seu show “Emotivo” em dezembro de 1979, Hélio aludiu ao grande sonho irrealizado de sua vida: seu primeiro disco. Depois do espetáculo nos camarins, adiantamos que nos primeiros dias de 1980 ele receberia uma grata notícia. Quis saber do que se tratava, mas pedimos que aguardasse um pouco mais. Sabíamos que o seu discoestava na pauta das produções imediatas da EMI-ODEON, mas não estávamos autorizados a revelar, razão pela qual apenas o preparamos para a boa nova.

Finalmente eis o sonho transformado em realidade. Hélio é um perfeccionista, meticuloso e de profundo senso profissional. Atento a todos os detalhes resolveu todos os problemas atinentes a gravação das músicas com sua proverbial tranquilidade, colocando todo seu talento e entusiasmo neste seu primeiro disco.

Admirado e respeitado internacionalmente, reconhecido como um dos melhores guitarristas do mundo por Larry Coryell, Chick Corea e Leonard Feather, neste disco Hélio confirma sobejamente as suas virtudes. Dominando completamente a guitarra e o violão, possui todos os requisitos de um grande músico. Sua música harmônica e ritmicamente provocante de uma qualidade melódica definida, sua criatividade e a notável habilidade técnica estão sempre presentes na sua execução. Ele improvisa frases extremamente longas e rápidas, fluentes e de rara continuidade. A clareza melódica das suas ideias resulta em música inventiva de inusitada sensibilidade. Qualquer um dos seus solos traduz uma experiência memorável de envolvente musicalidade, produzido por um músico criador que conhece o verdadeiro significado da liberdade da música” (1).

O crítico segue, agora, sobre o repertório do LP, ou seja, “maior diversificação temática e do contexto”. Fazendo, para cada faixa – são 8, que totalizam 40 minutos de execução -, um resumo específico. Por exemplo, Esperando, além das 7 restante, com a participação da flauta de Danilo Caymmi, cuja “melodia exposta por Delmiro que desenvolve a expressão musical aumentando de intensidade cada frase, alcançando todos os registros da guitarra (…). É um verdadeiro achado, variando as frases com lógica e clareza” (1).

“Outro solo de violãoEmotiva nº 1e uma composição de grande lirismo em andamento 3/4″. O mesmo ocorre em Tarde, onde “há perfeito equilíbrio e entendimento entre os músicos”, que tornam as execuções musicais, esplendorosas, isto é, “a registrar a atuação marcante da seção rítmica e a incontida vibração dos participantes ao ouvirem o teipe. Uma autêntica obra-prima” (1). Tem mais: no final, o artista agradece a todos que fizeram seu trabalho acontecer, assim como o Gonzaguinha que cedeu os músicos Jota e Pascoal.

Por fim, Raffaelli, assegura: “Hélio percorreu um longo e árduo caminho para a concretização do seu sonho maior. Os resultados ficarão para a posterioridade como uma realização invulgar de um artista de maior expressão, cuja integridade e honestidade profissional o levaram à posição de relevo que ocupa. Modesto, como são todos que conhecem prodigamente aquilo que fazem, talentoso e incansável pesquisador dos segredos da guitarra e do violão. Hélio Delmiro é hoje um nome consagrado internacionalmente. Este disco fala por si. É um privilégio que muito nos honra através destas modestas linhas o seu trabalho magnífico”.

Recomendamos aos nossos leitores, que ouçam esse disco. É de uma grandiosidade artística impar. Magnífico mesmo, como assegura o crítico Domingos.

Notinha útil – Hoje, pela passagem do Dia da Consciência Negra, parabenizamos todos os seres humanos: índios, brancos, negros, amarelos, com estes versos do grande pensador africano Bernard Dadié (1916-2019), sobre a negritude: “Eu vos agradeço, meu Deus, por ter-me criado Negro/O branco é uma cor de circunstância./O negro, a cor de todos os dias,/E eu carrego o mundo desde a aurora dos Tempos/E meu sorriso sobre o mundo, na noite, criou o dia. Há 4 dias, o cantor paraibano Chico César (57), um dos artistas mais brilhantes do país, foi vítima de ataques racistas advindos de um locutor de rádio, do tipo: “praga” e “aquele neguinho”. Há alguns anos, César havia composto: “respeitem meus cabelos brancos”, ou seja, respeitemos, portanto, uns aos outros: sem preconceito, sem discriminação, sem intolerância, sem racismo. Meus Deus, por que o racismo persiste em existir com tanta veemência entre NÓS?

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: 1. LP “Emotiva”, de Hélio Delmiro. EMI-ODEON, RJ, 1980.

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