O medo nosso de cada dia

“O Grito”, do pintor norueguês Edvard Munch

“Bicho de sete cabeça (…) Cresça e desapareça”.

Assistia eu a elucidação de um assassinato cujo resumo era exibido no Canal “ID”, quando o policial do Condado onde ocorrera o fato, ao reportar-se sobre as crianças da mãe morta – supostamente pelo marido -, disse: “Se tinham medo de que algo ocorresse, é porque alguém lhe ensinou a ter medo. O medo é um instituto humano, mas é aguçado nos seres”. Fiquei com essas palavras na mente por achar que realmente, a neurose do medo, no dia a dia das pessoas é uma temeridade contínua.

Resolvi então, consultar aos nossos filólogos a respeito do significado etimológico da palavra “medo”, e, percebi que todos eles seguem a mesma linha de raciocínio, ou seja, termo originário do latim, metu; sinônimo masculino. O mestre Cegalla, o mais preciso deles, diz: “medo, perturbação ou sensação de insegurança resultante da ideia ou da presença de um perigo (real ou imaginário); receio; temor; sentimento ou sensação vaga de ameaça que inibe o comportamento natural”.

O medo que persegue o homem não surgiu na Era Moderna, vem dos primórdios. No entanto, é exatamente na atualidade que vivemos assustados com tudo; apavoado com tudo; temeroso com tudo. Até mesmo romantizado pela música, a palavra vem à toma (Medo da Chuva, de Raulzito; Medo de Avião de Belchior, etc). Há perigo por todos os lados. Foi assim quando da Primeira Guerra Mundial. A situação agravou-se com a Segunda. Quem ainda está lembrado da Guerra Fria? E os fenômenos naturais (tsunami, tufão, furação, terremoto, maremoto, florestas em chamas, etc). E as doenças? (A peste Bubônica, por exemplo. A Gripe Espanhola, a Aids, etc). E as endemias, a fome, pandemias…?

Para aumentar ainda mais as modalidades do medo, a seguir, a íntegra de MEDO DO MEDO, de João Ruas e Capicua, de 2017, com os três maravilhosos músicos de Os Paralamas do Sucesso:

“Ouve o que te digo/Vou te contar um segredo/É muito lucrativo/Que o mundo tenha medo/Medo da gripe/São mais uns medicamentos/Vêm outros vírus/Reforçar os dividendos/Medo da crise e do crime/Como já vimos num filme/Me de ti e de mim/Medo dos tempos/Medo que seja tarde/Medo que seja cedo/Medo de me assustar/Se me pontar o dedo/Medo de cães de de insetos/Medo da multidão/Medo do chão e do teto/Medo da solidão/Medo de andar de carro/Medo de avião/Medo de ficar gordo e velho/Sem nenhum tostão/Medo do olho da rua/Do olho do patrão/De morrer mais cedo/Do que a prestação/Mede de não ser homem/E de não ser jovem/Medo dos que morrem/E medo do não/Eles têm medo/De que não tenhamos medo/Eles têm medo/De que não tenhamos medo/Medo de Deus/E medo da polícia/Medo de não ir para o céu/E medo da justiça/Medo do escuro e do novo/E do desconhecido/Medo do caos e do povo/E de ficar perdido/Medo do fumo e do fogo/Da água do mar/Do fundo do poço/Do louco, do ar/Medo do medo/Medo do medicamento/Medo do raio, do trovão/Medo do tormento/Medo dos meus/Medo de acidentes/Medo dos judeus/Negros, árabes, chineses/Medo do “eu não te disse?”/Medo de dizer tolice/Medo da verdade/Da cidade e do apocalipse/Medo da bancarrota/Medo do abismo/Medo de abrir a boca/E do terrorismo/Medo da doença/Das agulhas e dos hospitais/Medo de abusar, de ser chato/E de pedir demais/Eles têm medo/De que não tenhamos medo/Medo de não sermos normais/E de sermos poucos/Medo dos roubos dos outros/E de sermos loucos/Medo da rotina/Da responsabilidade/Medo de ficar pra tio/Medo da idade/De não tomar comprimido/E não ligar pra família/De não ter segurança/E porta de vigília/Compro uma arma/Pego a minha mala/Fecho o condomínio/Olho por cima do ombro/Família e cara-metade/Eu tenho medo/Nós temos medo/ Eu tenho tanto medo/O medo paga a farmácia/E aceita a vigilância/O medo paga a máfia/Pela segurança/O medo treme de medo/Por isso paga o seguro/Por isso constrói o muro/E mantém a distância/Eles têm medo/De que não tenhamos medo/ Eles têm medo/ De que não tenhamos medo…” (1).

A lista do poema acima poderia ser bem maior. Mas os seus compositores, com medo de causar medo aos leitores – por um texto vasto -, deram uma pausa. Esse tema é abordado por várias ciências, como a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, o Direito, a Psiquiatria, entre outras, cada uma no seu campo de investigação, é óbvio. A literatura, a música (exemplo da composição acima), a fotografia, a poesia, o teatro, a pintura, o cinema, as arte, de modo gera, são as maiores fontes de reflexão sobre o medo, dependendo, no entanto, de cada romance, cada poema, cada peça, de cada filme que aborda essa temática. O genial escritor alagoano Graciliano Ramos (que indiscutivelmente deveria ter sido indicado ao prêmio Nobel de Literatura), há quase 100 anos, quando lançou Vidas Secas já fez refletir nas personagens o temor de tudo e de todos. Esse mesmo romancista tem um conto, “Um Ladrão”, o qual deixa o leitor com a sensação de que está cercado por larápio, de verdade. E “A Metamorfose“, de Kafka, onde uma barate quase leva o jovem namorado ao pânico, ao vê-la na sala da casa da amada, diante dos pais dela? Só que a barata em questão era o irmão da garota em forma de inseto incômodo: “Mãe, aqui tem uma barata voadora!”, exclama a outra moça. Que aflição!

Não estou aqui, querendo banalizar o tema. Pelo contrário. Porém, conclamar sim que o leitor refleta sobre o medo nosso de cada dia, de cada instante. A banalização da morte no Brasil – esta sim -, tem grassado assustadoramente. Os crimes que nos impõem o medo estão fora de controle. Não apenas os delitos das facções, das guerras, das armas de fogo (químicas, nucleares, também). Mas os crimes contra a Administração Pública, por falsos governantes; contra a Saúde da população; contra a educação de crianças, jovens e adultos; a corrupção faz estragos (quase) irreversíveis contra tudo, contras todos. Aliás, só os corruptos acham que estão imunes. Acho que foi o Millôr Fernandes que disse: “Que estranho país este: corrupto sem corruptor”. Um país repleto de governantes (e togados também!) que traem a confiança da nação. “Eles” são tantos, que muitos vão de carona com o presidente da república que faz apologia ao crime com armas de fogo; passado por governadores capengas até chegar aos mais distantes prefeitos usurpadores, com raras exceções. São individuas sórdidos. Impiedosos e sabem que não serão pegos pela pela Lei, pois são eles os próprios autores, os legisladores delas, os criadores dos preceitos legais. E o poder Judiciário? Seu imbróglio é mais complexo. É um capítulo à parte.

Para finalizar, o Facetas convoca os seus leitores à reflexão sobre o assunto suscitado com esta citação do cantor e compositor amazonense Chico da Silva (77 anos), publicada no caderno Plateia, do AMAZONAS EM TEMPO, de 07.06.2011: “O Brasil avança na economia, mas na mentalidade não. É preciso haver uma revolução cultural e na educação. Se não, continuaremos com essa tal de democracia, que está aí para inglês ver”.

qualquer opinião contrária ao assunto abordado, o nosso seguidor poderá se manifestar, dentro dos princípios constitucionais, é claro.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fonte: CD “Sinais do sim”. Os Paralamas do Sucesso. SP: 2017.

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