Luiz Gonzaga: para todo o Brasil

Foto de Wilton Montenegro, no LP “Juntos”

Recentemente encontrei, no centro de Manaus (AM), um “maluco” vendendo uns livros de literatura e discos de vinil. Entre eles, 12 LPs de Luiz Gonzaga. Alguns raríssimos, diga-se de passagem. Eu quis saber o porquê dessa decisão. Ele informou que seu pai era um fã ardoroso do artista. Portanto, durante décadas, colecionou as obras do Rei do Baião. Mas, após a sua morte (do pai), a família, aos poucos, foi se desfazendo do acervo, como forma de “matar a saudade”.

Depois de ouvir esse relato (e adquirir) os discos, voltei a relembrar dos anos 1960. Em meados daquela década eu era criança e o meu pai ficava eufórico quando sintonizava o rádio e ouvia tocar Asa Branca. Sei que comentava alguma coisa, mas não sabia distinguir o quê. À época, alguém daquela pequena comunidade da zona rural, comprou uma vitrola e uns discos, e, no mês de junho – eu ainda não tinha a real noção dos festejos de São João – todos se divertiam noite a dentro, ao som da Sanfona de Gonzagão e outros artistas nordestinos. Tudo era muito original, familiar, ou seja, essencialmente a manifestação da cultura popular nos mais distantes rincões brasileiros.

Ainda sobre meu pai – João “Sabino” Gomes -, ele costumava dizer que o meu avô materno, José Santana, que era cearense, repetia sempre: “O velho Lua foi esperança de vida para muita gente!” Hoje, as pessoas sensatas sabem que a arte de Luiz Gonzaga é o resultado de uma paisagem brasileira. Ele foi, mais um que “repetiu o que milhares de brasileiros, nordestinos, era (e ainda são) obrigados a fazer todos os anos: abandonou sua terra em busca de um sonho de vida melhor”.

Segundo o jornalista, produtor, diretor e escritor (faleceu no RJ em 2005, aos 58) Roberto Moura, “Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989) nasceu em Exu, sertão de Pernambuco. Em 1939 veio para o Rio de Janeiro com um acordeon pendurado no pescoço. Lançou, em 1944, a pedra fundamental de sua carreira: a composição baião, parceria com Humberto Teixeira, que lhe valeu um título em vigor – Rei do Baião – e que urbanizava definitivamente um ritmo e uma dança tipicamente rurais. Nessa criativa urbanização, Luiz Rei do Baião alterou com categoria a estrutura harmônica original com que os nordestinos dançavam o novo ritmo, apoiada na viola, no pandeiro e na rebeca, e substituiu-a pelo consagradíssimo tripé acordeon – zabumba – triângulo. Estamos em 1976 e lá se vão 64 anos de vida e quase quarenta de carreira e o que surpreende nesse Lua de obra tão lírica quanto o apelido é a coerência e o sentido de permanência de sua obra, mesmo num tempo que não tem sido muito benfazejo para com a verdadeira música rural brasileira. O que surpreende é a eternidade de algumas de suas músicas, o raro sentido de observação com que foram compostas e lançadas nas acadêmicas parcerias com Humberto Teixeira ou Zé Dantas. O que surpreende, ainda, é a insuspeitada vitalidade dessa música (não esquecer que metade de sua contribuição repousa no ritmo vigoroso e preciso do seu 120 baixos, não apenas um instrumento de harmonia) e compositor para, em 1976, realizar um disco como esse, em que se permite até o descobrimento de novos autores do interior, a pesquisa sem qualquer aspa do fundo da alma musical do país. Tudo isso, dizendo melhor, surpreenderia se Luiz Gonzaga algum dia tivesse deixado seduzir pelo sucesso, pelo brilho dos luminosos da cidade grande. Isso não aconteceu nunca, felizmente. Uma prova: nas brigas políticas de sua cidade, mesmo hoje, é ele quem aparece como mediador, como elemento de ligação e conciliação. A coerência do Lua é produto dessa fidelidade às suas coisas. É por isso que, vira e mexe, lá está ele correndo dezessete ou setecentas léguas atrás do voo da asa branca, das vozes da seca. É por isso que, em qualquer lugar, ele pode se sentir um cidadão de Caruaru, num trem para Mangaratiba de introdução inesquecível ou para Juazeiro. Ali, no seu pé de serra, no calango da lacraia, ele respeita Januário e mata a saudade de Pernambuco mascando um antigo cigarro de palha que faz parte do ABC do sertão como o assum preto e acauã, como a mula preta e o jumento nosso irmão, como a sanfona do povo, as noites brasileiras e a morte do vaqueiro. A coerência do Lua são as infindáveis viagens de carro cortando o Brasil até quase o seu limite, até onde estão as duas raízes e onde foi enterrado o seu umbigo (1).

A importância do seu legado para a nossa música é algo imensurável. Seu ritmo continua atravessando as décadas. Foi assim no século XX, está sendo assim no século XXI. O som de sua sanfona conquistou (e conquista) gerações há quase um século. Foi assim com o meu pai. Foi assim com o pai do vendedor dos vinis está sendo assim comigo e assim será com as minhas duas filhas. O imortal Lua, cantando e encantando pessoas de todas as idades, em todos os lugares, em todas os festejos. Por exemplo, o LP “Juntos” Gonzagão & Gonzaguinha, é uma obra de arte de pai e filho, principalmente em A Vida do Viajante. Não são apenas 12 músicas inesquecíveis. São 12 fragmentos de realidades, de sentimentos. São 12 poemas, 12 melodias que se multiplicam: A Tristeza Partida, Pobreza por Pobreza, Festa, etc, que deixam o coração da gente assim: tum, tum, tum, bem acelerado pela emoção que o faz pulsar mais forte.

Nesse mesmo trabalho, o poeta e escritor Francisco Rodrigues, faz o seguinte comentário (trechos): “Pai e filho, eles são dois dos mais importantes nomes da nossa música popular. LUIZ GONZAGA, (…) levou a todos os pontos do País a música autêntica, rude, alegria e positiva do sertanejo do Nordeste brasileiro, um estilo contagiante que até hoje, mais de 50 (comentário de 1991) anos do seu aparecimento, continua vivo no sentimento de todos aqueles que amam e respeitam a alma de sua terra. LUIZ GONZAGA JR., o Gonzaguinha, surgiu bem depois, no final dos anos 60, (…) através da extinta TV Tupi. (…) por suas canções – de protesto ou românticas – de alto teor explosivo. (…) Como autor ou interprete, com diversos sucessos nas vozes de outros artistas como Maria Bethânia, Simone, Gal Costa, Alcione, Emílio Santiago e outros. (…) Ele foi porta-voz dos nossos sofrimentos e anseios num período em que era imperioso o silêncio total. Mas ele não se calou e, metaforicamente ou não, gritava contra as injustiças, deixando tranquila (e ativa) sua consciência, uma das raras expostas em melodia e versos neste País” (2). Segura aí, leitor!

O trabalho de denúncia das injustiças através da música começara mesmo com o Velho Gonzagão que, nos anos 40 e 50 (…), uma série de canções sobre a seca nordestina e o ingrato destino de seus filhos, jogados à própria sorte. Essa veia de sede de justiça e de alerta sobre as maldades cometidas contra as populações mais carentes, Gonzaguinha certamente herdou do pai. Mas a carreira de compositor (…) revelou um autor de estilo absolutamente pessoal, original a partir mesmo dos assuntos abordados em suas canções”. (2)

Esperamos que os nossos seguidores gostem desta homenagem aos Gonzagas.

Notinha de pesar – Há exatos 41 anos, ou seja, no dia 08.12.1980, quando John Lennon, acompanhado por Yoko Ono, entrava no Edifico Dakota, em NY, ouviu alguém chamá-lo: “Hey, Ms. John!?”. John voltou-se para trás e foi alvejado e morto, por vários tiros, disparados por Mark David Chapman, o qual foi condenado à prisão perpétua. Dois meses antes, 8 de outubro, dessa fatídica noite, Lennon havia completado 40 anos de idade. Se fisicamente estivesse vivo, estaria com 81 anos. Imagine, quanto de lá para cá teria ele produzido novas e belas canções para o mundo ouvi-las.

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte

  1. LP “Capim Novo”, de Luiz Gonzaga, RCA/Canden, p. 1976.
  2. LP “Juntos”, de Gonzagão e Gonzaguinha, RCA/BMG, 1991.

2 comentários em “Luiz Gonzaga: para todo o Brasil

  1. O “eterno rei do baião”, Luiz Gonzaga ou simplesmente Lua, para os íntimos, tive a oportunidade de ler um comentário de paulista, que dizia de apesar de ser paulista, se considerava nordeste, pois sentia isso no sangue que corria em suas veias e que suplicava para não darem deslike na musica A triste partida, pois a considerava uma verdadeira oração nirdestina. Parabens amigo por nos trazer essa primazia chamada de exposição bibliográfica do nosso eterno rei do baião.

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