Lya Luft: “Honrar pai e mãe”

Lya Luft – Foto de O Globo

Madrugada do dia 30 de dezembro de 2021, poucas horas antes da Virada do Ano, Lya Luft (1938-2021), morreu em casa, enquanto dormia, aos 83 anos, em Porto Alegre (RS), vítima de câncer. Descendentes de pais alemães, desde criança foi incentivada por eles à leitura. Em 1963, concluiu o curso de Letras Anglo-germânicas, na PUCRS. A Literatura foi sempre a sua grande paixão. Além de escritora, tradutora e professora da UFRGS, foi colunista da Veja por muitos anos. Escreveu mais de 20 livros imperdíveis.

O meu irmão Evans Gomes, grande apreciador da boa leitura, disse-me, na semana passada, que leu todos os artigos que tomou conhecimento, da escritora gaúcha publicados nessa revista. Um deles, “Honrar pai e mãe”, do qual, não só emprestamos o título para este artigo, como extraímos trechos. O tema aborda pela escritora deve ser sempre debatido para para se obter melhor resultado social. Ela dar início ao referente mandamento, questionando o seguinte: “Como educar, como cuidar neste mundo maravilhoso e tresloucado, com tanta sedução e tanta informação – um mundo no qual -, sobretudo na juventude, nem sempre há o necessário discernimento para escolher bem?”

Trata-se de um tema “de grande sabedoria”, haja vista as relações familiares serem “intrinsecamente complicadas”. Mesmo assim, o melhor legado dado aos filhos, vêm da família e da escola. “Na família, fica abaixo só do afeto e da segurança emocional. Na escola, importa mais do que o acúmulo de informações e o espaço das brincadeiras, num sistema que aprendeu erroneamente que se deve ensinar como se o aluno não tivesse de aprender” (1).

Completando o seu raciocínio lógico, garante: “Fora disso (…_) não há salvação. Isso e professores supervalorizados e bem pagos, escola para todos – não mais milhões de crianças e jovens em casas cujo pátio é barro misturado a esgoto, ou na rua, com o crack e prostituição. Um ensino que dê muito e exija bastante: ou caímos na farra e no desprepara para a vida, que inclui graves decisões pessoais e um mercado de trabalho cruel”.

Diz ainda, que bem antes da escola, o ambiente em casa, marca o indivíduo pelo resto de sua jornada. Se esse lugar “for positivo, amoroso, a criança acreditará que amor e harmonia são possíveis, que ele pode ter e construir isso, e fará nesse sentido suas futuras escolhas pessoais”. Mas, “se o clima for de ressentimento, frieza, mágoas ocultos e desejos negativos, o chão por onde o indivíduo vai caminhar será esburacado. Mais irá tropeçar, mais irá quebrar a cara e escolher para si mesmo o pior”.

A autora volta ao tema principal: família. Os os problemas “não têm a ver só com o natural conflito de gerações, mas também com a atitude geral dos pais“, os quais, além “de lealdade, carinho e alegria” destinados à prole, devem assumir responsabilidades. “Foi-se o patriarcado, que havia regras rígidas (sobre os filhos) que ousavam discordar”. Hoje, vive-se “a mais alegre bagunça, com mais demonstração (aparente) de afeto, mais liberdade, mais respeito pelas individualidades – muitas vezes com resultados dramáticos”. Precisa-se, portanto, de pais que dediquem mais “horas de afetos (verdadeiros) com os filhos”.

Os atuais padrões sociais nos permitem saber que crianças “frequentam festinhas” e adolescentes “rodam de madrugada” dirigindo bêbados ou drogados. “Onde estão pai e mãe?”. A autora vai além: aponta outros infortúnios que semeiam “infelicidade, culpa, desorientação pela vida afora. Onde estão os pais? Ter filho é talvez a maior fonte de alegria, mas também é ser responsável, ah sim!” E, dizia ser rigorosa nesse sentido.

Por fim, as suas inequívocas observações se tornam mais severas. Assim: “Esse é o dilema fundamental numa sociedade que prega a liberdade, o “divirta-se”, o “cada um na sua”, como num pré-apocalipse . Mais grave ainda num momento em que a honradez de figuras públicas (que deveriam ser nossos guias e modelos) é quase uma extravagância. Pais bonzinhos são tão danosos quanto pais indiferentes: o amor não se compra com presentes, nem permitindo tudo, nem fingindo não saber ou não querendo saber, muito menos desviando o olhar quando ele devia estar vigilante. Quem ama cuida: velho princípio inegável, incontornável e imortal, tantas vezes violados” (1).

Passados 13 anos dessa publicação que trata das duas vigas-mestras de toda e qualquer sociedade ajustada (ou queira ajustar-se) – em todos os aspectos -, família e escola são as entidades que garantem a boa formação do indivíduo, ou melhor, do cidadão brasileiro, as quais estão se desmoronando. No geral, o nosso processo educativo é uma lástima. Estou na sala de aula com o nível médio desde o último quartel de 1980, e os índices atuais são sofríveis – são tantos os fatores. Porém, o principal deles é o desajuste familiar. No início dos 90, numa sala com 40 anos alunos do ensino público, 80% deles tinham interesses pelos estudos, no global. Atualmente, esse índice não passa de 20%. Acredito ser uma constatação nacional, com raras exceções, não apenas, uma visão isolada da mina parte.

Tem mais: as “figuras públicas” de hoje, da qual faz referência a autora, são terrivelmente piores do que as ontem (década passada). Vivemos o momento da dúvida generalizada. Prega-se o ódio, o negacionismo; duvida-se da eficácia da Ciência e da pesquisa. os “nosso líderes” fogem da ética, da moralidade, da probidade. Falta-lhes personalidade (de persona). Garante que agem dentro da legalidade. No entanto, são os primeiros a descumprirem a legislação que criam. A Constituição Federal, nos artigos 205 a 213, apresenta uma dezena de direitos ao ensino publico por parte dos brasileiros: “A Educação é um direito de todos, dever do Estado, das famílias, da sociedade e livre iniciativa privada (art. 205)”.

Há 100 anos, o escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934), sobre o binômio Família & Escola, disse: “É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais”. No mesmo sentido, o educador e antropólogo mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997), arrematou: “Sempre há o que aprender servindo, vivendo e, sobretudo trabalhando. Mas só aprende quem se dispõe a rever suas certezas”.

Meus caros amigos, vamos rever as nossas certezas sobre que benéficos queremos para a sociedade. Mais ainda em relação aos temas aqui suscitados. Viva Luft pela brilhante abordagem temática.

Notinha útil. Ontem, 7 de janeiro é considerado o Dia do Leitor. Isso ocorre desde 1984 (calendário não oficial). A todos os leitores, brasileiros ou não, independentemente de idade, a nossa homenagem com estas duas citações: “Os poemas são pássaros que chegam não sabe de onde e pousam no livro que lês”. Mário Quintana, poeta brasileiro-(1906-1994) e “Eu vivi mil vidas e amei mil amores. Andei por mundos distantes e vi o fim dos tempos. Porque eu li“. George R. R. Martin, escritor norte-americano 1948).

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Luft, Lya. “Honrar pai e mãe”, revista Veja, 11.06.2008, p. 18; 2. Revista “Sala de Aula”, Fundação Victor Civita, ano 2, nº 9, p. 23.

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