Na obra “101 canções que tocaram o Brasil“, o autor Nelson Motta, ao falar sobre a música Samba da Bênção (Vinicius de Moraes/Baden Powell), de 1963, argumenta: “Tão importante quanto a melodia simples sobre dois acordes e um ritmo irresistível é a parte falada, em que, sobre a base rítmica do violão de Baden, Vinicius homenageava amigos e mestres do passado e do presente pedindo-lhes a bênção”. Entre os vários nomes falados pelo Poetinha, um é este: “A bênção meu Cyro Monteiro/Você, sobrinho de Nonô“ (Romualdo Peixoto, grande pianista do samba).
Sem dúvida, o carioca Cyro Monteiro (1913-1973), foi um bamba do samba, um mestre, uma figura de destaque do gênero. A sua discografia fala por si. Por exemplo, o notável compositor paulista Reinaldo Dias Leme (1926-1974), que deixou um legado musical duradouro, na contracapa do disco “Meu samba, minha vida“, de 1969 – relançado em 1991 – do seu amigo Cyro, registra este memorável texto. Vamos à sua íntegra:
“Certa vez, um poeta foi visitar um cemitério, e ficou muito impressionado com os epitáfios. Sobre as pedras de granito, existiam frases assim: “Aqui jaz Fulano de tal, que viveu uma hora e vinte minutos”. Sobre outro granito, mais um dizer: “Aqui jaz Fulano de tal que viveu duas horas”. O poeta ficou um tanto preocupado e na saída do cemitério, perguntou ao porteiro: – afinal de contas, qual é o significado dos epitáfios que existem neste cemitério? – O porteiro respondeu que aquele era um cemitério diferente, que o número de horas impresso nos túmulos, era relativo ao tempo de vida que a pessoa desaparecida tinha praticado, de bem ao seu semelhante. Assim sendo, o homem que tinha morrido aos 70 anos, tinha sobre o seu granito apenas uma hora e vinte de amor ao próximo, o outro apenas duas horas, e assim por diante.

Agora vamos passar ao elogio da vida, ou seja, à justiça merecida. Com anos seriam 876.000 horas. Eis neste disco um vivo beneficente; um sobrevivente que já tem esse momento de vida debitado ao bem. Se a existência dependesse dele, todos nós seríamos ricos e imortais, seríamos pródigos e bons. E ele canta e empresta a sua amizade desconhecendo a tática dos juros. E ele alegra o povo e penetra no povo como a chuva penetra na terra castigada. Esquecendo os epitáfios e os granitos, vamos entrar no mundo real, otimista, amigo e rítmico através da estrada sólida e brasileira que é a voz de Cyro Monteiro” (1).
O LP em questão, tem 12 faixas, ou seja, 12 músicas das mais belas desse artista., cujo trabalho recomendamos que seja ouvido por nossos leitores. Só assim a gente fica, nitidamente, sabendo como era a batida do samba nos anos 50, 60, 70. Musicalmente falando, é claro. Esse disco foi produzido em duas etapas. A primeira, pelo maestro Astor Silva, que faleceu durante os trabalhos; a segundo, pelo Conjunto de Canhotinho (Francisco Soares de Araújo (1926-2008), ou seja, o “Canhoto da Paraíba, que ainda jovem migrou para ser músico no eixo Rio-São Paulo”.
Assim explica o produtor musical Ismael Correa, a respeito desse importante trabalho fonográfico de Cyro: “O Conjunto de Canhoto, Orlando Silveira e uma seção rítmica de respeito, cujos integrantes são citados verbal e nominalmente por Cyro Monteiro na gravação das faixas Deus lhe Perdoe (Humberto Teixeira/Lauro Maia), Rosa Mandou (Avarese), Jambete (Lu Monteiro/Sérgio Bittencourt) e Moreninha Boa (Fardel/Estevão Camargo)” (1). Isso demonstra a alta qualidade técnica e profissional dispensadas para a realização do LP.
Eis aqui alguns retrospectos do grande cantor que foi Cyro Monteiro para o samba, para seus fãs e admiradores; no passado/presente. Mas, a sua arte continua vivíssima entre os seus ouvintes ( e nossos também). Portanto, recomendamos este disco – que mereceu o texto-reflexão, de Dias Leme – aos nossos leitores, cuja capa estampamos na foto deste artigo, formatada por Angeline.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. LP “Meu samba, minha vida“, de Cyro Monteiro. – SP: Beverly, 1991.