Sobre as memórias afetivas: lições de Adélia Prado

Essa semana, fui surpreendida com um texto compartilhado no Whatsapp. O texto era da grandiosa escritora mineira, Adélia Prado. Confesso que sabia muito pouco sobre a autora, mas, depois de ler ao texto, fiquei curiosa para conhecê-la mais.

Eu descobri que Adélia Prado nasceu em Divinópolis, em Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935. Era filha de João do Prado Filho, ferroviário, e de Ana Clotilde Correa. Após a morte de sua mãe, em 1950, Adélia começou a escrever seus primeiros versos. (1)

Em 1951 ela ingressou na Escola Normal Mário Casassanta, e formou-se Professora em 1953, e começou a lecionar em 1955 lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Melo Viana Sobrinho. Em 1973, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis e formou-se em Filosofia. (1)

Após 24 anos de licenciatura, Adélia abandona o Magistério e passa a se dedicar a carreira de escritora, em 1979. Contudo, seus primeiros escritos foram publicados em 1971 em jornais de Divinópolis e de Belo Horizonte. (1)

Em 1975, Adélia enviou poemas para o crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que entregou a Carlos Drummond de Andrade. Drummond ficou impressionado com suas poesias e enviar para a Editora Imago. Nesse mesmo ano, os poemas foram publicados no livro “Bagagem”. Três anos depois, em 1978, publica “O Coração Disparado”, com o qual conquista o Prêmio Jabuti de Literatura, conferido pela Câmara Brasileira do Livro. (1)

As obras de Adélia Prado apresentam “(…) vocabulário simples e linguagem coloquial, Adélia produz poemas leves e marcantes”. (1)

Bom, depois de apresentar essa breve biografia, irei compartilhar o texto “O que a memória ama, fica eterno”.

Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí: quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, àquela época…

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos… mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Prá eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite… ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve, daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

Impossível não sentir alguma emoção com esse texto, hein. Quando eu li, lembrei da Psicanálise (minha área de atuação). Das profundezas das nossas emoções, da atemporalidade de experiências e memorias. Das angústias que insistem em nos persistir, na verdade nunca vai acabar e não tem cura para isso. Mas, podemos nos nutrir dessas memórias afetivas, sejam elas positivas e negativas, e continuar aprendendo com elas. Nós, sujeitos, somos feitos de memórias. A brilhante capacidade cognitiva que vai além da racionalidade, porque não existe memória sem emoção, sem afeto.

Cuide das suas memórias, elas são preciosas. Mas, tome cuidado para não viver só do passado, isso pode ser extremamente angustiante. Lembre-se: o passado não podemos mudar, mas o futuro sim.

Notinha útil: Nós, do Facetas, nos solidarizamos com as famílias do Estado do Amazonas que estão lutando contra o COVID-19; e contra as violências morais, sociais, éticas e emocionais com a falta de equipamento para sobreviver. Ainda, queremos deixar registrado, a nossa admiração e gratidão pela equipe da linha de frente que estão na batalha para cuidar da nossa população. Diante de tanta dor, queremos dizer para não perdermos a esperança. Vamos aprender com as sábias palavras de Cora Coralina: “Desistir… eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça”.

Texto: Winnie Barros e Francisco Gomes

Fonte

  1. Site E-Biografia

Um comentário em “Sobre as memórias afetivas: lições de Adélia Prado

  1. Parabéns por esse maravilhoso texto. “Memórias afetivas” nos leva a um passado recente, que foi resgatado graças a essa memória afetiva, tao bem construida, é certo que passamos uns 30 anos distantes um do outro, mas que a afetividade construída resgatou nossa amizade. Ainda lembro quando comíamos no quintal da casa de seu pai, piaus assados, pescados pelo
    seu João Sabino e gentilmente separados por dona Angelina.
    Só mesmo uma memória afetiva, para nos proporcionar e trazer à nossa lembrança momentos marcantes de nossas vidas. Parabéns a vc e a Dra. Winnie por trazer nos trazer essa lembrança, graças a nosssa afetividade.

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