Paulo Gracindo diz – em frases, versos e estrofes

O ator carioca Paulo Gracindo (1911-1995, foi, sem dúvida, um dos maiores do teatro e da televisão brasileiros de todos os tempos. Por exemplo, o disco “Paulo Gracindo DIZ”, no qual ele recita 12 músicas-poemas de autores consagrados, é uma obra-prima da discografia nacional, ou melhor, ainda, uma obra de arte do cancioneiro brasileiro. É uma gravação primorosa. O recital.

Na contracapa do LP, o jornalista, pesquisador, musicólogo, etc, Ricardo Cravo Albin (82 anos), faz o seguinte comentário. Vamos então, à sua íntegra: “Como sempre espantosa é o fenômeno que representa a força criadora da palavra, quando falada por Paulo Gracindo . E este disco de Paulo Gracindo pode abrir um caminho inédito para a música popular brasileira: o sentido da percepção e da recuperação global da LETRA da canção popular.

Eu penso isso porque a verdade mesmo é que quando uma canção qualquer ganha a boca do povo ela acaba por incorporar-se aos mecanismos de automatização do inconsciente de cada um de nós; e de tal ordem e com tal força, que música e letra se tornam um bloco só, monolítico e coeso. E nisso, nessa integração “música + letra”, ou nessa indissociabilidade de ambas, a LETRA da música acaba perdendo aos poucos sua força e, em alguns casos, até anula-se por completo. Quantos vezes a gente mesmo se surpreende cantarolando ou ouvindo uma canção conhecida sem sequer no que ela transmite ou no que quer dizer?

E este disco prova exatamente isso; ele representa não apenas a valorização da estrutura literária contida na canção popular, senão também uma quase descoberta de alguns de seus valores poéticos até então não percebidos pela grande maioria dos ouvintes.

E ninguém melhor para recupera todos esses valores tantas vezes perdidos que existem dentro de letras conhecidas da canção popular que esse mago da arte de dizer que é Paulo Gracindo.

Paulo Gracindo, a par de ser um dos melhores e mais rigorosamente completos atores do Brasil, é dono de voz privilegiada e famosíssima; não é a toa que desde as inesquecíveis novelas (ou dos auditórios) da Rádio Nacional nos anos 50, a voz de Paulo Gracindo já se incorporou ao patrimônio cultural deste país.

Neste disco, contudo, Paulo atinge a um momento definitivo na arte de sacralizar a palavra que emite; o artista celebra a palavra, dizendo-a com tal emoção, que cada uma por si só já tem quase sua força própria. E todas elas juntas em frases, em versos, em estrofes, quando ditas por Paulo, atingem a níveis inesperados em beleza e em liberação de cargas emocionais diversas.

Paulo Gracindo diz aqui as letras de doze peças importantes da música popular brasileira. Só que não diz apenas; ele, na verdade, quase que canta esses doze poemas, porque as músicas também estão no disco e são lindamente executadas através dos arranjos do excelente maestro Gaya (arranjos impecáveis, já se vê, em bom gosto, sobriedade e qualidade musical). E é sobre esses arranjos de Gaya que Paulo diz ou quase canta as letras, dividindo-as tal qual um cantor faria, isto é, acompanhando com precisão profissional o andamento e as divisões que o desenvolvimento melódico da música requer; tão bem ele acompanha a estrutura da música dentro do arranjo de Gaya que a qualquer momento a gente pensa que Paulo cante mesmo (aliás, nos versos de “Maria” de Luiz Peixoto, ele não resiste e explode em música, cantarolando, uns dois acordes da partitura de Ary Barroso).

Quanto a seleção das músicas, ou melhor, das LETRAS, é de muito boa qualidade: tem três de Vinicius, dois Chico, um Paulo Cesar Pinheiro, dois Luiz Peixoto, um Orestes Barbosa, um Antônio Maria, um Otávio de Moraes, um Sílvio Cesar e um Paulo Sérgio Valle. Nas doze letras há um ponto em comum: todas elas tratam das dores poliformes do amor e da tristeza vária decorrente delas. E com que elasticidade de interpretação, com que opulência de recursos técnicos, com que sentimento de contemporaneidade despojada de preciosismos rococós, esse “grão-sacerdote” da arte do dizer degusta e sorve com volúpia cada uma das palavras que proclama o amor.

Eu acredito muito neste disco de Paulo Gracindo: e porque acredito reclamo desde logo outros, nos quais se incluem não só por certo todos os letristas que aqui já estão, mas ainda poetas da canção popular do nível de Noel Rosa, Jorge Faraj, Caymmi, Zé Dantas, Dolores, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Paulinho da Viola, Caetano, para citar pouco mais de meia dúzia dos pelo menos 50 grandes poetas que iluminaram e iluminam a palavra que o povo canta neste país” (1).

Eis aqui as eternas palavras escritas pelo mestre Cravo Albin, que já perduram há 50 anos, sobre o memorável recital do grande Paulo Gracindo, sobre as LETRAS de Chão de Estrelas, Pra Você, Valsinha, Preciso Aprender a Ser Só, entre outras, que proclamam o verdadeiro amor. Ouça esse disco e se emocione. Esta receita musical serve para todos nós, para todas as idades.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. LP “Paulo Gracindo DIZ”, SP: Odeon, 1975.

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