Machado de Assis: “A minha meiga Carolina”

O escritor e professor de língua portuguesa da UFPR, Carlos Alberto Faraco (75 anos), publicou interessante estudo suplementar sobre a vida e a obra de Machado de Assis (1839-1908), com o título: “Um mundo que se mostra por dentro e se esconde por fora”. O mestre conhece bem o que escreveu Machado. Ele comenta alguns trechos como se fosse uma entrevista com a linguagem da época, é claro. Ficou, portanto, muito legal. Aqui, alguns fragmentos:

Carlos Faraco; “Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 1899. Passagem do ano. Virada do século. Reforçam-se as crenças das mudanças e também cristaliza-se o medo do desconhecido. Apocalipse ou paraíso?”

Machado de Assis: “Quanto ao século os médicos que estavam presente ao parto reconhecem que este é difícil, crendo uns que o que agora aparece é a cabeça do XX, outros que são os pés do XIX. Eu sou pela cabeça como sabe”.

CF completa: “Quem escreveu isso foi um mulato que, naquela passagem de século, tinha 61 anos incompletos […]. Nessa altura da vida, uma das figuras mais ilustres da literatura brasileira daquele e de todos os tempos: Joaquim Maria Machado de Assis. Não era rico, mas vivia confortavelmente. Trabalhava bastante, era respeitado e famoso. E, sobretudo, muito amado por sua Carolina, com quem se casara 30 anos antes”.

Naquela época, um tema que não do pensamento da intelectualidade brasileira, era a República. “Numa sociedade marcada por divisões sociais muito rígidas, o indivíduo nasceu com seu destino mais ou menos determinado pela origem, pela raça, pela possibilidade ou não frequentar escolas“, conclui Faraco.

CF: “No dia 6 de janeiro de 1855, Marmota Fluminense, jornal de notícias, variedades, curiosidades e literatura publicou o poema “A Palmeira”. Na segunda estrofe, o poeta afirma”:

MA: “Tenho a fronte amortecida/Do pesar acabrunhada!/Sigo os rigores da sorte,/Nesta vida amargurada!”. “A vida fluminense compõe-se agora de óperas, corridas, patinação e pleito eleitoral, é um perpétuo bailado dos espíritos”.

CF: “Sobre essas coisas – e muito mais – escrevia Machado de Assis, surpreendendo por um estilo sutilmente irônico, que logo ia tornar-se marca registrada de sua obra”.

MA: “Estou convencido de que esse amigo não foi às corridas (de touro, muito comum no Rio). […] Eu sou obrigado a confessar que também lá não ponho os pés, em primeiro lugar perque os tenha moídos, em segundo lugar perque não gosto de ver correr cavalos nem touros. Eu gosto de ver correr o tempo e as coisas; só isso. Às vezes corro também atrás da sorte grande […]”.

CF: “Em Machado de Assis, o fato em si tem importância menor. O que interessa é a reflexão que esse fato provoca”.

MA: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”.

CF: “Durante 40 anos Machado escreveu suas crônicas. Utilizando-se de histórias do dia a dia, o escritor ia refletindo sobre a História que se desenhava à sua volta. Fala assim o homem Machado de Assis”, por exemplo:

MA: “Na minha história passada do coração resume-se em dous (dois) capítulos: Um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro, nada tenho a dizer; do outro, não me queixo, fui eu o primeiro a rompê-lo”.

CF: “O amor de verdade, de carne e osso, viria na figura de Carolina Novais (1835-1904), de nacionalidade portuguesa e mais velha que o escritor. Em carta, ele declarou-lhe:

MA: “Tudo não te pareces com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prenda raras […]. Como te não amaria eu?”

CF:Viram-se. Amaram-se. Casaram-se em 12 de novembro de 1869. Porém, Carolina Augusta Xavier de Novais Machado de Assis morreu em 1904 – feliz ano velho – quando então, a vida do marido desmoronou, como o próprio registrou…”

MA: “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo […]. Aqui me fico, por ora, na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento não gastarei tempo em recordá-la, irei vê-la, ela me esperará”.

CF: “Para o escritor, o “eterno aposento” se abriria quatro anos mais tarde, em 29 de setembro de 1908. O desapego à vida dá agora o tom das cartas do cronista aos amigos – as únicas coisas que o mantinham vivo eram o carinho e a atenção deles”.

MA: “Após 35 anos de casados é um preparo para a morte” (escreveu Machado em 28.10.1904, que viveria mais 4 anos). Faço o que posso, mas para mim o trabalho é distração necessária (05.01.1907)”.

CF: “Seu derradeiro romance – Memorial de Aires -, começado em 1907, seria publicado em 1908. Apesar da serenidade que o escritor aparentava, o prazer de viver tenha mesmo se esvaído com a ausência de Carolina. Vista fraca, infecção intestinal, uma úlcera na língua, em primeiro de agosto vai à ABL pela última vez. Lúcido, se recusando a presença de um padre – manteve a coerência de quem nunca tinha sido religioso -, Machado de Assis, morre às 13 horas e 20 minutos da madrugada do dia 29 de setembro de 1908″.

CF: “Decreta-se luto oficial na cidade do Rio de Janeiro. Seu enterro, com enorme acompanhamento de figuras conhecidas e do povo, atesta a fama que Assis havia alcançado. Foi sepultado ao lado de Carolina, a quem prometera, no conhecido soneto (“A Carolina”, escrito à amada após 1904, que é um dos mais belos da poesia brasileira): ‘Querida, ao pé do leito derradeiro/Em que descansas dessa longa vida,/Aqui venho e virei, pobre querida,/Trazer-te o coração de companheiro'” (1).

Esse “encontro de palavras” travado entre o professor Carlos Faraco e o escritor Machado de Assis, é tão interessante, que as citações aqui selecionas falam por si junto aos nossos leitores. Cada um/a faz a sua análise.

Notinha útil – Há exatos 147 anos, nascia no dia 14 março de 1879, na Alemanha, Albert Einstein, e faleceu nos EUA, aos 76 anos, no dia 18 de abril de 1955. Considerado um dos maiores físicos de todos os tempos. É dele, por exemplo, a Teoria da Relatividade Geral. Viva a Ciência!.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: Assis, Machado de. Dom Casmurro. – 36 ed. – SP: Ática, 1998.

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