21º Tour Cultural do Facetas

Olá, leitores! O nosso giro de hoje aborda o 1º centenário do rádio, ocorrido no dia 7 de setembro, concomitantemente com o bicentenário da Independência do Brasil. Apesar de anunciado pela grande mídia, foi um assunto secundário. Também citamos os nomes dos reis e rainhas da Era do Rádio nos anos 40 e 50, e, a importância desse veículo de comunicação de massas até os dias atuais, resistindo a grande revolução tecnológica inevitável, irreversível e incontestável.

1 – UM SÉCULO DO RÁDIO NO BRASIL. “A inauguração dos festejos da Independência mercou também o nascimento do rádio no Brasil. A 7 de setembro de 1922, enquanto realizava um grande desfile no Campo de São Cristóvão, o discurso do presidente Epitácio Pessoa, inaugurando o “certamen”, foi transmitido pelo serviço de “rádio-telephone com alto-falantes”. À noite, também, transmissão da Exposição, diretamente do Teatro Municipal, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes. Coroavam-se, assim, de êxito os esforços de Roquette Pinto, um dos responsáveis pela introdução do rádio” (1).

Modele de Rádio Philips da década de 30

Edgar Roquette Pinto (1884-1954), foi um médico, antropólogo, educador e escritor carioca. Professor universitário e membro da ABL. Ele “fundou a primeira estação de rádio brasileira”, em 1923, isto é, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Transformada, três anos depois, na Rádio Ministério da Educação. “Em 1934, fundou a Rádio Escola do RJ, depois passou a ser a Rádio Roquete Pinto” (2). O seu nome representou, ainda, grande relevância quando do nascimento do cinema e da televisão brasileiros.

2 – A ERA DO RÁDIO. Em 1932, o rádio já era fato consumado no país. “Emissoras propõem-se a transmitir para o mundo a sua programação, quando cantores ganham celebridade, e o rádio atinge todos os lares (uma espécie de tempestade de sons)” (3). Era “o milagre das antenas e do microfone, amplíssimo raio de ação: o objetivo da integração nacional é dos primeiros a serem levados pelo rádio. Mas, desde 1932, com a publicidade comercial, o ideal de educar o distante sertanejo com música clássica vai sendo substituído pela meta mais modesta e realista divertir as massas urbanas” (3).

Os mais notáveis locutores da época

Ouvia-se todos os dias: “senhores ouvintes, bom dia! o rádio traz a paz, a educação, a alergia!” O que não faltava era programas radiofônicos para todos os gostos e todas as horas. Os programas do rádio, que arrebatavam o público das ruas para o “aconchego do lar” eram dirigidos por “programadores” (diretores artísticos), que escolhiam e organizavam as apresentações e seus horários. Um dos pioneiros foi Renato Murce, que trabalhou para as mais importantes rádios do Rio.

Não há dúvida: “eram tempos pioneiros. Com o rádio comercial, já que não havia ainda uma estrutura publicitária, os primeiros profissionais de verdade são os denominados programistas. Eles adquiriam espaço nas estações, produziam um programa e, a partir daí, revendiam os espaços para os anunciantes. Faziam de tudo: contato e redação publicitária, produção e apresentação. À medida que o nível de improvisação diminuía, foram se articulando em equipes. Em 1934, a Rádio Record de SP introduz o cast profissional exclusivo, oferecendo salários em dobro, quando inicia-se a corrida. As grandes emissoras contratam a peso de ouro astros populares e orquestras filarmônicas. E mesmo as pequenas mantêm pessoal fixo”. (3)

3 – A RÁDIO NACIONAL: OS FÃS CONSAGRAM ASTROS e ESTRELAS. Nos anos 40, o rádio era mais que um fenômeno de comunicação, era um novo firmamento sobre os lares brasileiros: o jornalismo radiofônico e a radionovela passaram a existir, os locutores, as grandes vozes do rádio, deixam de limitar-se apenas a fazer comerciais, anunciar a emissora, apresentar programas e ler crônicas literárias. Agora há o produtor, o diretor, o cantor, o locutor, o patrocinador, etc, ou seja, cada um tinha a sua função específica, e, principalmente o ouvinte, de Norte a Sul do país.

A cantora Rose Lee, na Rádio Nacional (Carioca, 31.12.1938)

Segundo o musicólogo J. L. Ferrete: “Tenho a Rádio Nacional do Rio de Janeiro na conta do mais extraordinário fenômeno de comunicação de massas já visto no Brasil. E, com toda segurança, posso garantir que as coisas semelhantes existentes atualmente (1977) por aí – tidas, pelos desinformados, como produto da mente de direções intelectualmente privilegiadas, excepcionais – não passam de simples arremedo daquilo que, faz mais de 30 anos, a famosa PRE-8 impôs como modelo definitivo em nosso país” (4).

Isto é, o rádio revelou cantores e cantoras que se tornaram ídolos dos ouvintes, como ainda abriu as portas para a chegada da TV, nos anos 50. A citar Rádio Nacional – já, àquela época -, tinha uma audiência de 90% da preferência. Por seus estúdios passaram célebres nomes, fossem da política, da literatura e, principalmente, da música, como “O Rei da Voz” (Francisco Alves), “O Rei do Rádio” (Nelson Gonçalves), “A Dama da Central” (Araci de Almeida), “O Grã-Fino” (Mário Reis), “A Voz Deliciosa” (Dalva de Oliveira), “A Pequena Notável” (Carmen Miranda), “Bonequinha de Feltro” (Silvinha Mello), “A Sapoti” (Ângela Maria), entre tantos outros.

Passados 100 anos do rádio no Brasil, ele está aí tão vivo como qualquer outra fonte de tecnologia das comunicações. As FMs estão instaladas nos pequenos e grandes centros urbanos, e até na zona rural. O radinho a pilha ou digital é companheiro do vigilante, do feirante, do motorista, da diarista, enfim, de todos aqueles amantes da notícia, da música, do radialista, da sua programação. Lembro-me muito bem: eu era uma criança em meados dos anos 60, e meu velho pai sintonizava “O Garrote Velho” (como ele chamava seu rádio), toda madrugada, nas rádios Antilhas Holandesas e ouvia as primeiras notícias antes de sair para o seringal. Onde morávamos? No meio da selva amazônica, distante mais de 1.200 Km de capital Manaus. De lá para cá, o rádio faz parte da minha vida musical, cultural e sentimental. A dra. Winnie segue este mesmo caminho, o saudável hábito em ouvir as estações das rádios. Que esse veículo de comunicação, possa perdurar por mais um século, no mínimo.

Capa desse LP, da Continental, de 1977

A seguir dois exemplos clássicos de louvação ao rádio, pela sua importância de difusão noticiosa Brasil afora: 1º). “Nós somos as cantoras do rádio./Levamos a vida a cantar./De noite embalamos teu sono,/De manhã nós vamos te acordar./Nós somos as cantoras do rádio./Nossas canções, cruzando o espaço azul,/Vão reunindo, num grande abraço,/Corações de Norte a Sul (João de Barro e Lamartine Babo)”; 2°). Vem da criação genial de Michael Sullivan e Paulo Massadas, que fizeram um anúncio publicitário para uma rádio e, em 1985, o saudoso Tim Maia, lançou “Leva”, tornando-se uma linda canção, como se fosse um caso de amor entre pessoas, mas não é. Vamos à letra: “Foi bom eu ficar com você o ano inteiro/Pode crer, foi legal te encontrar/Foi amor verdadeiro/É bom acordar com você quando amanhece o dia/Dá vontade de te agradar, te trazer alegria. // Tão bom encontrar com você sem ter hora marcada/Te falar de amor bem baixinho quando é madrugada/Tão bom é poder despertar em você fantasias/Te envolver, te acender, te ligar/Te fazer companhia. // Leva o meu sonho contigo/Leva/E me faz a tua festa/Quero ver você feliz (bis). // É bom quando estou com você numa turma de amigos/E depois da canção você fica escutando o que eu digo/No carro, na rua, no bar/Estou sempre contigo/Toda vez que você precisar, você tem um amigo. // Estou pro que der e vier, conte sempre comigo/ Pela estrada buscando emoções/Despertando os sentidos/Com você, primavera, verão/No outono ou no inverno/Nosso caso de amor tem sabor de um sonho eterno. // Leva o meu sonho contigo/Leva/E me faz a tua festa/Quero ver você feliz (bis, bis).

Viva o rádio! Viva todos aqueles que mantêm as suas transmissões “NO AR”! Viva a todos nós, os seus ouvintes! Esperamos que gostem desse resumo do resumo. É um tema fascinante. Cabe pesquisa.

por Angeline, Francisco e Winnie.

Fontes; 1. Nosso Século – Brasil (1910/1930). – SP: Abril Cultural, vol. 4, p. 90, 1985; 2. Dicionário Biográfico Universal 3. – SP: Três Livros e Fascículos, pp. 83/84, 1983; 3. Nosso Século – Brasil (1930/1945). – SP: Abril Cultural, vol. 5, pp. 88/90, 1985; e 4. LP “A Rádio Nacional e Seus Ídolos de Auditório”. – SP: Gravadora Continental, 1977.

Deixe um comentário