Alguns cantores tinham (e têm) por hábito inserir e musicar (ou não) poemas e textos de autores renomados – fossem brasileiros ou estrangeiros – em seus discos. Tornando-os verdadeiras obras – primas da nossa música nacional. Eis aqui os nomes de alguns deles: Fagner, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Paulo Diniz, Agnaldo Timóteo, Jessé. Para sermos mais específicos, Diniz tornou o poema “José” de Drummond, numa canção magnífica.

Há exatos 45 anos, ou melhor, em 1977, o majestoso cantor e compositor Martinho da Vila lançou o disco “Presente” com 14 músicas. Trata-se de um LP para posteridade. Nele estão canções como: Cidadã Brasileira, Meu Quinhão Vida, Planetário, Adeus Mariana, Mundo Raro, entre outras. Tem mais: na contracapa está o poema “A Vida Bate”, do poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). Cabe lembrar que hoje o citado poema é encontrado na obra “Toda Poesia” (editora José Olympio), mas naquela época, não. É um poema de beleza ímpar, singular. Como singular era Gullar. “A Vida Bate” assim:
“Não se trata do poema e sim do homem/ e sua vida – a mentira, a ferida, a consentida/ vida já ganha e já perdida e ganha/ outra vez./ Não se trata do poema e sim da fome/ de vida,/ o sôfrego pulsar entre constelações/ e embrulhos, entre engulhos./ Alguns viajam, vão/ a Nova York, a Santiago/ do Chile. Outros ficam/ mesmo na Rua da Alfândega, detrás/ de balcões e de guichês./ Todos te buscam, facho/ de vida, escuro e claro,/ que é mais que a água na grama/ que o banho no mar, que o beijo/ na boca, mais/ que a paixão na cama./ Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns/ te acham e te perdem. // Outros te acham e não te reconhecem/ e há os que se perdem por te achar,/ ó desatino ó verdade, ó fome de vida! // O amor é difícil/ mas pode luzir em qualquer ponto da cidade. // E estamos na cidade/ sob as nuvens e entre as águas azuis. // A cidade. // Vista do alto/ ela é fabril e imaginária, se entrega inteira/ como se estivesse pronta./ Vista do alto,/ com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade/ é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém./ Mas vista/ de perto;/ revela o seu túrbido presente, sua/ carnadura de pânico: as/ pessoas que vão e vêm/ que entram e saem, que passam/ sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro/ sangue urbano movido a juros./ São pessoas que passam sem falar/ e estão cheias de vozes/ e ruínas. És Antônio? És Francisco?/ És Mariana? // Onde escondeste o verde/ clarão dos dias? Onde/ escondeste a vida/ que em teu olhar se apaga mal se acende? // E passamos/ carregados de flores sufocadas./ Mas, dentro, no coração,/ eu sei,/ a vida bate. Subterraneamente,/ a vida bate. // Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,/ sob as penas da lei,/ em teu pulso,/ a vida bate. E é essa clandestina esperança/ misturada ao sal do mar/ que me sustenta/ esta tarde/ debruçado à janela de meu quarto em Ipanema na América Latina” (1).

Em mais de seis décadas de uma carreira artística profícua, o poeta Martinho tem nos brindado (e alentados) com melodias e versos que clamam por um Brasil, social, econômico, racial e culturalmente igualitário. A vida acima de tudo. Em “Presente”, seu autêntico grito retumbante está deveras presente no começo, meio e fim das 12 faixas. Por exemplos: “Vida bela/ É tão difícil viver/ Sambar samba/ Também um modo de ser/ E viver” (Meu Quinhão Vida), dele e Luiz Carlos da Vila), ou ainda, “Viver/ Fazendo o bem/ Sorrir/ E sem sofrer amar alguém/ Ter amizade como criança/ Felicidade/ Encontrar na esperança” (Vamos Viver), de sua autoria. Porém, em Cidadã Brasileira, Martinho compõe com palavras sob medidas versos que ilustram bem em plena – década de 70 – a força (direitos e liberdade de qualquer jugo, sub.m) – da mulher brasileira, assim: “Mulher brasileira/ Que vai no mercado/ E pechincha na feira/ Mulher brasileira, mulher brasileira/ A bem sucedida/ E a que está mal de vida/ Sem eira nem beira/ Mulher brasileira, mulher brasileira/ Mulher brasileira/ Cidadã brasileira // Ela é delegada/ Ela é deputada/ Prefeita e juíza // Uma boa mulher/ Com um grande ideal/ É o que a gente precisa/ Sempre foi retaguarda/ Mas vai pra vanguarda/ De modo viril/ E é a esperança/ No futuro do Brasil/ Fiz amor com ternura/ Com uma doçura/ De fêmea guerreira/ Pra você eu fiz um samba/ Cidadã brasileira” (1).
Que maravilha, senhores leitores! Seja no claro ou no escuro a vida precisa pulsar. A esperança deve nos acompanhar sempre. Qual é a tua esperança? Qual é a nossa esperança? Cabe reflexão.
Três notinhas úteis: 1ª) Amanhã, dia 2 de outubro, vamos às urnas para mais uma eleição nacional. Somos quase 160 milhões de eleitores. Vamos lá! Vamos votar para se solidificar de uma vez por todas a nossa, ainda, tão matuta democracia; 2ª) Hoje, 1º de outubro, é Dia Nacional do Idoso e Dia Internacional da Terceira Idade. São 30 milhões de pessoas brasileiras nessa faixa etária. Meu Deus! São tantos os percalços. Mas, acima de tudo, viva a vida. O Facetas parabeniza a todos; e 3ª) A partir deste artigo, o Facetas fará nova reformulação/diversificação nas suas publicações mensais para melhor comodidade de leitura dos nossos seguidores: faremos 1 tour por mês, 1 artigo no estilo tradicional do blog e 2 com poemas e/ou letras de músicas, sem perder de vista, é claro, os dados dos seus autores. Contamos com o apoio de todos.
Por Angeline, Francisco e Winnie.
Fontes: 1. LP “Presente”, de Martinho da Vila. RJ, CBS, 1977.