Os contos infantis não são tão infantis

Quem já leu ou ouviu sobre Chapeuzinho vermelho, Rapunzel, João e Maria? Tenho certeza que muitos de vocês, afinal são contos que se perpetuam desde o final do século XVIII e início do século XIX. Os irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, foram dois linguistas, poetas e escritores alemães que pesquisaram e escreveram fábulas. Contudo, engana-se quem pensa que os contos são exclusivos para o público infantil. A Editora HB nos esclarece que as obras dos irmãos Grimm “são veneradas há mais de 200 anos não só por crianças, mas também por aqueles que um dia já foram crianças, e que ainda não encontraram melhor forma de educar novos leitores do que lhes proporcionando o contato com a literatura dos irmãos Grimm. A predileção de adultos pelos contos, aliás, se explica pelo fato de que, quando foram idealizados, não foram pensados para o público infantil, mencionando, inclusive, diversas tragédias e cenários de verdadeiro horror”. Nesse sentido, podemos compreender que os contos são obras que não demarcam um público específico, embora sejam comercializado para as crianças.

A Jornalista Isabel Hernádez escreveu o artigo “Contos de fadas dos irmãos Grimm nunca foram feitos para crianças”, o qual nos explica que “Os Grimms não tinham a intenção de publicar um livro de contos populares. Eles queriam ressuscitar a tradição oral alemã, mas, no processo, acabaram selecionando uma coleção de contos culturalmente abrangente. Embora os irmãos se tornassem um nome familiar por causa disso, Contos Infantis e Domésticos fez parte de uma busca maior: descobrir e preservar as formas orais e escritas da cultura alemã, para restaurar esse tesouro ao povo”. A dedicação dos irmãos em mapear os contos oralizados nas comunidades alemãs se perpetuam ao longo da história, é uma literatura atemporal.

Os irmãos Grimm. Fonte: National Geographic

Recentemente, ganhei do meu pai (criador e idealizador do Facetas), a coletânea de contos infantis dos irmãos Grimm. A editora HB reuniu 26 contos em dois volumes (é claro que há muitos outros contos). Confesso que tinha contos que não conhecia: Frederico e Catarina; Elsie, a sensata; A serpente branca; O lobo e as setes crianças; etc. Eu selecionei para você o conto “O ratinho, o passarinho e a linguiça”, segue o texto na íntegra, retirado do site Grimm Stories:

Era uma vez um ratinho, um passarinho e uma linguiça, que resolveram viver em sociedade e, juntos, com grande harmonia, governavam a casa. Viveram muito tempo magnificamente, sem aborrecimentos, fazendo prosperar o patrimônio comum. A tarefa do passarinho consistia em voar todos os dias à floresta e catar lenha; ao ratinho cabia baldear água, acender o fogo e pôr a mesa; enquanto que a linguiça era encarregada de cozinhar.
Quem vive muito bem, sempre anseia por novidades! Certo dia, o passarinho encontrou, pelo caminho, um outro pássaro e lhe decantou a feliz situação. O outro, porém, chamou-o de tolo, dizendo que, enquanto ele fazia o trabalho pesado, os outros dois passavam boa vida em casa; porque, após ter baldeado a água e ter acendido o fogo, o ratinho ia descansar em seu quarto até a hora de pôr a mesa; a linguiça, por sua vez, ficava a olhar que a comida estivesse bem cozida e, à hora da refeição, mergulhava, enrolava-se, duas ou três vezes no angu ou na verdura e a comida ficava pronta, temperada e salgada. O passarinho chegava com o feixe de lenha, jogava-o no canto e todos iam para a mesa. Depois de comer regaladamente, deitavam-se todos e dormiam de barriga cheia até a manhã seguinte; uma verdadeira vida de príncipes.
No dia seguinte, depois que o outro pássaro lhe enchera a cabeça, o passarinho não quis mais ir catar lenha na floresta; desde muito, vinha sendo o criado dos outros, quase palhaço deles; as coisas deviam mudar! Que tentassem outro sistema.
Por mais que lhe suplicassem, o rato e a linguiça, o passarinho não cedeu e acabou vencendo. Tiveram de tirar a sorte para ver quem iria; coube à linguiça ir à floresta. O rato então ficou sendo o cozinheiro e o passarinho passou a baldear água.
E sabem o que aconteceu?
A linguiça foi lenhar, o passarinho acendeu o fogo, o rato preparou o caldeirão; só aguardavam a volta da linguiça com a lenha do dia seguinte para jantar. Mas ela tardava tanto que os outros ficaram preocupados e o passarinho decidiu ir ao seu encontro. Eis que, pouco distante, avistou um cachorro o qual, tendo topado com a pobre linguiça, presa fácil e convidativa, não teve dúvidas em abocanhá-la e engoli-la.
O passarinho não deixou de exprobrar asperamente o cachorro pela evidente rapinagem, mas o fez em pura perda; o cachorro alegou ter surpreendido a linguiça com documentos falsos, portanto, tivera de pagar com a vida.
O passarinho recolheu, tristemente, a lenha, voltou para casa e contou o que tinha visto e ouvido. Ficaram ambos muito tristes e convencionaram fazer o melhor que pudessem e continuar juntos. Por conseguinte, o passarinho teve que pôr a mesa enquanto o rato preparou o jantar; na hora de servi-lo, quis também fazer como fazia a linguiça, mergulhar e enrolar-se no angu e na verdura a fim de temperá-los. Mas, antes mesmo de chegar ao meio, atrapalhou-se, caiu dentro da panela e perdeu o pelo, a pele e também a vida.
Quando o passarinho chegou para servir a mesa, não encontrou mais o cozinheiro. Consternado, atirou a lenha para o ar; chamou, procurou, mas em vão. Por descuido, a lenha caiu no fogo originando um grande incêndio; o passarinho então saiu correndo em busca de água, mas o balde, nessa pressa toda, caiu-lhe no poço; ele caiu junto com o balde e, não conseguindo escapar, morreu afogado.

Cada um de vocês fez sua própria análise após a leitura do conto. A leitura que eu fiz do conto me fez refletir sobre a convivência em sociedade; julgamento; divisão de tarefas/sociedade. Enfim, há inúmeras possibilidades para o uso do contos, desde o contexto pedagógico ao terapêutico.

Vocês sabiam que os contos infantis são objetos de estudos da Psicanálise? Pois, para quem tiver interesse no estudo, recomendo a leitura dos livros: “A Psicanálise dos contos de fadas”, do autor Bruno Bettelheim; “Fadas no Divã: Psicanálise nas histórias infantis”, dos autores Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso. Vocês conseguem comprar em sebos e livrarias virtuais.

Notinha útil: Hoje é dia do Leitor e dia da Gratidão. O Facetas deseja um 2023 de muitos aprendizados e reflexões críticas a partir do hábito da leitura, e gostaríamos de expressar nossa gratidão aos leitores que nos acompanham. Ficamos felizes quando tivemos o conhecimento de que o blog atingiu a marca de 20 mil acessos em 2022. Gratidão! Vamos que vamos em 2023.

Gomes, Angel e Winnie.

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