Recentemente concluí a leitura do livro “A hora da estrela” da Clarice Lispector. Segue a transcrição (adaptada) da orelha do livro com a síntese da história, o qual foi escrito pelo Jornalista, escritor e Mestre em Comunicação pela UFRJ: “Pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. (…) A nordestina Macabéa, (…), é uma mulher miserável que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpio de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera. (…)”.

O livro tem 87 páginas (Editora Rocco, 1a ed., 1998), são aquelas obras que são “finas”, em relação a quantidade de páginas, mas que exige uma leitura vagarosa para vivenciar as emoções que nos causam. Ao longo da leitura, grifei algumas passagens da obra que irei compartilhar com vocês. Mas, para iniciar, irei transcrever o poema que inicia a leitura do livro:
A culpa é minha/ou/A hora da estrela/ou/Ela que se arranje/ou/O direito ao grito/Quanto ao futuro/ou/Lamento de um bule/ou/Ela não sabe gritar/ou/Uma sensação de perda/ou/Assovio no vento escuro/ou/Eu não posso fazer nada/ou/Registro dos fatos antecedentes/ou/História lacrimogênica de cordel/ou/Saída discreta pela porta dos fundos.

Agora, algumas passagens do livro que saltaram meus olhos:
A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique.
Pensar é um ato. Sentir é um fato.
Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me se ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.
Se a moça soubesse que minha alegria também de minha mais profunda tristeza e que minha tristeza era uma alegria falhada. Sim, ela era alegrezinha dentro de sua neurose. Neurose de guerra.
Eu eu? De mim só se sabe que respiro.
Tristeza era luxo.
Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.
Ela nada entendeu mas pensou que o médico esperava que ela sorrisse. Então sorriu.
Estou me interessando terrivelmente por fatos: fatos são pedras duras. Não há como fugir. Fatos são palavras ditas pelo mundo.
A verdade é sempre um contato inexplicável. A verdade é irreconhecível. Portanto, não existe? Não, para o homens não existe.
Pergunto: toda história que já se escreveu no mundo é de história de aflições?
Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago.
Meu fôlego me leva a Deus? Estou tão puro que nada sei. Só uma coisa eu sei: não preciso ter piedade de Deus. Ou preciso?
Se tivesse a tolice de ser perguntar “quem sou eu”? cairia estatelada e em cheia no chão. É que “quem sou eu”? provoca necessidade. E com satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.
Ahhh Clarice, Clarice. Realmente, a experiência de ler “A hora da estrela” foi um soco no estômago. Em breve, irei iniciar a leitura de outra obra da Clarice, “Perto do coração selvagem”. Depois compartilho com vocês. Até a próxima.
Gomes, Winnie e Angel