No início do mês passado (abril de 2023), lembramos aqui os 40 anos sem a pessoa da cantora Clara Nunes (1942-1983). Porém, o seu legado artístico está vivíssimo entre os seus fãs e admiradores. Por exemplo, ao longo de vários reunimos CDs, LPs, DVDs, reportagens e entrevistas produzidos por essa magnífica artista. Na semana passada, recebemos aqui em Manaus (AM), o disco “As Forças da Natureza”, comprado no sebo “Caverna do disco de vinil”, em Guarulhos (SP), com encarte (o nosso estava sem).

Trata-se de uma obra-prima da nossa música nacional. Considerado por muitos críticos como o melhor trabalho de Clara. Além do primoroso encarte já citado com todas as composições com notas cifras, o disco tem capa dupla e fotos irretocáveis de Adolfo Krauniski. Lançado em 1977, das 12 músicas, cinco, entre as quais, está a faixa-título de sua autoria, em parceria com João Nogueira. Estamos falando do compositor, pesquisador e historiador carioca Paulo César Pinheiro (hoje com 74 anos), que na época era casado com Clara Nunes. As demais canções são de autoria de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Wilson Moreira, Nei Lopes, Chico Buarque, Ruy Guerra, entre outros.
Interessante também é o fato do produtor narrar ao ouvinte leitor o porquê de cada composição. Assim, como a história do próprio LP. Vamos a algumas considerações: “A gravação de um disco de música brasileira, pra início de conversa, uma coisa muito séria. E é assim, levado a sério, que Clara faz, a cada ano, um LP importante e de grande aceitação pelo público que a consagrou e que a apoia sempre. Mas o público é exigente. Ele cansa facilmente daquilo que se repete. Ele quer do artista aquilo de que o artista é dotado: a criação. Por isso o disco anual de Clara requer um cuidado muito grande, como vem sendo feito nos 10 LPs que ela já gravou até hoje. Em cada um mostrando inovações. Evoluindo. Se superando. Despertando cada vez mais, o interesse e a emoção de quem a escuta. Sem apelações populares e simplórias. Procurando, sim, fazer a verdadeira arte popular. Aquela que alcança qualquer classe, sem distinção. E é assim que se fez, nesse ano de 77, mais um disco brasileiro de categoria. Foram chamados músicos da maior qualidade. Os arranjos foram divididos entre os maestros Ivan Paulo, Gaya, Radamés Gnatalli e Sivuca, o que já mostra a responsabilidade do trabalho.

O disco chama-se “AS FORÇAS DA NATUREZA”, nome do samba que ficou com a primeira faixa – lado A, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Um canto meio místico. Talvez uma profecia, nesses tumultuados anos de final de século, onde os homens se voltam para a Natureza que eles próprios andam destruindo com a cegueira do processo. É, enfim, uma canto de alenta pala sobrevivência e futuro da humanidade . A gravação tá de uma beleza e de uma força de arrepiar.
Ainda no lado A, constam: Partido da Clementina (de Jesus) que faz dueto com Clara; Senhora das Candeias, que é um canto de Oxum, a orixá do ouro, do brilho, da luz, representado por Nossa Senhora das Candeias; Perdão, de Mauro Duarte, um dos compositores preferidos de Clara; e Rancho da Primavera. É uma marcha-rancho, ao contrário do que se poderia esperar. É muito bonita tanto música quanto letra.
O lado 2 (B) abre com o samba Coisa da Antiga, de Wilson Moreira com letra (muito bem feita) de Nei Lopes; em seguida, um samba de Paulinho da Viola, daqueles que só ele sabe fazer, Coração Leviano. Simples, mas de uma pureza tão bela que encanta o ouvinte; com música de João de Aquino e letra de Paulo César Pinheiro, Sagarana, é dos anos 60. Trata-se de uma saudação ao escritor mineiro de Cordisburgo, que faz fronteira com Paraopeba, terra natal de Clara, João Guimaraes Rosa. A região da estória é aquela. A música é um batuque, gênero do lugar. A linguagem é a do Guimarães Rosa; A Flor da Pele traz uma surpresa. A melodia é do Maurício Tapajós, e da própria Clara, que estreia como compositora. Trata-se de um samba-canção, cuja letra é de Paulo César. A beleza do bandoneon do músico Ubirajara é inconfundível; Palhaço, é uma música de Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes, cuja gravação original foi feita por Dalva de Oliveira, de quem Clara sempre foi fã. E sua grande vontade era a de regravar esse clássico da música popular. A genuinidade do som do violão produzida por Helinho Delmiro; e por último, Fado Tropical , de Chico Buarque e Ruy Guerra, que nem precisar comentar, onde o acordeom do Julinho “conversa” com o bandolim do Déo Rim.
E por fim, diz o produtor: “E taí mais uma obra séria para quem gosta da nossa boa e verdadeira música popular brasileira” (1), Obra essa que na canção título, traz estes versos: “O esplendor da mata vai renascer/E o ar de novo vai ser natural/Vai florir”.
Aqui, mais uma mensagem de brilho, de luz, aos nosso Leitores. Viva a vida! Viva a Natureza! Esperamos que gostem e possam compartilhar com outros amantes da música, da literatura, da leitura, enfim.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte: 1. LP “As Forças da Natureza”, de Clara Nunes, SP: EMI-ODEON, 1977.