Bons tempos de serestas e seresteiros

Quanto eu era criança e morava com os meus pais e dois irmãos, na cidadezinha de Terruhã, no Município de Pauini (AM), nos idos dos anos 60, ouvia meu tio Emídio Santana dizer aos seus amigos: “Vamos fazer mais serestas”. Cresci sabendo que em algumas cidades brasileiras, era comum grupos de seresteiros saírem à noite cantando e decantando as suas paixões, os seus amores. Geralmente diante da janela da moça pretendida como namorada.

Recentemente adquirimos um lote de LPs, e, entre eles, pelo menos cinco discos abordam o tema em questão: Serestas e Seresteiros – Encontro com os Maiores Seresteiros (1980); Bons Tempos: Serestas (1984); Serestas e Modinhas (1985); A Turma do Sereno Faz a Festa (1985); Uma Noite de Seresta (1966), de Carlos José. Além de raras, são culturalmente valiosíssimas, essas obras.

Segundo o compositor paulista, autor de mais de 50 canções, Oswaldo Guilherme (1919-1995), “A chamada música de seresta é das mais belas do nosso cancioneiro popular. Embora, sem a grande receptividade de alguns anos atrás, ainda hoje consegue despertar os sentimentos do público, principalmente quando bem composta e bem interpretada.

Houve um tempo, porém, em que a música de seresta era a coqueluche dos namorados. Era comum nas noites enluaradas, surgir o seresteiro, de violão junto ao peito e desfilar um rosário de canções, expressando todo seu sentimento em frente a casa da mulher amada, na espera de que a janela se iluminasse, como que a responder aos apelos do trovador. É bem verdade, que muitas vezes, durante aquele enlevo, surgia o pai da moça e atrapalhava tudo. Outras vezes, era a polícia que nem sempre compreendia as razões daquelas queixas apaixonadas. Mas a verdade, é que na fase áurea das serestas, nosso música viveu momentos maravilhosos de ternura e encantamento.

Tivemos na apresentação desse gênero musical intérpretes como Francisco Alves, Vicente Celestino, Paraguassú, Orlando Silva, Augusto Calheiros, Carlos Galhardo, Gilberto Alves, Newton Teixeira, Onéssimo Gomes, Nelson Gonçalves, Teodorico Soares e tantos outros, que se celebrizaram com suas criações musicais. Também entre os autores, inúmeros foram os que se dedicaram a esse tipo de música. Mas a consagração, só alcançou aqueles que se perpetuaram no disco. Os outros, ficaram no tempo…

De alguns anos para cá, procura-se dar nova força ao gênero seresta, não só através dos poderes oficiais, como a Prefeitura Municipal de São Paulo, promovendo noites de seresta mas também, pelas gravadoras, como é o caso da RCA, que está lançando este LP que reúne seis nomes de peso no gênero como Francisco Alves, consagrado pelo público; Sílvio Caldas autor de “Seresta” e “Chão de Estrelas”, duas das mais belas canções seresteiras; Orlando Silva, Augusto Calheiros; Carlos Galhardo e Newton Teixeira, auto de Deus da Minha Rua, em parceria com Jorge Faraj.

Vamos, pois, reviver um pouco nossa seresta, como o nosso pensamento voltado para aquele tempo, em que o amor nascia, floria e vicejava no lirismo das serestas “ (1). Guilherme faz menção às 16 músicas do disco, como Boa Noite, Amor (José Maria de Abreu), Adeus Amor (Urbano Lóes), Rosa (Pixinguinha), Prelúdios e Sonatas (Cezar Lúcio da Cruz), Lábios que Beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo), entre outras.

O disco “Uma Noite de Seresta”, de Carlos José (1966), é um clássico desse gênero, com 15 composições como: Noite Cheia de Estrelas, A Voz do Violão, Sorris da Minha Dor, etc, traz na contracapa um excelente estudo do musicólogo carioca Ary Vasconcelos (1926-2003), do qual, extraímos alguns trechos seguintes.

“Carlos José, neste álbum, evoca, com categoria, essa época do Amor com A maiúsculo, egresso do mundo a romântico de hoje” (2), ou ainda, “Acorda, abre a janela/Estela! Era uma exclamação enfática, pois o trovador só a fazia no final da música e naturalmente, a Estela do início do século (XX) há muito havia acordado com a gritaria do seu apaixonado cantor” (2), assim declamando: “Se tu soubesses como sou tão carinhoso”; “Ela é tão rica e eu tão pobre/Eu sou plebeu, ele é nobre”.

Por último, diz o pesquisador em tom saudosista: “Não tantos os anos que nos separa da época das serestas e, entretanto, parece que esse tempo pode ser contado em séculos (…). Enfim, um AMOR não isento de uma certa e ingênua “chantagem sentimental”, mas um AMOR que não tornou a ser cantado em música popular brasileira, com a mesma veemência e paixão” (2).

Eis aqui, aos nossos fiéis (e pacientes) leitores, este tema apaixonante: amor. O amor que nos eleva, “muitas vezes, a um plano de puro delírio”. E que recorre ao perdão, como versou o genial Pixinguinha, in Rosa: “Perdão, se ouso confessar-te/Que hei de sempre amar-te”.

Notinha útil – O Facetas agradece cada seguidor que leu, curtiu, discutiu, concordou, discordou, enviou mensagens, telefonou, admirou as fotos, etc, referente ao artigo da semana passada: Parintins 2023: “Duas cores. Uma emoção”.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes: LP “Serestas e Seresteiros: Encontro com os Maiores Seresteiros, SP: RCA/Canden; 2. LP “Uma Noite de Seresta, de Carlos José, SP: CBS, 1966.

Um comentário em “Bons tempos de serestas e seresteiros

  1. Show, Dr Gomes! O tempo das serestas podia voltar que seria bem-vindo. Parabéns pelo texto que aborda um tema que já foi esquecido pela atual geração, mas que sem dúvida, foi um marco na vida da geração anterior.

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