Tanto a prosa como a poesia nacionais quanto as internacionais – assim como as demais artes -, estão repletas de autores que dedicaram uma (ou mais) obra sua à pessoa amada. Isso em todas as épocas: da antiguidade à era contemporânea, em todos os continentes.
Citamos aqui, por exemplo, cinco registros desses “grandes amores”. O grande poeta italiano, de origem francesa, Francesco Petrarca (1304-1374), teria se apaixonado perdidamente por Laura de Noves (1310-1348), a quem enviara várias correspondências. Sem, portanto, ser correspondido, é claro. Ocorre que a sua amada era casada com um Conde. Mesmo assim, o poeta alimentou o seu amor platônico por ela durante muitos anos. Publicou uma obra, Laura, contendo os primeiros sonetos da história da Literatura Universa, num latim impecável e romântico.

A poeta ou poetisa inglesa Elizabeth Barrett (1806-1861), viveu um correspondido grande amor pelo barão e também poeta Robert Browning (1812-1889), a quem foram dedicados os mais belos poemas da língua inglesa escritos por uma mulher. Como estes encantadores versos, traduzidos para a nossa língua pátria por Manuel Bandeira: “Amo-te até nas coisas mais pequenas./Por toda a vida. E, assim se Deus o quiser,/Ainda mais te amarei depois da morte”.
Tem mais. Machado de Assis (1839-1908), que viveu um casamento duradouro por 35 anos com a jovem de origem portuguesa, Carolina Xavier Novais, a qual teria enfrentado uma severa oposição de seus pais para a mesma não se casar com o escritor brasileiro. Machado, cujo ofício não era apenas a prosa, dedicou a amada poemas fantásticos, como estes versos de A CAROLINA: “Querida, ao pé do leito derradeiro/Em que descansas dessa longa vida,/Aqui venho e virei, pobre querida,/Trazer-te o coração do companheiro”.
Por sua vez, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), dedicou sonetos inesquecíveis à sua amada Matilde Urrutia, com que foi casado de 1966 a 1973. Em outubro de 1959, ainda não eram casados, mas o poeta dedicara-lhe os primeiros dos 100 sonetos que viriam, assim: “Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes mal chamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina”. E completando, declama: “MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho/do que nasce da terra e dura,/palavra cujo crescimento amanhece,/em cujo estio rebenta a luz dos limões”.
Tem Jorge. Isso mesmo, o escritor Jorge Amado nasceu em Itabuna em 10.08.1912 e faleceu em Salvador, em 06.08.2001, quatro dias antes de completar 89 anos. Em 2012, quando da passagem dos 100 anos do seu nascimento, a revista CULT publicou um “dossiê” de 18 páginas sob o título “Amado e contestado”, escrito por vários jornalistas, sobre a carreira, o dia-a-dia e encontros profissionais com diferentes personalidades, entre elas os escritores Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o etnólogo Pierre Verger, o pintor Caribé, os cineastas Roman Polanski e Glauber Rocha entre tantos outros.
Amado foi casado com a escritora Zélia Gattai por 56 anos (1945 a 2001). Certa vez, longe de casa, “quando o escritor participava do Congresso da Paz, em Viena”, a saudade fê-lo palpitar mais forte seu coração por Zélia. Então, em 04 de novembro de 1951, enviou à sua amada esta carta de amor. Cuja íntegra é a seguinte:
“Meu amor,
Recebi hoje pela manhã teu telegrama, vou a busca amanhã, segunda-feira, os remédios pedidos.
Faça-te este bilhete durante uma reunião de Comissão para te enviar minha saudade a ti, a João e a Paloma.
Nunca tive tanto trabalho em toda minha vida. Entro no local da reunião antes das 8 da manhã e saio sempre depois da meia-noite. Ontem saí à 1 e meia da manhã e fui despertado com teu telegrama às 6 h. Estou fatigadíssimo.
Todo mundo vai sem novidade. Todos te enviam abraços.
Neste momento que te escrevo Dona Branca* deve estar falando no plenário. Oh! Meu Deus!, que senhora chato. Já estou farto.
Fiquei contente de saber que todos estão bem. Beija os meninos por mim e receba um beijo meu com toda a saudade e o carinho do teu Jorge” (1).
*Branca Osório de Almeida Fialho (1896-1965) – Educadora brasileira, foi presidente da Federação de Mulheres do Brasil e vice-presidente da Federação Democrática Internacional de Mulheres” (1).
“Com a Guerra Fria, havia forte pressão norte-americana para impedir que os Congressos da Paz fossem realizados fora dos países de “democracia popular”. Apesar disso, o Conselho Mundial da Paz conseguiu realizar o Congresso de 1951 em Viena. Os austríacos, contudo, puseram sob censura a correspondência (foto acima), como se pode notar nesta carta que leva o carimbo de censura” (1).
Amigo (a) leitor (a), 71 anos desta carta de amor, os tempos são outros, é óbvio. Os meios de comunicação são mais céleres. Não deixe, portanto, em hipótese alguma, de enviar às pessoas amadas por você , mensagens de texto, vídeos, áudios, etc. Caso contrário, eu, você, nós corremos o risco de cairmos nas ciladas do tempo, que voa incessantemente, como bem o disse o mestre maior Mário Quintana (1906-1994): “Quando se vê, já são seis horas!/Quando se vê, já é sexta-feira…/Quando se vê, já terminou o ano…“.
Torcemos para que gostem de mais uma publicação do Facetas. O nosso muito obrigado.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte: 1. Revista CULT (www.revistacult.com.br), nº 165, ano 15, fevereiro de 2012, SP, pp. 22/41.