Brasil: “O maior carnaval do mundo”

Emprestamos o título acima da gravadora Copacabana, que em 1986, lançou um estojo especial com seis LPs, contendo um total de 160 músicas carnavalescas brasileiras, incluídos vários pot-pourris (hoje, medley), ou seja, uma reunião de clássicos do gênero, de todos os tempos.

Voltando às décadas de 1970 e 1960, quando o Carnaval (com “C”) era, realmente, a nossa mais autêntica manifestação popular e cultural, na essência do termo. Sem a desenfreada ganância da comercialização e da banalização, também, em alguns casos, dos valores sociais, como um todo.

Em 1968, com músicas do ano anterior, a gravadora Philips lançou o volume 2 da série “Carnaval de Verdade”, com 14 marchas, sambas, frevos, samba-batucada, de melhor qualidade. Como o samba Amor de Carnaval (Zé Keti), interpretada por ele mesmo; a marcha Carnaval pra Valer (Miguel Gustavo), com Dyrcinha Baptista; o frevo Sou Pobre, Pobre (Sérgio Ricardo), por ele mesmo; o samba Felicidade (Francis Hime e Vinicius de Moraes), com Walter Levita, entre outros.

Em 1973, a gravadora Copacabana lançou o disco “Carnaval do Rio”, cujas músicas foram gravadas com acompanhamento de escola de samba e orquestra e coro de estúdio. No lado A estão 10 marchas como O Teu Cabelo Não Nega (Irmãos Valença e Lamartine Babo); Jardineira (Benedito Lacerda e Humberto Porto); Cidade Maravilhosa (André Filho), etc. Do lado B estão 9 sambas como Bom Dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral); Praça 11 (Herivelto Martins e Grande Otelo); A Lapa (Benedito Lacerda e Herivelto Martins), entre outras.

A contracapa do citado disco, traz um excelente comentário do jornalista e musicólogo carioca Lúcio Rangel (1914-1979). Ele faleceu em pleno carnaval, no dia 13 de fevereiro, há exatos 45 anos. Ele diz: “O samba e a marcha ou marchinha, são gêneros musicais tipicamente cariocas, ambos imprescindíveis por ocasião da grande festa popular que é o nosso Carnaval. De ritmo vivo e saltitante, a marchinha, que muito difere da sua congênere militar, tem os seus cultores, desde o tempo em que apareceram as primeiras polcas-marchas, depois influenciadas pelo rag-time norteamericano. Nesse gênero, algumas peças se tornaram “clássicas”, como o famoso “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, precursora de muitas outras que viriam depois. José Barbosa da Silva, o Sinhô, grande compositor popular, foi, também, um cultor dessa modalidade musical e seu famoso “Pé de Anjo” ainda é lembrado. José Francisco de Freitas, outro expoente, deixou-nos “Dondoca” e “Zizinha”, ainda na lembrança dos veteranos.

Já o samba, o mais admirado dos gêneros populares da música brasileira, serviu, a princípio, para designar o batuque e provém de semba, umbigada em Loanda. Só em 1917, com a gravação em disco de “Pelo Telefone” de Ernesto dos Santos, começou a se tornar conhecido. Seus grandes cultores são o já citado Sinhô, Cantinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Cartola, Ismael Silva, entre os compositores. Inúmeros os cantores que se tornaram conhecidos com a interpretação do samba carioca. Citaremos apenas alguns deles: Mário Reis, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Luiz Barbosa, Moreira da Silva e Almirante. No naipe feminino, Aracy Côrtez, Otília Amorim, Aracy de Almeida e Marília Batista têm lugar de destaque.

No presente “long-playing” estão reunidas dez marchinhas de grande sucesso, das mias representativas do carnaval carioca, e nove sambas, dos mias característicos. É uma verdadeira antologia da música do nosso Carnaval. A mais antiga peça aqui apresentada é o badalado “O Teu Cabelo Não Nega”, de 1932. É de autoria dos Irmãos Valença, compositores pernambucanos, que enviaram ao Rio. Lamartine Babo, no entanto, fez notável adaptação, criou versos, dando-lhe uma malícia e sabor verdadeiramente populares, fazendo dela o maior sucesso carnavalesco de que temos notícia, até hoje.

Alguns dos melhores compositores de marchas e sambas característicos fazem-se representar neste LP, como Benedito Lacerda, Humberto Porto, Jararaca, Mário Lago, Herivelto Martins, Dunga, entre muitos outros. Os arranjos para as marchas foram feitos por Pixinguinha, com a marca da sua personalidade e seu caráter genuinamente brasileiros. E um músico essencialmente nosso, livre de influências exóticas, sabendo valorizar como ninguém, os nossos ritmos e as nossas melodias, conseguindo realizar gravações perfeitas.

Uma grande e autêntica “Escola de Samba” encarregou-se da interpretação dos sambas, acompanhado de orquestra de estúdio. Os discos Copacabana apresentam ao público um “long-playing” como se fazia desejar, valorizando ao máximo essas 19 músicas que ainda despertam o entusiasmo de todos, porque estão vivas, porque são belas, porque são nossas” (2).

Ficam aqui, portanto, as lembranças do passado carnavalesco para fortalecerem as vivências atuais da folia, com este histórico relato do mestre Lúcio Rangel. A todos um excelente carnaval de 2024, seja em Olinda, Recife, São Luiz, Salvador, Manaus, São Paulo, etc, etc, etc, e principalmente no Rio de Janeiro., sem violência, sem contenda, sem adeus. Muita paz. Todo como estes versos de Hime e Vinicius, in Felicidade: “Abre os teus braços,/Vem brincar nos braços meus./Hoje é só no faz-de-conta,/N

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