Celdo Braga: “Sempre a favor do vento”

O músico, cantor, escritor, poeta Celdo Braga (71 anos), ex-integrante do conhecido “Raízes Caboclas”, por mais de 25 anos, é mesmo um artista brilhante. Por último, fundou o “Grupo Imbaúba”, totalizando mais de 40 anos de carreira artística. E, segue criando verdadeiros poemas cantados. Autênticos hinos para a região, para o Brasil e para o mundo.

Em 2014, esse fantástico multiartista lançou o CD “Chamando o Vento” com 11 poemas. Sendo 10 de sua autoria e por ele cantado/declamado e um – Amazônia – de autoria do poeta Alcides Werk (1934-2003) e por ele cantado. O saudoso poeta Aníbal Beça (1946-2009), faz a apresentação do citado disco, assim:

“Na distância do começo, aedos e rapsodos, munidos da lira, convocavam os ventos para o conciliábulo das musas. Música e poesia, desde sempre, andaram juntas. Disso, sabe muito bem Celdo Braga, afilhado das águas e das matas amazônicas, irmão de duendes e primo de gnomos.

Daí que, quando não está levando seu barco de sonhos, gaiola ou motor de linha, conhecido da gente como “Raízes Caboclas”, ele, assim como os ventos, na maior sem-cerimônia, convoca-os para jogar conversa fora, regada a música e poesia de primeira, cercado do rigor e certos cuidados, como mandam esses momentos especiais.

Até por que, seus convidados: Vento Geral, Cruviana, Aracati, Minuano e os mais distantes, Siroco e Simum, são exigentes nessas feitorias.

Com o dom de encantador de palavras, Celdo as recolhe e as elege para a dança dos ventos, no cochicho das folhas, no canto do Urutau, na dissonância canora do nosso Debussy-Uirapuru, no rito passageiro da Tocandira, nas estações do verde com suas descidas e subidas: águas da fartura e água do escasso. Em tudo, as coisas da Amazônia contempladas pelo olhar desde a infância, universo de seu Poemário e Cantoria, que ele nomeia: Chamando o vento.

E nesse chamamento, sempre regido pelo dom da amizade, ele vai em busca de ventos transgressores, aqueles acostumados em domar os mais escuros cúmulos, mas que sabem das almofadas de nuvens amaciando as caminhadas várias do sonho.

Salta um vento capeta, brincalhão, que faz o que quer e requer a melodia, o ritmo e a harmonia dos nossos beiradões. Atende pelo nome de Rubens Bindá e divide, com o próprio Celdo, os temas musicais embalados pelo sopro da flauta mágica de Cláudio Abrantes.

Na trilha das águas, o vento inspirado dos versos de Alcides Werk parteja esperanças nesse mundão de Deus, de águas sem porteiras, desde Aquidauana a Maués.

Na esteira de Ascenso Ferreira, Farias de Carvalho, Mano Mello, Rogaciano Leite e Lindolf Bell, Celdo Braga se inscreve no bloco dos que cultuam a palavra falada com a competência de quem sabe dizer. A nós, nos resta saber ouvir. Sempre a favor do vento” (1).

O poeta em debate é tudo isso e muito mais. Cada um dos 11 poemas do disco tem identidade própria. Tem beleza singular, ímpar. Chamando o vento, poema-título do memorável trabalho, não encanta o ouvinte apenas pelo ritmo, pelas palavras nele contidas; pelos versos que formam as suas três estrofes. Mas, acima de tudo, pelo canto, pela melodia, pela sonoridade. Sem perder de vista as notas tiradas do teclado do maestro Rubens Bindá e outros músicos participantes.

E num momento mágico, suave como o entardecer do lusco-fusco de uma sábado do verão amazônico, fluvial do rio Negro que banha Barcelos (266 anos de fundação, nesse dia 6 de maio), ou como queira o leitor, de outro lugar qualquer, balbucia alegremente o poeta: “Eu chamo o vento para cantar a vida/esmaecida na curva do rio/pena do tempo, pássaro ferido/nas revoadas dos meus assovios”. É de arrepiar a pele e aguçar a memória poética dos mortais.

No mesmo ímpeto e no mesmo tom da melodia, o artista se doa em Pescador, Estiagem, Tempo das águas grandes ou em Barco de Papel, entre outros, do mesmo CD. Na terceira estrofe deste último, o eu lírico do seu criador, fala mais alto, é óbvio, que o mesmo declama, canta, encanta: “Hoje ao beber a lembrança/dessas viagens passadas/vejo longe, em revoadas,/os sonhos que libertei”.

Por sua vez, o poeta Alcides, em participação especial, versa sobre a vastidão amazônica de missões/omissões; de segredos e mistérios, de massacres e primitivismos; de estórias revelas e Histórias não contadas, e encadeia os versos de Amazônia, dessa forma: “Ouvi estórias/do padre Pedro/e dos antigos/sobre o milagre/dos homens bons/mas nada soube/de agricultura/só mandioca/e extrativismo”.

Todos os trabalhos de Braga – CDs, livros, teatro, etc – são apaixonantes. Só para exemplificar, na semana passada, o poeta brilhou mais uma vez com o evento que ocorreu no Teatro do ICBEU, no centro de Manaus (AM), com o recital literário/musical “A VOZ DA POESIA”, coordenado por ele, quando os espectadores realizaram uma imersão na natureza, guiados pelos sons e sensações produzidos por instrumentos criados por músicos locais.

Finalmente, esperamos que os nossos leitores gostem do tema abordado. Para quem ainda não conhecia Celdo Braga, eis aqui uma pequena síntese desse disco. Um dos seus muitos livros e CDs. Um poeta, cuja trajetória sempre foi a favor do vento, ou seja, da poesia.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes: 1. CD “Chamando o vento”, de Celdo Braga, Rimo da Amazônia, Manaus, 2014; 2. http://www.icbeu.com – 2024/04/22.

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