Os nossos modestos comentários publicados semanalmente neste blog, são pautados sobre discos (CDs e LPs) e livros (prosa e poesia), principalmente. Porém, isso não impede que façamos análise de filmes, musicais e documentários que achamos ser do interesse do nosso público leitor, como este: “Vinícius de Moraes: Um Rapaz de Família”.
São apenas 30 minutos de duração. Aparentemente curto demais se comparado aos de 60, 90 ou 120 minutos da maioria do gênero. Ledo engano pensar assim. São, verdadeiramente, imagens riquíssimas, haja vista ser o personagem principal, Vinícius de Moraes, como pessoa de família no seu dia a dia, no final dos anos 1970.

No citado documentário – em versão cuidadosamente restaurada -, Susana Moraes retrata o pai, Vinícius, na intimidade. Distante de um possível retrato oficial do grande poeta, diplomata e criador de Bossa Nova, o filme mostra um homem entre amigos e familiares, desprendido de convencionalismos, numa atmosfera que se reflete também na linguagem despojada da obra. Sem dúvida, esse perfil afetivo, cotidiano e bem-humorado só foi possível porque a equipe de filmagem era formada por pessoas próximas e porque Vinícius nunca sai de seu círculo amistoso, composto por Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar e Tom Jobim, entre outros. Segundo Walter Salles, este filme é “uma das experiências mais originais do documentário brasileiro das últimas décadas” (1).
O interessante livreto, anexo ao DVD, contém textos de Walter Salles, Pedro Butcher e depoimento de Robert Feinberg: poema “Enjoadinho”, “Os Três Minutos e Trinta Segundos” e “Minha História Até Chegar Ao Brasil É Meio Comprida”, respectivamente. Walter Salles, por exemplo, inicia e termina seu relato com estes versos: “Filhos, melhor não tê-los,/ Mas se não os temos/ Como saber/ Que macieza/ Nos seus cabelos/ Que cheiro morno/ Na sua Carne/ Que gosto doce/ Na sua boca”.
Assim, segue com o texto, Walter: “a cineasta e roteirista Susana Moraes nos oferece um contracampo desses versos – um retrato de uma rara honestidade sobre o seu pai. As primeiras imagens em preto e branco revelam que estamos diante de uma vida incomum, intensa e complexo. Vemos Vinícius ainda menino, depois o adolescente em formação, o rapaz próximo de Bandeira, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, o jovem diplomata que viveu em Los Angeles, foi crítico de cinema e amigo de Orson Welles, o poeta e compositor que colaborava com Tom Jobim, Chico, Baden Powell e Toquinho, entre tantos outros (…), então o filme de Susana nos revela o quão singular, e múltiplo, era o seu pai” (1). Além desses citados, também consta na película Caetano Veloso, João Donato e Marisa Rosa Oliver.
Susana Moraes (1940-2015) era carioca e trabalhou como atriz em vários filmes, entre eles Garota de Ipanema (1967), Pecado Mortal (1970), Tabu (1980), Corações a Mil (1983), o longa-metragem Mil e Uma (1994) e os DVDs Adriana Calcanhotto – Público, Adriana Partimpin, O Show e Partimpim – Dois É Show. Em 2005, produziu o documentário de longa-metragem Vinicius, de Miguel Faria Jr. Por exemplo, boa parte de Um Rapaz De… Foi filmado em 1979, pouco antes da morte dos poeta, que ocorreu em julho de 1980.
Assegura, ainda, Walter: “A finitude também é uma das questões centrais do filme de Susana Moraes, e aparece de forma delicada em “Lindo Amor”, que Vinícius sussurra: “Se tu queres que eu não chore mais/ Diz ao tempo que não passe mais”. E completa: “Canto para que me lembres/ quando eu me for”. O documentário transpira a paixão que moveu a cineasta durante a rodagem. Lançado em 1983, o resultado é um filme essencialmente livre e artesanal”.
“A cópia agora restaurada preserva as características do filme original”. O restauro e a masterização digital sempre foi um desejo da autora “desde que as novas tecnologias digitais permitiram que filmes antigos superassem suas limitações técnicas originais e se reapresentassem ao público na plenitude de sua imagem e som”, pelo Instituto Moreira Salles. “Em 2014, reunimos forças e através da VM Cultural (e Júlia Moraes), Susana começou o processo, que não pode ver concluído”, cujo resultado de forma satisfatória foi apresentado ao público em outubro de 2016.
Apesar de quase todas as imagens terem sido produzidas no Rio de Janeiro, há “cenas filmadas em Buenos Aires com o poeta Ferreira Gullar em 1978, em meio à ditadura militar, lembram o quanto aquela época da história sul-americana tenebrosa. Fala-se, aqui, de exílio e poesia. E mesmo na solidão do país estrangeiro, Vinícius é capaz de extrair um humor inesperado do encontro, dizendo que era necessário inverter a ordem dos grandes poetas brasileiros: Ferreira Gullar e depois Gonçalves Dias”. Os dois riem.
Não há como descontextualizar a figura do poetinha do momento político em que o Brasil vivia (década de 70), como bem observa Salles: “é a memória afetiva de Vinícius, mas também a memória das transformações urbanas do Rio, o reflexo do país antes e durante a ditadura militar (1964-1985), que emergem, sem filtros. “Fui diplomata por que não sabia fazer nada”, confia o pai a Susana”.
Senhores leitores, esse documentário é realmente imperdível. Porém, fica por conta de cada telespectador fazer a sua própria análise. Concordando conosco ou não.
Notinha útil – Partiu hoje, de Manaus para Recife, o jovem Heitor, acompanhado pelos pais, é claro, onde esteve conhecendo os hábitos e costumes dos povos da Amazônia. Nós, do Facetas, somos gratos pela visita da família.
Por Angeline e Francisco Gomes.
Fonte consultada: 1. Documentário “Vinícius de Moraes, Um Rapaz de Família”, de Susana Moraes, RJ: IMS (www.ims.com.br), outubro de 2016.