“Quem és, Amazônia?” (parte final)

Ainda repercuto bem a primeira edição de “Quem és, Amazônia”, de Max Krichanã, por nós publicada aqui recentemente. O jornalista em questão indaga a quem realmente interessa as riquezas naturais da região. Fala-se, cria-se isso e aquilo, mas, na prática, tudo cai na vala da mesmice. Um leitor nosso, o sociólogo Adélcio Oliveira, pelo WhatsApp nos enviou estas palavras certeiras: “Não temos a Amazônia, apenas vivemos aqui!”

Assim sendo, vamos, portanto, à parte final da reportagem com o título acima: “O que é verdadeiramente a Amazônia? De que se trata? Um exemplo recente está na letra da música “Amazônia”, de Tonzé e Jorge Jucá: “… matamos os animais/cortamos os vegetais/Amazônia esterilizada”. Algo se passa na grande floresta, algo que traduz uma necessidade febril de enaltecer, preservar a nossa realidade, algo que nos põe em brios e que rescende a um orgulho patriótico.

Como retratar a Amazônia? Como vê-la? Decerto não será a partir dos escritores europeus, que fantasiavam a Amazônia, sem mesmo terem tido a possibilidade de entrar nas matas. E também não seria pelas narrativas dos colonizadores, que tudo viam pela ótica do dominador, e enchiam alfarrábios de mirabolantes concepções carregadas de imprecisões metodológicas e correções do próprio punho, destinadas a enxugar o texto para a apreciação das majestades d’além-mar.

A cultura da Amazônia possui, em alto grau, o misticismo e o esoterismo; seus mitos e lendas, seus símbolos e rituais, são seu legado cultural, representações de sua sociedade e de seus padrões de comportamento milenares.

Em sua estreita relação com a natureza, os índios amazônicos aprenderam a conhecer bem de perto a rotina e os hábitos dos animais. Dentre eles destacam-se os peixes, base protética da alimentação na selva adornada pelos imensos rios – verdadeiras estradas regionais.

Hoje, estas curiosidades, estão muito distantes do habitante comum da metrópole ou do interior “urbanizado”. O que vemos é a desaculturação e o esquecimento galopantes, que vêm descaracterizando as tradições do lugar, que devem ser preservados a qualquer valor.

A preservação e a defesa do equilíbrio ecológico da Amazônia através da utilização racional dos recursos da natureza não devem ser considerada ou caracterizada como uma atitude oposta aos interesses da sociedade humana capitalista, mas ao contrário, deve ser vista como uma necessidade imperiosa para a continuidade da existência da espécie humana no planeta Terra. O mau uso da tecnologia moderna está sempre a ameaçar o equilíbrio dinâmico dos complexos ecossistemas da Amazônia como provaram os projetos colossais de agropecuária, hidrelétricas, mineração e agricultura tipo plantation. O mais drástico exemplo é o Projeto Jari, e o mais recente, a hidrelétrica de Balbina.

O progresso não pode prejudicar a natureza nem a relação do habitante amazônico com ela. A política de ocupação e integração da Amazônia deve ser estudada por cientistas, pesquisadores, educadores, que têm uma responsabilidade muito grande, ou seja, orientar e capacitar o processo desenvolvimentista e ocupar a região amazônica com o mesmo respeito que por ela tinham os autóctones, seus antigos (e autênticos) habitantes.

Os autóctones amazônicos tinham razão de sobra para imaginar um paraíso como aquele de épocas pretéritas: tomando as palavras de Humboldt, um tanto proféticas para os nossos ouvidos civilizados e materialistas, temos que “A Amazônia é o reduto que sobrará à Humanidade para que, lá, ela viva seus últimos dias”, tão foi a impressão deixada em sua sensibilidade pela região que o deslumbrou; e percebemos que Humboldt sobre o que significaria coabitar com a natureza” (1).

Outro voz combatente pelos direitos dos povos amazônicos fez, em versos, a seguinte declaração: “Eu venho desse reino generoso (Amazonas, Amazônia)/, onde os homens que nascem dos seus verdes/continuam cativos esquecidos/e contudo profundamente irmãos/das coisas poderosas, permanentes/como as águas, os ventos e a esperança./Vem ver comigo o rio e as suas leis./Vem aprender a ciência dos rebojos,/vem escutar os cânticos noturnos no mágico silêncio do igapó/coberto por estrelas de esmeraldas” (Thiago de Mello, in “Mormaço na Floresta”).

Prometemos, mas não fizemos, comentário conclusivo sobre as duas publicações de “Quem és, Amazônia?”. As palavras acima, do poeta amazonense, de Barreirinha, Thiago de Mello (1926-2022), significam muito sobre essa temática. Fica, portanto, a critério do(a) nosso(a) leitor(a), tirar as suas próprias conclusões, em todos os aspectos desta região tão propalada, mas, a deriva.

Notinha útil – Só lembrando: há exatos 146 anos nascia em Ulm, Alemanha, no dia 14 de março de 1879, Albert Einstein, que faleceu em 18 de abril de 1955, aos 76 anos, em Princeton, Nova Jersey, EUA. Considerado um dos maiores gênios da Matemática/Física do mundo, disse: “A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos”.

Por Franciso e Angeline Gomes e Winnie Barros

Fonte consultada: 1. Caderno especial do Jornal do Commercio, Manaus, 14 de setembro de 1986.

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