O “carimbó estilizado” de Pinduca (final)

Há duas semanas, publicamos aqui a primeira parte deste artigo sobre o cantor e compositor paraense Pinduca. Agora, portanto, vamos editar a segunda e última parte. Dando sequência ao comentário ao referido artista, do professor da UFPA, João Loureiro:

“O primeiro disco de Pinduca, música da Banda da Polícia Militar de Belém e líder de um conjunto musical, foi gravado em 1973 obtendo imediato sucesso, que anualmente passou a se repetir. Em 1975 seus carimbós urbanizados tocavam nas rádios de todo o país. Eliana Pittman ouviu alguns, no acaso de uma eletrolinha de pilha de um grupo de jovens na Praia dos Lenções em São Luiz do Maranhão. Impressionou-se com o ritmo e obteve a autorização para regravar as músicas. Foi quando cantou o histórico carimbó “Sinhá Pureza”. Música que é uma espécie de certidão de batismo do carimbó como paraense, feito em homenagem à primeira incentivadora do autor, Maria Isabel Pureza. Teve indiscutível sucesso nacional, sendo regravado em alguns países da América Latina.

Hoje, Pinduca é músico de carreira regular. Um compositor voltado para o público que irá consumir a sua obra. Que compõe preocupado com a criação e com a repercussão no consumo do seu trabalho. Quer fazer músicas que sejam populares. E o fez. É um profissional competente. Lembra nosso precursor Ari Lobo, no talento e na obstinação.

Pinduca é para nós, a seu modo, o que Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, por exemplo, são para o Nordeste: voz da Terra. Uma terra de várzeas, barracos, rios, igarapés, florestas, queimadas, mitos e devastação. Uma terra em lendária e incansável busca de expressão” (1), ou seja, da batida sonora e contagiante à dança que esse gênero musical proporciona aos amantes do Carimbó.

Desde o início da carreira artística, Pinduca tem inserido no seu repertório, elementos que compões as classes sociais para uma reflexão direta ou não dos seus ouvintes. Por exemplo, reproduzimos aqui a letra da composição O Rico e o Pobre, cujos versos são estes: “O pobre o rico são duas pessoas/O soldado protege os dois/E o operário trabalha pelos três/E o vagabundo como pelos quatro/E o advogado defende os cinco/E o juiz condena os seis/E o médico examina os sete/E o coveiro enterra os oito/E o diabo carrega os nove/ E a mulher engana os dez/E a mulher engana os dez” (2).

Passados quase 50 anos do lançamento dessa canção, fomos pesquisar o significado dessa composição. A dança social das classes em O rico e o pobre, trata de “uma reflexão sobre as diferentes posições sociais e funções, que as pessoas desempenham na sociedade. A letra é uma espécie de parábola que, através de uma sequência numérica crescente descreve uma cadeia de relações e dependências entre diversos personagens sociais, começando pelo rico e o pobre” (2).

Apesar da figura da mulher ser descrita como enganadora, a música pode ser, também, “interpretada como uma crítica à estrutura social e às desigualdades existentes, onde cada um, independentemente de sua posição, contribui para a manutenção do sistema. A menção à mulher no final da canção pode ser visto como uma crítica ao estereotipo de que as mulheres são enganadoras, refletindo talvez uma visão machista da época em que a música foi composta” (2). Interessante.

Esta é a nossa homenagem ao mestre Pinduca pelos seus 88 anos de vida e pela brilhante carreira de mais de meio século. Sua música não é apenas do Pará, do Brasil, é do mundo. Esperamos que os nossos leitores tenham gostado da nossa iniciativa. Ouçam Pinduca. Façam a vossa avaliação.

A foto do texto, refere-se aos discos do volume 7 ao 12, do artista em análise.

Por Angeline e F. gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. LP do Pinduca, vol. 9, RJ: Copacabana, 1980; 2. http://www.letras.mus.br.

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