Tarde de autógrafo com Milton Hatoum

“Uma grande vocação artística não depende apenas de uma escolha” (Milton Hatoum).

Em agosto deste ano, a mídia brasileira noticiou que o escritor amazonense Milton Hatoum (73 anos) fora eleito para a ABL por 33 de 34 imortais votantes. Além de romancista e contista, ensaísta e tradutor, é professor universitário. Em 1989, lançou seu primeiro livro, Relato de um certo Oriente; onze anos depois, em 2000, foi a vez de Dois irmãos; em 2005, chegou às livrarias, Cinzas do Norte. Depois vieram outras obras.

Em 08 de agosto de 2005, o jornal A Crítica divulgou que no dia seguinte Milton faria uma tarde de autógrafo nas livrarias Nobel e da Bemol no Millennium Shopping, centro Sul de Manaus, para o lançamento de Cinzas do Norte. Eu era adolescente e já era fascinada por prosa e poesia. Não podia, portanto, perder essa oportunidade. Naquela tarde – eu, minha colega de ensino médio, Tâmila, e meu pai -, seguimos para o local do evento. Levei os três livros antes citados. Fui a primeira da fila de fãs/leitores que esperavam por aquele encontro grandioso. O escritor fez a dedicatória nos três exemplares e, ainda disse que estava admirado por eu e minha amiga sermos tão jovens e interessadas por literatura. Tem mais: antes do início da sessão, o meu pai conversou bastante com ele sobre o interessante conteúdo de Dois irmãos. Foi muto gratificante!

Minha gente, é tão prazeroso falar sobre esse autor e sua obra, um expressivo vulto da nossa literatura, e tão brilhante que é Hatoum, que fico sem saber sobre qual dos três romances devo abordar aqui, haja vista que todos são excelentes. Vamos, então de Dois irmãos. Segundo o jornalista Daniel Piza (O Estado de São Paulo), é “um dos melhores livros surgidos nas letras brasileira no último decênio. Um ponto luminoso”.

“Onze amos depois da publicação de Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum retomas os temas do drama familiar e da casa que se desfaz. O enredo desta vez tem como centro a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho, um menino cuja infância é justamente por esta condição: ser o filho da emprega.

Dois irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença nessa casa. Mas o lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o ponto à margem do rio negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar.

O narrador busca a identidade de seu pai entre os homens da casa, entre os restos de outras histórias. Tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. Num jogo de inventar a memória, tenta transformá-la em ponto de convergência do passado. Sua fala nos mostra Halim, o pai, sempre à espera da decisão de sua mulher ao filho preferido, Omar; o trauma de Yaqub, o filho que, adolescente, foi levado a se separar da família; a relação amorosa entre Rânia e seus irmãos. De Domingas, o que ele nos diz é que esta é uma mulher que não faz escolhas.

Em Dois irmãos os conflitos são alimentados pela rede de interditos no interior da família, e somente quando se passarem mais de trinta anos, quando quase todos já estão mortos, é que o narrador parece motivado a olhar para eles. Mas o relato que escreve – se é construído pela dúvida e se dá todos os sinais de empenho em descobrir uma verdade qualquer – não parece amenizar o silêncio que o habita.

O romance de Milton Hatoum impressiona pela verticalidade e delicadeza na composição do enredo e dos personagens. Há um jogo minucioso com a linguagem cujo resultado é a impossibilidade de estabelecer um sentido prévio à narrativa. Esse sentido será, aos poucos, construído no próprio ato da leitura” (1).

“Ato da leitura”, é exatamente isso que recomendo a cada leitor deste blog que ainda não conhece as obras do agora imortal da ABL, o fantástico escritor amazonense Milton Hatoum. Espero que todos gostem deste meu simples, mas importantíssimo resumo para quem é fã, como eu e o meu pai, o professor Francisco Gomes.

Por Winnie Barros.

Fonte consultada: Hatoum, Milton. Dois irmãos. – SP: Companhia das Letras, 2000.

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