Amazônia: “A estufa da natureza”

O acervo musical do Facetas ficou mais enriquecido com a doação de CDs/LPs do nosso leitor Evans Gomes, de Vilhena (RO). Do material consta o disco “Abre-te sésamo” (1980) + encarte duplo, de Raul Seixas. Na música Aluga-se, de sua autoria e Cláudio Roberto, estão estes sarcásticos versos, referentes a situação política econômica internacional, pela qual passavam o Brasil e a Amazônia nos anos 1980: “Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar/Tem o Atlântico, tem vista pro mar/A Amazônia é o jardim do quintal/E o dólar dele paga o nosso mingau”.

Mas, para tal, o sagaz roqueiro achava que a solução para o povo seria “alugar o Brasil”, haja vista que a Amazônia (já) estava infestada de gringos em todos os confins da floresta – muitos deles voltados para interesses obscuros. Porém, passados mais de 40 anos, hoje, a região está no topo do noticiário mundial por conta do advento da COP30 de 2025, realizada oficialmente de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA), por mais de 190 países onde foram debatidos vários temas, principalmente, os de soluções climáticas para o planeta Terra.

Vamos, então, ao tema acima: Amazônia: “A estufa da natureza”. Há mais de 50 anos, em 1973, o escritor norte-americano Thomas “Tom” Sterling (1906-1974) e os editores de Time-Life rumaram para “As regiões selvagens do mundo”. África, por exemplo. A Amazônia fazia parte das expedições. Dez anos depois, em 1983, a Editora Cidade Cultural do sistema Jornal do Brasil, reuniu o material coletado e publicou o livro “A Amazônia“.

O livro tem 183 páginas, cujo estudo está voltado para a porção territorial amazônica brasileira. São sete capítulos com temas distintos, complementados por 112 fotos de Michael Freeman. Temas como: “Os muitos Amazonas“, “A terra ameaçada“, “Formas da Amazônia“, entre outros. O autor narra, – em subtítulos , sobre as belezas da selva: bichos, plantas, águas; “os exploradores eruditos”; “os habitantes da selva/a vida numa aldeia”, etc.

No capítulo “A estufa da natureza”, Tom inclui esta citação de Cláudio Villas-Boas, que garante, ser a Amazônia um lugar onde “tudo se confunde numa única fertilização imensa, numa digestão imensa, numa excreção imensa”. Na sequência, o escritor faz este registro: “A floresta amazônica não corresponde a nossa ideia de selva, com a cerrada vegetação rasteira que, no século XIX, tornou famosos os exploradores de facão em punho. De fato, em sua maior parte não é uma floresta de mato fechado. Sob a alta copo das árvores, ela parece quase um parque coberto, com espaços amplos e caminhos limpos. Não é difícil imaginar que um exército de faxineiros tivesse sido contratado para cuidar dela; andando constantemente atrás dos habitantes para limpar tudo que deixassem em seu rastro. Trata-se de uma floresta extremamente organizada.

A floresta é, pois, uma estufa, um mundo sem inverno, onde os processos vitais, se realizam mais depressa do que em climas frios. Portanto, a vegetação reproduz-se constantemente. Não há estação em que as plantas não possam germinar, crescer, florescer e dar frutos” (1).

No trecho sobre “Os habitantes da floresta”, diz: “O modo de vida dos índios pode não durar muito. Até mesmo os que procuram desesperadamente ajudar, podem, paradoxalmente, contribuir para o declínio dos indígenas. Os irmãos Villas-Boas (Cláudio, Orlando e Leonardo) dedicaram-se aos índios por mais de trinta anos, e, no entanto, anunciaram que se afastariam gradualmente da Amazônia e, portanto, do trabalho para a Funai. Como disseram, “estamos convencidos de que, cada vez que estabelecemos contato com uma tribo, contribuímos para a destruição da coisa mais pura que ela possui – a sua forma de vida” (1).

Em “A terra ameaçada“, o observador garante que no início de 1970, ele e a sua equipe estavam perto da cidade de Humaitá (AM), no rio Madeira, à margem da Rodovia Transamazônica e viram o seguinte cenário em plena selva: “A estrada rasgava a terra vermelha na região sul do Amazonas, como se a floresta tivesse sido arranhada por um gato gigantesco. […] Dos dois lados da estrada, a floresta estava muito destruída. As raízes erguiam-se no ar como garras. A terra seca da estrada era ladeada por paredes de vegetação espessa, de quase 50 metros de altura. Nos planos (dos construtores), elas também deveriam ser derrubadas em breve. A floresta tropical brasileira estava sendo arrasada a um ritmo de quase 80 mil quilômetros quadrados por década e se tal ritmo fosse mantido, a floresta virtualmente desapareceria em cem anos” (1). E, ainda nesse mesmo contexto, Tom cita o ornitólogo Konrad Guenther (1874-1955), nascido na Letônia, com esta máxima: “Quando o ruído do homem e de suas máquinas se desvanece, a voz da natureza se faz ouvir”.

Por fim, Sterling enfatiza: “Sem dúvida, o próprio fato de os mistérios (da região) serem ocultos é que desencadeia a imaginação do observador. Os exploradores acabam por ver a floresta amazônica como um animal vivo, cuja vida interior é suprimida pelo manto verde, mas que rebrilha através da mais pálida flor e se despeja nas torrentes poderosas dos rios que correm para o mar” (1).

Senhores leitores, o que esperar, portanto, de concreto dos Tratados Internacionais que são prolatados para a Amazônia – tanto a brasileira – quanto a que abrange vários outros países da América sulista, se o tempo não para e destruição, também não?

Sobre as fotos do texto: uma é a capa do livro; a outra, uma mãe indígena da tribo Maku (AM, alto rio Negro), banhando o filho com água fria colhida numa cuia de cabaça.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. Sterling, Thomas. A Amazônia. RJ: Sistema do Jornal do Brasil, 1983.

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