No dia 25 deste dezembro, a soteropolitana Simone Bittencourt de Oliveira, fará 76 anos de idade. Estamos falando da cantora Simone. Uma das grandes vozes da MPB. Há 50 anos, em 1975, já demonstrando muito talento artístico, ela lançou o excelente disco “Gotas d’água”, cujo trabalho é um marco tanto na sua carreira quanto na música nacional.
Na contracapa do LP o brilhante compositor, jornalista, poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho (90 anos) publica este interessante texto. Vamos à sua íntegra: “Simone eu a conheci há menos de três anos. Acho que era uma tarde fria, e a casa onde estávamos ficava em São Bernardo do Campo. Falei em casa, mas era um chalé com muita grama em volta. Nos sentamos lá fora, numa dessas mesas de concreto, a “mescalina” refastelada em meu pé. Me lembro de seu carinho em servir-me na boca as trouxinhas de arroz-feijão-carne seja que preparava com as mãos, costume que ela, baiana de Capricórnio, e eu, carioca ariano, aprendemos a cultivar. Fomos depois para um canto da casa (tinha lareira? – sei que eu estava meio bebinho de uisque) e então lhe forneci uma leitura nova, interiorizada, do “Voltei pro morro”, que a Carmen cantava jogando tudo pelas mãos. Por favor, não é que eu não gostasse; mas eu sentia de outro jeito também, Isso não vem ao caso, afinal. Mone havia seu primeiro LP há pouco – e coincidiu que andava eu procurando uma cantora para integrar um espetáculo cuja direção me fora confiada. Não alongando a história: escolhi Simone (Você é louco! – uma desconhecida!) e produzi um LP específico para o mercado europeu – uma preparação de terreno , enfim. O espetáculo foi para a Bélgica, Alemanha e França (no Místico Olympia). A brasilidade do trabalho foi amplamente assumida, era uma espécie de panorama que englobava manifestações populares com outras aculturadas: maculelê, samba-de-roda, bossa nova, candomblé, chorinhos, capoeira. O trabalho acabou repercutindo nos EUA. Voltamos ao Brasil e gravamos outro P (“Festa Brasil”, que deu nome ao novo espetáculo, um pouco reformulado), que, igual ao “A Bruxelles”, ficou distribuído só no mercado exterior. Foram três meses entre Estados Unidos e Canadá, com a crítica falando sempre da figura morena, de temperos tão fortes. Assim ela foi criando seu nome no exterior – mas e no Brasil? Aqui se começava a falar de Simone, e o LP “Quatro paredes” veio colocá-la em evidência junto ao povo e à crítica. Este “Gotas d’água” tem muito a ver com o empoçamento que existe em seu coração. Simone é essa lâmina gotejada, ser dividido entre mulher e anjo.
Convidei Milton Nascimento para co-produzir este disco numa busca de soma, num movimento em que tantos se dividem. Porque para nós, Bituca é uma espécie de igreja. Sua admiração por Simone facilitou os trabalhos, e vocês podem observar pela ficha técnica a qualidade dos músicos que conseguimos agrupar nesta gravação. De Abel, Dino até o “Som Imaginário”.
Queremos oferecer o que se buscou lá no fundo, o que deixaram ver à tona. Que vocês amem Simone , como nós a amamos” (1).

“Gotas d’água” apresenta 12 músicas de Danilo Caymmi, Joyce (Moreno), João Bosco, Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Gonzaguinha, Tavinho Moura, Milton Nascimento, Fernando Brant, entre outros. Esse trabalho trás ainda, a música homônima, de Chico Buarque, uma das primeiras dele, gravadas por Simone ao longo de meio século. Esse LP não marcou apenas a carreira artística dessa baiana, mas, também, um referência musical para o cancioneiro brasileiro.
Matriz ou Filial, de Lúcio Cardin, uma das faixas, hoje é um clássico em todo Brasil; Eu Nem Ligo, de Gonzaga Jr, é outro exemplo. Porém, o carro chefe é Gota d’água (assim mesmo: “Gota”, no singular), de Chico Buarque, cuja letra é esta: “Já lhe deu meu corpo, minha alegria/Já estanquei meu sangue quando fervia/Olha voz que me resta/Olha a veia que salta/Olha a gota que falta pro desfecho da festa/por favor, deixa em paz meu coração/Que ele é um pote até aqui de mágoa/E qualquer desatenção, faça não!/Pode ser a gota d’agua/Deixa em paz meu coração/Que ele é um pote até aqui de mágoa/E qualquer desatenção, faça não!/Pode ser a gota d’água”.
Que maravilha de poesia! Estes dois versos, então: “Deixa em paz meu coração/Que ele é um pote até aqui de mágoa”. É isso mesmo: paz, sossego, coração sem mágoa. Todos devemos viver assim. Parabém ao Hermínio, pelo texto; à Simone pela bela interpretação do seu canto, seu aniversário; ao Chico pela magistral composição e melodia; e principalmente aos nosso leitores. Esperamos que gostem.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. LP “Gotas d’água”, de Simone. SP: EMI/Odeon, 1975.