Geraldo Vandré: 90 anos

Ele mora na cidade do Rio de Janeiro desde 2021 – antes, por muitos anos, morou em São Paulo -,e leva uma vida discreta e longe dos holofotes. Porém, nem sempre foi assim, é claro. No final dos anos 60 já estava engajado nos Festivais de Música, fazendo composições de protesto ao regime militar, tais como Pra Não Dizer Que Não Falei de Fores, Disparada, Fica Mal Com Deus, etc.

Seu nome de batismo é Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, ou seja, o cantor e compositor paraibano, artisticamente conhecido como Geraldo Vandré, nascido no dia 12 de setembro de 1935. Completou, portanto, 90 anos de vida. Aliás, “Vandré”, vem do pai: José Vandregísilo.

Quando o Facetas foi criado em agosto de 2015, em homenagem aos 80 anos do artista, decidimos que o nosso primeiro artigo, seria assim: “Pra não dizer que não falei de Vandré”. Agora, 10 anos depois, é sobre o seu disco “Canto Geral”, cuja foto da capa é emblemática. Nesse LP, o autor explica, em texto, o porquê de Canto Geral. Vamos então, a alguns trechos, de março de 1968:

“A comunicação (não confundir com massificação) é para nós o objetivo fundamental de qualquer trabalho em arte. A invenção e a elaboração somente transcendem seus aspectos puramente formais e passam a ser efetivamente criativas quando servem a uma necessidade real e concreta de repartir. Sem bondades e sem heroísmos” (1).

“Por uma decorrência natural de ser e de ter. Porque repartir é, em última análise, um exercício fundamental da existência é a única razão de ser da propriedade”.

“Construindo casas ou pontes, igrejas ou hospitais, pintando, curando doentes, voando ou varrendo as ruas, fazendo politica ou amor, morrendo e, porque não, matando, a vida importa somente pela doação que se faz dela, pelo sentido e pela direção. Às vezes penso que cantando mereço um pouco da vida. Saldo em parte os meus compromissos e tenho então, cada vez mais forte, a impressão da liberdade. Por isso aprendo a cantar e canto”.

“Neste disco a palavra Geral tem de mim somente uma vontade muito grande de colocar-me sem pudores com o instrumento da comunicação de tudo que aprendi a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do meu tempo , do meu lugar e da gente que vive neles. A palavra Geral tem ainda o sentido do reconhecimento público que devo a algumas pessoas cujo trabalho e dedicação profissional tornaram possível a sua realização”. E, passa a citar nomes de produtor, diretor e músicos que participaram dessa obra, com reconhecimento e gratidão. E fala, também, dos “meus defeitos maiores e menores, pela teimosia nordestina e pelo amor à terra e sua gente”.

“O sentido da palavra Geral defende, afinal, do acerto no trabalho. Das notícias e das emoções que ela possa trazer a cada um de nós e principalmente do uso que faremos delas”.

“É possível que este disco tenha custado a mim mesmo e a outras pessoas mais do que esperávamos, do que gostaríamos ou do que seria justo que custasse. Mas eu tenho uma boa explicação: Os critérios de justiça do mundo em que vivemos ainda estão muito longe de poder dar-nos uma certeza e uma garantia mínima do que seja verdadeiramente junto ou injusto” (1).

Por fim, ele faz a seguinte citação do mestre alemão Bertold Brecht, autor desta máxima: “Desses tempos que em que falar de árvores é quase um crime, pois implica em silenciar sobre tantos erros – aos que virão depois de mim”.

Amigo leitor, ouça “Canto Geral”. É um primor musical. São 10 músicas imperdíveis. Quase todas são de autoria de Vandré e Théo de Barros, como Terra Plana, Cantiga Brava, Ventania, entre outras, cujo LP foi relançado em 1985, no ano do fim do regime militar e da redemocratização do Brasil.

Notinha útil – Nós, do Facetas, fazemos uso destas gloriosas palavras do poeta maranhense Ferreira Gullar, para desejarmos a todos as pessoas, principalmente aos nossos leitores, um FELIZ NATAL/2025 repleto de luz, paz, amor, saúde, vida: “Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus mas que nasce das mãos e do espírito dos homens” (www.facetascuturais.com.br).

FELIZ NATAL! São os votos de Angeline, Francisco e Winnie.

Fonte consultada: 1. LP “Canto Geral”, de Geraldo Vandré, RJ: EMI Odeon, 1968, 1985, 1987.

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