O amor

Consulte um filólogo sobre o vocábulo AMOR (do latim, amore), e logo, logo lhe serão apresentados mais de uma dezena de definições e variações. Primeiramente assim: “Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa: amor ao próximo; amor ao patrimônio artístico de sua terra natal”. Ou ainda: amor aos animais; amor aos alunos; amor às artes; amor ao meio ambiente, entre outras.

Por esse prisma, o escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), no seu livro (Indez, BH: Miguilim, 1998), publicou “O amor”, isto é, o interessantíssimo texto literário com um relato em prosa de fatos fictícios, imperdível à nossa leitura – bem ao estilo do Facetas. A seguir, fragmento:

“Era silencioso o amor. Podia-se adivinhá-lo no cuidado da mãe enxugando as roupas nas águas de anil. Era silencioso, mas via-se o amor entre seus dedos cortando a couve, desfolhando repolhos, cristalizando figos, bordando flores de canela sobre o arroz-doce nas tigelas.

Lia-se o amor no corpo forte do pai, em seu prazer pelo trabalho, em sua mansidão para com os longos domingos. Era silencioso mais escutava-se o amor murmurando – noite adentro – no quarto do casal. A casa, sem forro, deixava vazar esse murmúrio com o aroma de fumo e canela, que invadia lenções e dúvidas, para depois filtrar-se por entre telhas.

Experimentava-se o amor quando, assentados ao calor da cozinha, pai e mãe falavam de distâncias, dos avós, das origens, dos namoros, dos casamentos.

E, quando o sono chegava, para cada menino em cada tempo, era o amor que carregava cada filho nos braços para a cama, ajeitando o cobertor debaixo do queixo.

[…] Em tardes de domingo, sempre muito longas e vestidas de sossego, a mãe se fazia criança para os filhos.

Ao pé da escada, junto da porta da cozinha, estava o tanque. De cimento, ele guardava a água fria que despencava do morro, escorregando dentro dos bambus – veias cristalinas. A umidade favorecia viver e crescer ali, musgos verdes, tapetes por onde pequenas formigas passavam, arrastando montes de folhas. Mesmo o olhar se sentia acariciado por veludo assim tão fino.

Com anilinas para doces a mãe coloria as águas no tanque, uma cor de cada vez, e mergulhava as alvas galinhas legornes em banho colorido: azul, verde, amarelo, vermelho, roxo. Em pouco tempo o quintal, como por milagre, era pátio e castelo, povoado de aves – legornes agora raras – desenhadas em livro de fadas. Ficava tudo encantamento. Não havia livro, mesmo aqueles vindos de muito longe, com histórias mais bonitas do que as que a mãe sabia fazer. Não era difícil para Antônio imaginar-se príncipe e filhos de mágicos.

Quando o dia ameaçava esconder o sol, entre seios e montanhas, aquele inofensivo bando, filho do arco-íris que morava na cabeça da mãe, se empoleirava nos galhos das árvores, bailarinas em carnaval. Antônio olhava os galhos até não poder mais, com seus antigos moradores vestindo roupa nova de festa, feita pela mãe; pensava na árvore de Natal que não tardaria a brotar no canto da sala, com sombra protegendo presentes.

No outro dia, o barulho do milho na cuia trazia para junto dos meninos um arco-íris feminino e já meio desbotado pela noite e seu sereno. Mas ficava a certeza de que a mãe, em qualquer momento, brincaria de outra coisa” (1).

E como o amor – o de mãe, então – preenche a imensidão da vida, finalizamos aqui com estes inesquecíveis versos de Zé Ramalho e Carlos Drummond de Andrade, respectivamente: “Feche o quarto com cimento/E veja que mundo cinzento/E como ficou o verbo amar!/E como ficou o verbo amar!”; e “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar./O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar;/O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.

Notinha útil – Amanhã, primeiro de fevereiro, onde quer que esteja em algum lugar do Nordeste, o jovem Heitor estará completando mais um mês do “alvorecer da existência”, como bem o disse o escritor José de Alencar. Ao nosso príncipe, os parabéns do Blog.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. Sarmento, Leila Lauar. Português: leitura, redação, gramática. – 2. ed. – SP: Moderna, 2006; 2. Foto da tela “O susto da bailarina”, do artista plástico amazonense, Ruy Santos. Exibida neste artigo.

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